Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Manuel Gomes clama mais apoio das autoridades

15 de Dezembro, 2009

pugilista angolano, vencedor dos ttulos mundiais

Fotografia: Jornal dos Desportos

O que está a fazer em Portugal nesse momento que o país precisa de todos os filhos?
Tenho uma Escola de Formação, onde sou treinador-adjunto e respondo pela área de formação. Nesse momento, deixei um atleta angolano muito talentoso, em Portugal, que conquistou a medalha de ouro, no passado dia 29 de Novembro, elevando para quatro o número de medalhas de ouro. É um atleta que já levei ao conhecimento do Ministro e que estou a preparar para os próximos Jogos Olímpicos, onde não vai para participar, mas para competir e conquistar a medalha de ouro. Solicitei ao Ministério da Juventude e Desportos um incentivo para essa promessa angolana, pois é um jovem que pode ser útil ao país nas competições internacionais.  

Quando volta definitivamente a Angola?
Estou sempre em Angola e conheço a realidade da modalidade no país; nunca fiquei muito tempo sem vir; estou a criar condições para adquirir um espaço necessário para abertura de uma escola de formação. Comuniquei ao ministério de tutela os objectivos do meu regresso ao país, pois cinge-se no meu contributo através da criação de um centro de treinos e o Ministério deve ajudar-me a encontrar um terreno para os devidos efeitos.

Encontra dificuldades sempre que regressa ao país?
Não tenho tido a atenção merecida por parte de quem de direito. Acredito que se fosse alguém ligado ao futebol, basquetebol ou andebol teria outro tratamento. Gostaria de ter a mesma atenção que o Ministério dá aos outros desportistas

Correram informações sobre uma suposta casa oferecida pelas entidades máximas do país dado ao seu contributo ao boxe. Como está essa situação?
Em 2002, fiz a entrega do meu cinturão à Sua Excelência Presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos, ao qual havia anunciado a minha retirada da alta competição, mas fui encorajado por Sua Excelência a continuar a elevar a bandeira da República de Angola no contexto internacional. Após isso, pesou-me a consciência, dado o encorajamento do Presidente da República. Voltei a Portugal e continuei as competições internacionais defendendo o título. Em Agosto de 2007, voltei ao país, onde fiz a defesa do título, na Cidadela Desportiva, cujo cinturão entreguei ao Presidente da República. Era o segundo e foi uma forma de mostrar que cumpria com aquilo que me havia dito.

Até ao momento não me respondeu a pergunta…
O Presidente da República havia me orientado fazer chegar ao seu gabinete tudo que precisasse e fiz a exposição das preocupações que mais me afligem, tal como, a falta de uma residência condigna, onde podia albergar a minha família. Entreguei a documentação na secretaria do Protocolo de Estado e poucos dias depois, em Novembro de 2007, o Presidente da República deu despacho favorável à minha petição com o seguinte teor: “No âmbito da atribuição de residências para atletas de alta competição, que se inclua uma residência para o campeão Manuel Gomes” (sic). Isso foi no pacote daquelas casas que deram aos jogadores de futebol após o Mundial da Alemanha.     

Porque não recebeu a casa?
Dias depois, desloquei-me ao Protocolo de Estado para saber da resposta da carta ora citada, encontrei, e alegaram que o contacto telefónico que se encontrava no envelope estava fora de funcionamento. Na verdade, o contacto descrito no envelope tinha sido trocado três dígitos, o que fez com que não pudessem manter a ligação. Até à presente data, estou sem a referida casa.
 
Houve erro na descrição do contacto?
Não acredito que seja um erro, mas um trabalho propositado por parte de quem digitou a mesma, no sentido de alegar que não foi comunicado por ter um contacto fora de funcionamento. Lamento bastante por esse facto.

“O nosso país está
em fase de crescimento”

Um comentário sobre a situação do boxe em Angola…
A falta de massificação é a minha grande preocupação, pois o nosso país está em fase de crescimento. Não podemos continuar a contar com três ou quatro províncias, num universo de 18; temos de trabalhar com todas e, para isso, devemos estar unidos. O boxe deve ser expandido em todo o território nacional, de maneira que o país saia a ganhar. Aliás, não é de um determinado número de pessoas, mas de todos os angolanos. Assim sendo, precisam-se de pessoas certas nos lugares certos para que haja evolução na modalidade.  

O seu nome consta da galeria dos campeões mundiais de boxe. Que comentário se lhe oferece fazer, na qualidade de único pugilista que venceu o título mundial na versão transcontinental em três categorias diferentes (Super-galo, Pluma e Super-pluma)?
Expressaste muito bem: campeão do mundo transcontinental. Antes de fixar a minha residência na Europa (Portugal), já representava o país além-fronteiras. Desde 1983, comecei a trabalhar com a Selecção Nacional e a última competição foi em Novembro de 1996. Era o único atleta angolano que fazia competições e trazia medalhas para o país; representei por muito tempo o Inter de Luanda, hoje Interclube, e durante muitos anos consecutivos fui imbatível. Trabalhei com vários treinadores com destaque para professores cubanos e russos até em 1988, ano em que segui para a Coreia do Sul nos Jogos Olímpicos em representação do país.

Qual era o seu objectivo naquela competição?
O mais alto possível, porquanto em cada competição que fazia, o resultado era de vencedor. Sempre almejei conquistar o maior número possível de medalhas: bronze, prata e ouro. Assim aconteceu em todas as competições que participei para minha satisfação.

Quando começou a pensar em título mundial?
Naquela época, o país tinha poucos profissionais e, para se investir num título mundial, tinha de ser na Europa. Essa é a razão pela qual pensei em enveredar no continente europeu no sentido de seguir a minha carreira profissional, o que deu azo ao título mundial em 1997.

Num contexto diferente ao de Angola, como conseguiu gerir a sua carreira a nível internacional?
Antes da minha estada na Europa, trabalhei muito tempo em Angola; estagiei nos países como Portugal, França, Cuba, Alemanha, entre outros, onde aprendi muito mais. Outrossim, a minha saída de amador para profissional deve-se à vasta experiência que já possuía, embora não me conhecessem no cariz internacional.

Como foi parar em Portugal e quais eram os objectivos?
Antes de partir para a Europa, já era detentor de títulos dos Jogos dos Palop, no qual dei nas vistas de portugueses que reconheceram os meus dotes e me considera (ra) m bom. Em 1996, na última deslocação a Portugal, pela Lusíada, fui à final com o atleta António Bembo, de nacionalidade portuguesa, que perdeu (por pontos?) e conquistei a medalha de ouro. A partir daquele momento, surgiram propostas no sentido de fixar a minha residência em Portugal. Caso aceitasse, tudo indicava que me tornaria campeão do mundo. E como o meu objectivo era tornar-me, algum dia, recordista do mundo, aceitei a proposta.

HOMENAGEM
É QUIMERA

Como está a homenagem à sua pessoa inicialmente marcada no ano passado?
A ausência de João Ntyamba foi o motivo do adiamento. Naquela altura, encontrava-se na Colômbia. Hoje, a realidade é diferente. Vamos esperar o acto ainda no decorrer do presente ano, uma vez que o João Ntyamba e eu nos encontramos no país.

Está a dizer que a homenagem só podia ser feita com a presença de João Ntyamba?
Foram as razões evocadas à última hora sob o olhar atento de alguns convidados no Hotel Trópico e à comunicação social. Tudo estava preparado para o êxito da cerimónia.

ACREDITO
NO SUCESSO

Como desportista, que comentário se lhe oferece fazer sobre a prestação dos Palancas Negras na Taça Africana das Nações Orange Angola’2010?
O CAN é a montra do futebol africano. Apesar de prever dificuldades para a Selecção Nacional, dado o nosso nível competitivo, estou crente que Angola, o meu país e de todos os angolanos, com fé, pode fazer uma boa figura. Vamos jogar em casa, somos os realizadores. A boa qualidade de jogadores da Selecção Nacional aliada a do treinador, acredito que tudo faremos no sentido de obtermos bons resultados. Sem menosprezar ninguém (até porque todas as outras selecções são fortes), creio na boa prestação da Selecção Nacional.

Por dentro

Nome: Manuel Gomes
Data de Nascimento: 20.8.1966
Naturalidade: Waco Kungo (Kuanza-Sul)
Nacionalidade: Angolana
Estado Civil: Solteiro
Filhos: Três
Peso: 66 Kgs
Altura: 1.65 m
Nº de calçados: 40
Desporto: Boxe
Prato preferido:
Funji com carne
Tabaco: Não
Bebidas: Água
Droga: Contra
Poligamia: Opção de cada um