Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Mrio Calado, treinador do Santos Futebol Clube

Augusto Panzo - 30 de Setembro, 2009

Mrio Calado, treinador do Santos Futebol Clube

Fotografia: M.Machangongo

Que avaliação faz da vossa participação na Taça CAF?
Felizmente, conseguimos contagiar todos, mostrando a África que temos talento, capacidade e trabalho. Foi assim que, conscientes das nossas responsabilidades, unimo-nos todos, atletas, treinadores e área administrativa. Antecipadamente, dissemos à direcção do clube que a nossa participação seria muito difícil do ponto de vista financeiro e, felizmente, foi-me dito pelo presidente para ficar descansado, na medida em que haviam de se organizar nesse aspecto e poderíamos competir até à final. Financeiramente, tudo estava estruturado para poder fazer face a esse grande desafio.

A par do clube, tiveram apoio financeiro de outros organismos?
Apenas o clube nos apoiou. Apesar de não chegarmos à final, temos de dar parabéns à direcção do Santos FC, na pessoa do seu presidente, pelo esforço que fez, sem apoio de qualquer estrutura, quer ao nível do Ministério da Juventude e Desportos, quer da Federação Angolana de Futebol (FAF). Para um clube tão jovem como o nosso, com encargos financeiros tão elevados, ter chegado onde chegamos, é de tirar o chapéu.

E do ponto de vista desportivo?
Fomos trabalhando, passando por todas as fases. Administrativamente, o nosso clube não tinha grande experiência no processo organizativo, nem desportivo, pois somos ainda caloiros e as exigências eram muitas.
Havia a necessidade, primeiro, de contagiar e fazer um pacto com todos os integrantes do grupo, porque, afinal, era uma oportunidade que tínhamos para marcar a diferença no contexto africano.
Assim sendo, teríamos de olhar para os nossos adversários sem complexos. Se os atletas assumissem esse compromisso connosco, estaríamos conscientes de que, do ponto de vista táctico, podíamos tirar muitas vantagens.

Explique-se melhor.
É o que se notou em muitos jogos que realizamos. Fomos felizes porque os atletas interpretaram fielmente as nossas orientações e isso foi a base das vitórias que conquistamos.

"África queria conhecer o Santos"

O facto de eliminar o Al Ahly do Egipto não serviu de alento para uma campanha mais condigna?
Quando perdemos, por três bolas, no Cairo, dissemos que tinha sido um resultado injusto, pois o fiscal de linha teve uma actuação negativa ao não assinalar dois foras de jogo nítidos ao Al Ahly. Estamos a jogar em África e temos de compreender esses aspectos. Já em casa, mobilizamos a nossa equipa, tratamos dos argumentos tácticos, ofensivos e defensivos, de forma especial, pois queríamos dignificar o nome do clube, até porque nada tínhamos a perder. Eliminar o Al Ahly e entrar para a fase de grupos foi uma vitória para este grupo humilde de atletas. A partir daí, passamos a ser referência no contesto continental, pois toda a África queria conhecer o Santos.

Fale sobre a reacção que as equipas africanas tiveram em relação ao vosso feito.
Recebemos vários convites para jogos amistosos, mas não dava, pelo facto de na altura estarmos engajados na competição. Tínhamos eliminado um dos papões de África e, consequentemente, o nosso objectivo era competir de igual para igual com todos os adversários e assim chegarmos às meias-finais da Taça CAF. Sabemos que fomos felizes, por um lado, e infelizes, por outro, por alguns resultados que não faziam parte dos nossos prognósticos, o que fez esfumar o sonho de chegarmos à fase seguinte.

Concretamente, o que faltou para chegarem à fase seguinte?
Tivemos situações que nos criaram dificuldades do ponto de vista psicológico. Feriram o nosso orgulho. A direcção do clube fez um esforço muito grande no intuito de chegarmos à Argélia a tempo e horas, mas, por motivos alheios ao nosso clube, não foi possível. O jogo com o Setif foi o que mais nos criou problemas e ficou marcado como lição para o clube, os treinadores e os jogadores, para que, no futuro, tenhamos um comportamento diferente na análise desse tipo de situações. 

Concorda se dissermos que a goleada de 6-0 sofrida na Argélia foi determinante para o vosso fracasso?
Antes do jogo, tínhamos pedido desculpas aos nossos jogadores pelo esforço que haviam de fazer. A única coisa que lhes pedi foi que tinham de fazer aquilo que estivesse ao alcance de cada um, que não fossem para além das suas capacidades, pois humanamente era impossível pedir mais do que aquilo que fizeram. Jogamos de igual para igual, mas algumas anormalidades por parte da arbitragem prejudicaram a nossa equipa. O Cherry foi ceifado, sem que o árbitro desse a respectiva advertência ao atleta infractor. Em consequência, fomos obrigados a fazer uma substituição por um atleta que não tinha ritmo competitivo nem nível para a competição.

Uma arbitragem desumana

Houve interferência directa ou indirecta da arbitragem nos resultados que obtiveram?
A atitude do comissário do jogo, na partida em que perdemos com o Entente Setif, da Argélia, foi desumana. O árbitro deveria ser processado. O que ele fez é inadmissível. Além de o suspender, a CAF deveria irradiá-lo da competição.

Por tudo o que aconteceu, como caracteriza a arbitragem em África?
Os árbitros favorecem muito as equipas de casa. Em todos os jogos que fizemos fora, tivemos sempre problemas com os árbitros. Infelizmente, e como já temos conhecimento disso, tivemos o cuidado de pedir mais concentração aos jogadores para que, em nenhum momento, se envolvessem com a equipa de árbitros. Pedimos que deixassem para nós essa responsabilidade. Se reparar, mesmo nos jogos em nossa casa, com o Al Ahly, por exemplo, tivemos um penalty ao nosso favor, mas o árbitro não assinalou. O jogo com o Vita Clube, no terceiro minuto, o árbitro mostrou um cartão amarelo a um jogador nosso, o que em África, quando uma equipa joga em casa, é pouco comum. 

De qualquer maneira, sai de cabeça erguida da competição?
Primeiro, jamais nos iremos escudar no comportamento dos árbitros. Pelo contrário, isso tem a ver com o nosso comportamento e capacidade, por não nos sabermos impor ao ritmo dos adversários. Por outro lado, foi um processo extremamente positivo, a todos os níveis. Sentimo-nos orgulhosos e estamos conscientes de que dignificamos o nome do clube. Apesar de perdermos dois jogos, a comunicação social do Egipto rendeu-se às evidências em relação ao que aconteceu com o Al Ahly. Isso deu-nos alegria e alento para continuarmos a trabalhar, arduamente, para que, no futuro, possamos estar novamente neste grande convívio e melhorar o nível competitivo.

Equipa com potencial e direcção à altura

A equipa encontra-se numa posição pouco confortável no Girabola, quando faltam poucas jornadas para fim da prova. O que faz para mudar o quadro?
Temos consciência de que a equipa está neste lugar em função daquilo que vem produzindo, mas tem potencial e uma direcção extremamente profissional no cumprimento das suas obrigações para com os atletas. Acho que a direcção se deve orgulhar do facto de ter cumprido, na íntegra, com tudo o que os atletas precisavam. Temos de parabenizar o presidente por dar uma casa e um carro a cada atleta.

É uma acção de realçar…
Contribui para a auto-estima de qualquer cidadão e, fundamentalmente, de do atleta. Nós é que estamos em falta para com a direcção do clube nesse aspecto. É que o tempo que tínhamos de um jogo para o outro, as viagens, o cansaço, eram muito pesados para um núcleo de atletas muito jovens, com pouca tarimba nessas competições, o que contribuiu negativamente para os resultados. Daqui para frente, temos jogos que vamos encarar com satisfação e optimismo para darmos um salto na classificação e depois perspectivarmos um cenário diferente para o próximo ano.   

A mater-se no Girabola, como perspectiva a participação em 2010?
Primeiro, queremos finalizar a competição, de forma brilhante, para alegrar o patrocinador. Estamos em crer que vamos reforçar a equipa, na sua generalidade, mas, neste momento, ainda estamos concentrados nas últimas jornadas do Girabola. Por isso mesmo, precisamos da entrega total dos nossos jogadores e aumentar a capacidade de interpretação dos fundamentos técnicos e tácticos, de luta e de superação, no sentido de ultrapassarmos todos os adversário e, a partir daí, sairmos da situação em que nos encontramos.

Que prognóstico faz para a Selecção de Angola no CAN-2010?
Sou angolano e, como tal, gostaria que a Selecção Nacional ganhasse o CAN. Por outro lado, sou um técnico e acho que será uma tarefa árdua, que exigirá das pessoas que estão à frente um trabalho abnegado. É algo que merecerá de todos apoio incondicional. Vamos, todos juntos, dar a maior contribuição no sentido de alcançarmos os objectivos desejados e dar alegria ao povo angolano.