Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Marximina Bernardo " venci o tabu na arbitragem"

Sak Santos - 09 de Abril, 2013

O convívio entre as árbitras ajuda na interacção e profissionalização

Fotografia: Jornal dos Desportos

A arbitragem feminina está a afirmar-se, cada vez mais e melhor, quer no panorama nacional como internacional. Em entrevista ao Jornal dos Desportos, Marximina Luzia Bernardo, licenciada em Ciências do Desporto, na Especialidade de Motricidade Humana, pela Universidade Jean Piaget e professora de Educação Física, fala da sua experiência pessoal, num mundo maioritariamente de homens. Traça o perfil da nossa arbitragem, revela pelo meio os insultos, as situações desagradáveis.  Siga a entrevista.


JORNAL DOS DESPORTOS- Que análise faz da época 2012?
MARXIMINA BERNARDO
– Com um ou outro percalço, a época foi boa. Acho que estamos no bom caminho. Actualmente, ao contrário do passado, realiza-se dois seminários, antes do Girabola e no decorrer da segunda volta, ministrados por instrutores da FIFA, provenientes da África do Sul, Swazilândia e Brasil.
Quando se fala de árbitros são apontados mais defeitos do que qualidades. Porquê?

Só há defeitos nos árbitros? O que eleva a postura do árbitro?
A postura eleva-se quando o árbitro está bem preparado do ponto de vista físico, técnico, disciplinar e psicológico. Deve ter pleno conhecimento, aplicação e interpretação correcta das leis do jogo. Esta capacidade de tomar decisões ocorre simultaneamente com o lance. Se este tempo se prolonga, pode dar uma sensação de dúvida. É imprescindível uma decisão rápida e sobretudo imparcial, para inibir qualquer tipo de reclamação. Não é fácil apitar. Não é fácil decidir bem em todas as situações. Por isso é que a comunicação com os árbitros assistentes é muito importante. Com o surgimento das tecnologias na arbitragem elevou-se a verdade desportiva. São elas que nos dão todo o apoio e confiança para decidirmos. A nossa postura eleva-se também, quando demonstramos serenidade e é transmitida ao jogador. Este atributo garante-nos que fizemos uma boa partida.

É difícil conjugar o verbo errar?
É fácil conjugar. Eu erro, tu erras, ele erra, nós erramos, vós errais, eles erram. Os treinadores erram, os jogadores erram nos passes, golos desperdiçados, cometem faltas desnecessárias, os dirigentes erram, os médicos erram, mas quando o árbitro erra, é um Deus nos acuda. Aliás, muitos são os jogadores que falham na marcação de grande penalidade e o comentador diz que só falha quem está lá dentro. E o árbitro? Está fora? De facto, o erro nunca vai desaparecer, mas pode ser reduzido. Agora, deixo uma pergunta no ar. Quem mais erra? São os árbitros ou os jogadores? A crítica é maior quando o árbitro comete um erro. Porquê? E mais: ouça o discurso dos treinadores e de alguns dirigentes cujas equipas saíram derrotadas e tire as suas ilações.

EM CAMPO
“Tratam-me por Sra. Árbitra”


Estuda os jogadores antes das partidas?

Faz parte da preparação.

O que dizem os jogadores quando se juntam à volta do árbitro?

Discutem a decisão, defendem a sua equipa e os seus colegas.

Como a tratam?

Uns tratam-me por Sra. árbitra, professora, outros tratam-me por mamã.

Que palavras levam um jogador à expulsão?
Palavrões, ofensas morais e linguagem pejorativa.

E se disser que a senhora árbitra é gatuna?
Isto é injúria. É expulso imediatamente.

Costuma ouvir os adeptos a insultá-la?
Não dou ouvidos àquilo que vem da bancada. Concentro-me totalmente naquilo que é o meu trabalho.

O que escreve depois de mostrar o cartão?
Escrevemos o número do jogador e o tempo de jogo. O motivo da advertência escrevemos no balneário.

MELHOR ÁRBITRO
“Pedro dos Santos foi um justo vencedor”


Quem são os nossos árbitros de elite?

São os árbitros internacionais: Marximina Bernardo, Tânia Duarte, Romualdo Baltazar, Pedro dos Santos, António Caxala, Hélder Martins, João Goma.

Quem foi o melhor árbitro na época passada?
Foi Pedro dos Santos. Foi um justo vencedor, pela sua regularidade.

Qual foi a sua classificação?
Classifiquei-me em décimo lugar.

Considera justa esta classificação?
Pudera. Num universo de 19 árbitros, colocando-me no meio da tabela, só me resta mais dedicação, concentração e entrega, para melhorar esta classificação, embora ela reflicta sempre, de uma forma ou de outra, aquilo que foi o nosso trabalho, de acordo com o relatório do comissário de jogo. Portanto, aceito a classificação e honestamente acho que foi justa.

Tem noção de quantos jogos apitou?
Mais de 200 jogos no cômputo geral. Apitei mais de 60 jogos internacionais. Estive presente em três CAN, 2004 na África do Sul, 2006 na Nigéria e em 2012 na Guiné Equatorial.

SINCERIDADE
“Algumas críticas feitas são justas ”


O que acontece ao apanha bolas quando faz anti-jogo?
Quando o apanha bolas se comporta mal, fazendo anti-jogo, o delegado da equipa da casa é expulso e o clube paga uma multa de 1,5 milhões de kwanzas. Foi uma deliberação saída do Conselho de Disciplina da FAF (Federação Angolana de Futebol).

O que dizer dos técnicos que estão sempre a reclamar com os árbitros?
Devem aceitar os três resultados possíveis: vitória, empate e derrota e sem protestos.

Os árbitros são bem remunerados?
Mais ou menos. Deveria ser melhor.

Ganha mais como professora ou como árbitra?
No meu emprego.

Prefere o sorteio ou as nomeações?
Prefiro as nomeações. É a forma mais justa e a estatística é mais organizada.

Que opinião tem das críticas feitas pelos comentadores de arbitragem?
Quem nunca foi alvo de críticas pela actividade que desenvolve? Quem? Mas reconheço que algumas críticas são justas e outras injustas. Eu, pessoalmente, já fui alvo de críticas injustas, discriminada inclusive, pelo facto de ser mulher, feitas por um comentador da “Rádio Cinco”. Mas está tudo ultrapassado. Por isso, meu caro, é difícil apitar. Podemos preparar-nos física e psicologicamente, podemos estar bem, mas cada jogo é um jogo. É mais fácil jogar que apitar. Já viram um ex-jogador de futebol ser árbitro? Aponte um.

Os árbitros raramente assumem o seu clube. Podemos saber qual é o seu?
Quem me conhece, sabe que não sou adepta de nenhum clube. Sou simplesmente árbitra.

Como mãe e professora quais são os princípios fundamentais para uma boa educação?
Disciplina, pontualidade, hábitos higiénicos, saber estar e ser digno.


“Depois de um jogo desabafo sempre com o meu esposo”

Como é o convívio com as outras árbitras no CAN e noutras competições?
Tem sido salutar, falo fluentemente o inglês. O francês nem tanto e por este facto integro-me facilmente. Fui a única árbitra internacional dos PALOP desde 2004.

Em que jogo sente mais pressão?

Nenhum. Mas há jogos que pela sua envolvência exigem mais de nós.

Quando se apercebe que errou como é o seu dia seguinte?
Nenhuma pessoa de boa-fé, de princípios, pode ficar contente com uma prestação negativa. Depois de um jogo, desabafo sempre com o meu esposo, porque ele acompanha os comentários da rádio e da televisão. Conta-me sempre o que se disse e não quem o disse. É o que mais interessa. Conversamos muito e anima-me. Aliás, quanto mais apitamos, adquirimos mais experiência e uma força mental mais sólida.

A arbitragem feminina enfrenta algum obstáculo?

Actualmente não. Mas, no passado, havia aquele tabú… Fui discriminada pelo facto de ser mulher no mundo da arbitragem, mas esta discriminação era provocada mais por adeptos dos clubes e por jogadores com falta de cultura desportiva. Hoje, somos mais respeitadas e bem relacionadas dentro da arbitragem. Nunca mais sofri qualquer tipo de discriminação, graças a Deus. Com a nossa evolução e afirmação, temos mais uma árbitra internacional na Província da Huíla, a Tânia Duarte. Há mais duas vagas, no quadro de acesso a árbitra internacional. Espero sermos um exemplo para a próxima geração, porque não foi fácil lutar contra o estigma de que a arbitragem no futebol é só para homens.

Qual foi o momento que marcou a sua carreira?

Foi a minha ida ao CAN em feminino, realizado na África do Sul em 2004, ano em que recebi as insígnias da FIFA. Foi um sinal de reconhecimento e algo inédito na nossa arbitragem.

PING PONG

Cor preferida:
Azul
Bebida: Coca-Cola ou água
Maior defeito dos jogadores? Não respeitar o género
Maior virtude? Paciência
O que mais detesta? A mentira
Cidade mais bonita de Angola? Huambo
E do Mundo? Atenas
É católica? Não, protestante
Frequenta a igreja? Sim
Comida angolana? Funji de calulú
Viagem de sonho? Grécia
Receia andar de avião? Não
Local de férias preferido? Huíla
Precisa de despertador para acordar? Não
Um objecto indispensável? Cama
É supersticiosa? Sim
O seu hobby? Ver jogos de futebol e ler
Quantas horas dorme por dia? Oito
Qual é o actual livro de cabeceira? A Bíblia
Sabe cozinhar? O quê? Sim, de tudo um pouco
Gosta de dar um pé de dança? Adoro
Animal de estimação? Gato
Gosta de praia? Sabe nadar? Sim, sim
Maior defeito e virtude? Teimosa, acolhedora
O que mais admira e detesta? O mundo, a mentira
Perfume? Paco Rabanne



POR DENTRO

Nome completo:
Marximina Luzia Bernardo
Nome do pai: José Francisco Bernardo
Nome da mãe: Aldina Luzia
Data de nascimento: 25.01.1979
Naturalidade: Huambo. Bairro S. João
Signo: Aquário
Estado Civil: Vive em comunhão de facto
Filhos: Dois rapazes
Altura: 1,73m
Calçado: 44
Peso: 74kg