Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Mrio Correia destaca feitos do basquetebol Angolano

Valdia Kambata - 16 de Julho, 2010

Mrio Correia j um dos favoritos de Lus Magalhes

Fotografia: Nuno Flash

Foi considerado um dos melhores recuperadores do BAI-Básket’2010. Como se sente com a eleição? É uma grande honra. Tenho a sorte e a felicidade de ter óptimos colegas de equipa, que me ajudaram a conseguir esse feito. Sem eles, não teria conseguido. É um sonho tornado realidade, mas fruto de muito trabalho. Também conquistou o Campeonato Nacional...É formidável e extraordinário. Conquistámos o Campeonato Nacional, mas é mais especial para mim. Todos, como equipa, trabalhámos muito desde o início, por isso, merecemos a medalha de ouro. O sentimento é maravilhoso. O que o levou a aceitar o convite para vir para Angola?A minha vinda para Angola aconteceu de maneira inesperada. Vim disputar o Afrobasket’2007 pela selecção de Cabo Verde. Recebi uma proposta do Promade de Cabinda e, como não tinha um clube, aceitei ficar em Angola, porque o basquetebol é muito forte. O que sabia do basquetebol angolano? É muito forte e muito conhecido em África. Como amante do basquetebol, tinha a obrigação de conhecer o basquetebol angolano.Esteve na Europa. Por que não ficou por lá?Antes de vir para Angola, estive seis meses a jogar na pró-Liga portuguesa, na equipa do Maia Basket. Vim com a selecção do meu país e fiquei até aos dias de hoje. O pouco tempo que estive na Europa não deu para receber algumas propostas.Há diferenças na forma de encarar o basquetebol em Angola e nos países onde viveu? Saí de Cabo Verde com 19 anos de idade e fui para os Estados Unidos da América, onde joguei no basquetebol universitário. Também joguei em Portugal. Há muitas diferenças. Nos Estados Unidos da América, por exemplo, há muitos jogadores novos e sem grande experiência. É mais um campeonato em que muitos procuram mostrar as suas capacidades para encontrar uma equipa. Em Angola, o campeonato é disputado por jogadores já firmados e com rodagem em competições internacionais, como Jogos Olímpicos e Campeonatos do Mundo. São realidades muito diferentes. Encontrou muitas dificuldades?Confesso que não encontrei grandes dificuldades, pois em Angola fala-se a mesma língua e quase tudo é igual a Cabo Verde ou Portugal. Por essa razão, não vi grandes dificuldades. Agora, em termos de basquetebol, tive de me adaptar um pouco, pois o basquetebol angolano é muito dinâmico. Os primeiros jogos foram os mais difíceis, mas depois consegui dar a volta à situação, tanto que estou numa grande equipa como o 1º de Agosto, com a ajuda dos meus colegas, primeiros os de Cabinda e depois os de Luanda.O seu estilo de jogo mudou ao longo da época? Como disse antes, tive de adaptar o meu estilo de jogo para jogar bem em Angola. Tive de trabalhar mais o meu físico, tornando-me mais forte e mais rápido. Em que aspecto pretende melhorar o seu jogo? Em diversos aspectos. Vou trabalhar para melhorar mais o controlo de bola, os lançamentos e passes. De uma maneira geral, pretendo trabalhar mais para melhorar sempre. A que se deve o progresso do seu jogo na segunda metade do campeonato? Habilidade e confiança do técnico. Os meus companheiros apoiam-me muito. Como tenho boa percentagem nos lançamentos de três pontos, as defesas pressionam-me mais e tenho de procurar novas formas de penetração em direcção ao aro. As equipas angolanas estão mais fortes comparativamente à última época?Sim. Reforçam-se a cada época. Durante algum tempo, o 1º de Agosto vencia tudo, o que não aconteceu na última época. As equipas acostumaram-se e ajustaram-se ao nosso estilo de jogo. Jogam mais e melhor. Precisamos de levar o nosso jogo ao nível mais elevado. Qual foi o principal rival na última época?As equipas do Recreativo do Libolo e do Petro de Luanda jogaram melhor até agora. Notou-se evolução nos últimos dois anos.Qual é o seu objectivo, depois da primeira época ao serviço  do 1º de Agosto? É continuar por muitos e muitos anos, porque gosto de viver em Angola. Ninguém sabe o que pode acontecer amanhã, mas espero continuar a jogar basquetebol por muito tempo. É isso que gosto de fazer. "Aprendi como se jogano Promade de Cabinda" Como descreve a sua passagem no Promade de Cabinda?Bastante positiva. Aprendi muita coisa, como por exemplo, perceber como se joga em Angola. José Carlos Guimarães é um bom treinador e o Promade foi uma grande escola para mim, pelo trabalho feito, que aproveitei ao máximo, e que me permitiu saltar para o 1º de Agosto, uma grande equipa africana.Que avaliação faz do Projecto "Promade"?É um grande projecto que ajuda muitos jovens a integrarem-se na sociedade. O técnico José Carlos Guimarães e os auxiliares fizeram um grande trabalho em prol do desenvolvimento da modalidade em Cabinda. Durante o tempo que integrei aquele conjunto, vi muitos jovens interessados na modalidade. Seria bom se esse projecto continuasse não só em Cabinda, mas em todo o país. Ouvi dizer que, neste momento, está a enfrentar dificuldades, mas faço um apelo a quem de direito para não deixar esse projecto morrer, pois tenho a certeza que teremos muitos jovens a praticar basquetebol dentro de pouco tempo. Que razões o levaram a trocar o Promade de Cabinda pelo 1º de Agosto? Não tive outra opção. Todo o mundo quer continuar a evoluir. Surgiu uma oportunidade e aceitei integrar um dos maiores clubes de África. Tenho de dar continuidade ao meu projecto e ingressei no 1º de Agosto, clube que represento actualmente. "Selecção de Cabo-Verde está com uns furos abaixo"Cabo Verde foi o terceiro qualificado do Afrobásket’2007. Qual é a realidade actual?O basquetebol em Cabo-Verde está com uns furos abaixo. A maior parte dos jogadores que actua na selecção joga fora de Cabo Verde. Precisamos de um campeonato muito forte em Cabo Verde para termos uma selecção forte, tal como outras selecções africanas. Isso só será possível se tivermos uma federação organizada. Temos de nos organizar primeiro. As pessoas que estão a dirigir a Federação Cabo-verdiana de Basquetebol (FCBB) ainda não tomaram a sério a missão que têm em mãos.O basquetebol ainda não é prioridade a nível do desporto local?Não. Cabo Verde tem poucos recursos e nesta altura a prioridade do desporto ainda não é o basquetebol. Mas, ainda assim, devemos fazer muito mais para ter mais jovens a praticar basquetebol.  Rodrigo Mascarenhas é seu compatriota e colega no 1º de Agosto, clube no qual também passou Marques Houtman, outro cabo-verdiano. No próximo africano, Cabo Verde poderá fazer frente às grandes selecções?Embora tenhamos alguns poucos jogadores como o Rodrigues e o Marques, ainda temos de investir muito no basquetebol em Cabo Verde. Estes não bastam para fazermos frente aos grandes de África. Está é uma geração que termina dentro de pouco tempo e é necessário arranjar substitutos. É uma honra jogar no 1º de AgostoComo caracteriza o 1º de Agosto?É um grande clube, habituado a ganhar, muito profissional e com adeptos exigentes. No 1º de Agosto, os jogadores têm de estar sempre preparados para tudo.Teve dificuldades para se inserir numa equipa, que tem jogadores como Miguel Lutonda?Não. São jogadores com uma carreira brilhante a nível de África e do mundo, mas acima de tudo são humildes. Por isso, não tive muitas dificuldades para me adaptar aos colegas. Confesso que me ajudaram muito, são pessoas muito simples e admiro-os muito. Jogar ao lado daquelas estrelas é uma honra para mim, pois já foram MVP de África. Só tenho de aprender, principalmente, no carácter e humildade.Veio colmatar a saída de Olímpio Cipriano. Conseguirá fazer com que os adeptos o esqueçam com facilidade?Sabia que ia ser difícil, pois o Olímpio Cipriano é um dos melhores jogadores de África. Fui contratado para ajudar a equipa e não para o substituir. Faço parte da equipa com as minhas qualidades e estou no 1º de Agosto para ajudar a cumprir os objectivos definidos pela direcção.Como está a relação entre os jogadores de diferentes clubes?Dentro do campo, temos uma relação muito boa. Há aquela rivalidade entre o Petro de Luanda e o 1º de Agosto, mas isso é normal, faz parte do desporto. Fora de campo, temos também uma relação muito boa, somos amigos. Em Angola, há poucas equipas e temos de estar unidos.Os salários que auferem já permitem ter uma vida folgada?O que ganho no 1º de Agosto dá para resolver os meus problemas.  Além do 1º de Agosto, houve algum emblema que o quisesse contratar?Que saiba, não. Se aparecer alguma coisa que seja benéfica, de certeza que vou levar em consideração. Mas devo confessar que, neste momento, estou feliz no 1º de Agosto e é nesse clube que vou continuar até ao fim da minha carreira.Qual é o jogador que mais admira no basquetebol angolano? Miguel Lutonda.Porquê?Pela sua simplicidade como homem e pelo talento.