Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Matateu da escola do Peyroteu brilhou no ASA e 1º de Agosto

Sak Santos - 09 de Setembro, 2013

Sabino revelava ao mesmo tempo grande agilidade com e sem bola e domínio invulgar

Fotografia: Nuno Flash

Sabino ou Matateu como ficou conhecido nas lides futebolísticas de Angola e não só é um nome que quase dispensa apresentação. Pelo que fez no ASA, no 1º de Agosto e na Selecção Nacional tem muito para contar à geração que o viu brilhar e à nova que precisa de saber e aprender como se joga à bola, como se marca e ganham jogos. Por estas e outras razões este antigo craque é o entrevistado de hoje do Jornal dos Desportos.

Quando e onde iniciaste a tua formação desportiva?
Iniciei em 1966 oficialmente na Escola de Futebol do Fernando Peyroteo, mas nessa altura já vivia no bairro dos Saiotes ao lado dos Blocos e do Mercado dos Congolenses, dava uns toques de bola com os meus contemporâneos e também na Escola aos intervalos e depois das aulas.

Quem são e como jogavam os teus contemporâneos?
Entre outros recordo-me do Candeias excelente na armação e condução de jogo. O Zeca Lobo um verdadeiro patrão na defesa, comandava o meio campo. Subia e descia com uma desenvoltura que só os jogadores de outra galáxia, eram capazes de o fazer. Jogou na Terra Nova, nos Dinizes de “Salazar” em 1974 Campeão de Angola na Selecção do Nelito Soares em 1976/77. Zeca Lobo foi um jogador personalizado e viril a defender e atacar fazia todos lugares.
Zeca Lobo começou como médio, mas foi como defesa central que se notabilizou nos clubes e selecções por onde passou. Foi polivalente, sempre com elevado rendimento. Alto, elegante, de cabeça no ar, tecnicamente evoluído com a bola nos pés e forte no jogo aéreo. Agressivo nas jogadas corpo a corpo, sem medo do choque, possuía elevado sentido posicional e velocidade a dobrar nas faixas laterais, em socorro dos seus colegas. Jogava como líbero ou central de marcação, um excelente jogador, com elevado sentido posicional poder de corte, antecipação com serenidade invulgar, tinha também um fôlego invulgar.

Fale de outros nomes
Recordo-me também do José Pedro (Zaragateiro) um dos melhores ponta de lança que Angola viu nascer. Notabilizou-se no ASA, no Grupo Desportivo do Cazenga do Areias, no Benfica de Lisboa e por outros clubes de Portugal. Atleticamente possante e agressivo com bola. Imprevisível, empolgante, com capacidade de drible,era um grande goleador. Possuía grande agilidade sentido de baliza, um remate potente, excelente jogo de cabeça. Tinha um carácter rebelde e ganhou a alcunha de “zaragateiro”, devido a certas “fanfarronices”. Perdeu-se por problemas extra – futebol.
O Lito Lobo foi levado para Setúbal, por José Maria Pedroto aos 16 anos de idade, depois para o Sporting de Portugal e finalmente para o Sporting de Braga. Cito também o Lulù o Luís Guardia que defendia todas, o Jesus Saturnino do Petro de Luanda, excelente ponta de lança, os defesas Ribeiro do Maxinde, o Chico Afonso do Maxinde, do Petro e da Selecção Nacional, e o Manuel. Esta era uma autêntica selecção. “Surrávamos” todas as equipas vinham elas de donde viessem e quando jogássemos entre nós, é que eram elas.
Na medição ou seja na escolha de os “onze” para se formar a equipa, o primeiro a ser escolhido era eu ou o Zé Pedro, dificilmente no bairro jogávamos na mesma equipa para não desequilibrar.

Porque o chamavam Matateu?
Dizem que em 1951 em jogo empolgante em que o Belenenses venceu o Sporting por quatro a três com golos marcados por Matateu, no final os adeptos azuis, entusiasmados invadiram o campo e carregaram-no aos ombros. Dali para adiante, o sucesso de Matateu foi crescendo. Era o jogador moçambicano mais famoso de Portugal antes de Eusébio.
Fazia dupla de ataque com o angolano Iaúca. Era o terror dos guarda-redes, pela potência do seu remate. Os nossos pais, como eram “amantes” e não adeptos, do Belenenses morriam de amores por Matateu e então ganhei esse nome. Aliás, o seu nome era dado às crianças robustas nascidas na época.
A título de exemplo, geralmente encontram-se pessoas com esse nome “Matateu” nascidas nos anos 50. Matateu e seu irmão de Vicente defesa do Belenenses, tinha como se dizia, ” pézinhos de lã”, pela facilidade e elegância intervinha no desarme.
Reza a história que no Mundial de 1966 na Inglaterra “secou” o Rei Pelé. Portanto, sou o Matateu no bairro,e no ASA  mas  o Sabino no 1º de Agosto.

CONSTATAÇÃO
“Hoje já não há nomes sonantes”

Há muita diferença do futebol praticado hoje em relação ao da década de oitenta em que jogaste?
O futebol praticado hoje no nosso país embora tenha evoluído nos aspectos técnico- tácticos, por isso mais veloz, a grande diferença reside na qualidade individual do jogador. Hoje já não há nomes sonantes nas nossas equipas. A diferença é abismal. O futebol actual perdeu a graça e a garra. Não estamos num bom nível. Joga-se bem hoje, amanhã joga-se mal.

Notou alguma diferença entre o futebol no ASA e no 1º de Agosto equipas onde jogaste?
Na TAAG havia muito toque de bola. O técnico Chico Ventura valorizava mais o aspecto técnico e habilidade. Saíamos a jogar, fazíamos a transposição de bola, entre a defesa, meio campo e o ataque. No 1º de Agosto valorizava-se mais o aspecto físico e a rigorosidade. O jogador tinha de ser alto e forte, isto na concepção do técnico Ivan. O Kasanini era o inverso, mais metódico. Era essa a mentalidade destes dois grandes treinadores russos que passaram pelo 1º de Agosto no meu tempo e a diferença entre os três.

Há falta de matéria-prima?
Acredito que haja muita matéria-prima mas de pouca qualidade.

Como se pode formar hoje novos Sabinos?
O talento vem bruto e depois é preciso ser lapidado. Para atingir a perfeição é necessário muitas horas de treinos e de jogos. Havia muitos recintos de jogos nos bairros, nas escolas, o que de certa forma facilitava o trabalho dos “olheiros”. Eram os grandes celeiros de jogadores naquela altura. O jogador visto pelo “olheiro” é porque tinha capacidade técnica, sabia jogar, diamante que precisa ser lapidado.
No clube a criança entra com 8, 9, 10, 11 ou 12 anos e ali vai crescendo e forma-se como jogador. Os técnicos prevêem como ele vai ser e até a altura em que o miúdo pode crescer. O talentoso é aquele visto, mas também pode surgir de outros lugares. Neste sentido a falta de recintos nos bairros e nas escolas, influenciou o rumo do nosso futebol.

Como analisa a formação que é feita no país?
É razoável masa para ser melhor devia haver de uma forma geral maior preocupação na qualidade da formação dos treinadores em todos escalões. Assim, tínhamos técnicos com capacidade para elaborarem planos, programas, com objectivos e conteúdos de treino das equipas nos diversos escalões.
Portanto o atleta nesta faixa etária de formação precisa de um tratamento especial, muita disciplina e organização a todos os níveis. 
                                                                              S K 

SAUDADES
“Admirava o Monteiro
e também o Napoleão”


Qual o guarda-redes que mais admiravas ?
Monteiro da Costa do Benfica do Huambo, Carlos Alberto dos Dinizes e posteriormente Napoleão também dos Dinizes.

E defesas?

Zeca Lobo do Terra Nova e dos Dinizes, Santo António do Progresso do Sambizanga e Luizinho da Costa Carneiro do Sporting de Luanda nos anos 70 e 80.
Médios?
Lito Lobo do Benfica de Luanda. Praia, Augusto Pedro e Ginguma do Progresso do Sambizanga, Juca e Tarzan do ASA, Mateus César e Zeca do 1º de Agosto.

Avançados?

Dinis, José Pedro, Inglês do ASA, Lino do FCL e do Calumbunze. Luvambo, Alves do 1º de Agosto.

Tem algum filho futebolista?

Tenho um filho com grande capacidade técnica, mas, infelizmente, a mãe proibiu-lhe de jogar futebol.

O que pensa da actual Selecção Nacional de futebol?
Por uma questão de ética e de princípios e ainda como profissional, não devo publicamente, criticar o trabalho realizado pelo técnico da selecção, mas faço um apelo aos órgãos de direito, Ministério da Juventude e Desporto, Direcção Nacional dos Desportos e a Federação Angolana de Futebol.                     s k

ORGULHO
Comparação a Lufemba
estava longe da realidade


Podes indicar alguns jogadores da actualidade que têm as tuas características?
Com todo respeito e modéstia que tenho por todos os jogadores da actualidade, já não vejo ninguém com as minhas qualidades mas há tempos, apontaram o Lufemba, um jogador proveniente do Congo que jogou no Petro de Luanda e na Selecção Nacional em 1990.
Viu-o jogar. Tecnicamente era semelhante mas a grande diferença estava na marcação de golos. Eu era um goleador nato e ele nem tanto, mas era um jogador de mão cheia, um craque.
Qual é a tua opinião sobre as dispensas de muitos jogadores no escalão de formação e no seniores? Antes de se dispensar um atleta deve-se procurar ver outras características dele que possam ser desenvolvidas porque no futebol a versatilidade é fundamental.

Quais são as tuas melhores recordações?
Ter sido campeão Distrital de Luanda em juvenis nos anos 69/70 e 71 pelo ASA e melhor marcador, campeão Provincial de juniores em 1972 pelo ASA e melhor marcador. Vencemos na final o Sporting de Luanda por 2 -1  marquei os dois golos.
O Sporting alinhou com Lello, Guima, Luizinho, Varela, Jambo, Gino, Delgado e tantos outros e, campeão no 1º de Agosto em 79/80/81, com Napoleão, Manico, Lourenço, Apolinário Júnior, Mascarenhas, Mateus César, Zeca, Chimalanga, Luvambo, Barros, Alves e companhia.
Fui tri-campeão pelo ASA na era Bernardino Pedroto como técnico-adjunto. Conheci várias personalidades e recordo sobretudo a convivência que tive com os meus colegas. Ainda sinto a falta do “ cheiro do balneário”.                S K

RETRATO DE SABINO
Maestro invulgar a jogar à bola


Sabino Silva é um jogador que simboliza as grandes referências dos craques do futebol angolano das décadas de 70 e 80. Ex-jogador da escola de futebol coordenada por Fernando Peyroteo, natural do município da Humpata, Huíla, e foi um dos cinco violinos, com Albano, Jesus Correia, Vasques e Travassos, que formavam o ataque do Sporting Clube de Portugal nos anos 40 e 50.
Craque indiscutível, enquanto esteve no activo Sabino envergou as camisolas do ASA, TAAG, 1º de Agosto e da Selecção Nacional. Gostava de jogar nas costas dos avançados, em sistema de 4x4x2, ou como ponta de lança no sistema 4x3x3, mas foi como médio atacante que exibiu o seu melhor estilo, uma vez que foi um excelente organizador de jogo, no verdadeiro sentido da palavra.
Sabino revelava, ao mesmo tempo, grande agilidade, com e sem bola. Possuía um controlo invulgar da bola. Era muito criativo, de drible curto, recebia e passava a bola com precisão. Tinha uma qualidade técnica invejável e com grande visão de jogo. Motivava toda a equipa. Um verdadeiro número 10. Um maestro.
Sabino tinha uma grande inteligência técnica e táctica no trato e condução da bola, versatilidade, resolvendo com rapidez as jogadas, sempre com os olhos postos no ataque. Tratava a bola por “tu”.
O jogador tinha grande vocação ofensiva e possuía um excelente remate e, por isso, também fez muitos golos. Era um exímio marcador de livres e de grandes penalidades.
Em todas as equipas por onde passou foi o capitão, um autêntico líder. Teve uma passagem muito curta no futebol, devido às três operações cirúrgicas que sofreu ao menisco.

NOVOS DESaFIOS
“Aguardo por novas oportunidades”


Sentia mais pressão como jogador ou agora como técnico?
Obviamente como técnico, devido aos resultados. Quando o treinador ganha é bestial, quando as coisas não correm bem é besta.

Tem algum plano para dar sequência à sua carreira de treinador?
Falta-me fazer o terceiro e quarto níveis, porque dei prioridade à minha licenciatura em Recursos Humanos. Agora aguardo melhor oportunidade para, do ponto de vista financeiro, concluir outro projecto.

Qual a sua opinião sobre o Girabola que temos?

Preocupa-me a falta de bons executantes. Temos um campeonato desequilibrado, com 16 equipas, onde quatro ou cinco são razoáveis. Felizmente, temos um líder, o Kabuscorp do Palanca, que para sua felicidade tem o caminho aberto para o título.

Que expectativas pode ter o ASA esta época?
Infelizmente as coisas não são muito animadoras, embora tenha conversado com o Matias e o Asha, que me deram esperanças relativamente ao futuro do ASA. Garantiram-me que o quadro vai ser alterado, porque todos acreditam.

Que cargos gostava de ocupar num clube, numa associação ou na federação?
Assessor na organização de todo o futebol ou como seleccionador em todos os escalões, uma espécie de olheiro ao mais alto nível.                                             sk

DE PORTUGAL
“Estava para jogar no Sporting”


Quem o descobriu?
Não digo descoberta, mas foi o Vumbi, do bairro das Cês, que me levou para o ASA, para o futebol oficial, quando estava na escola do Peyroteo. Vumbi foi do ASA, um excelente médio, nos anos 60 e 70.

Quando calçou pela primeira vez um par de botas?
Com 14 anos no ASA, porque no Peyroteo jogávamos de quedes

Nunca foi cobiçado para jogar em Portugal?
Aos 14 ou 15 anos estava para rumar ao Sporting de Portugal, mas depois ficou tudo em águas de bacalhau, como se diz, isto é, não fui. Nos anos 80 fui novamente cobiçado pelo Sporting e pelo Vitória de Setúbal, mas fui operado três vezes ao menisco e não recuperei satisfatoriamente para a prática de futebol. A partir dessa altura começou o calvário.

Quando foi a sua estreia nos seniores?
Ascendi a sénior em 1973, com 17 anos. Fui obrigado a fazer robustez física e melhoramento na alimentação. Nesse ano, o José Pedro, ponta de lança do ASA, ruma para o Benfica de Lisboa e deixa um vazio. Chico Ventura, nosso treinador dos juniores, apostou em mim e propôs automaticamente a minha subida. Nos juniores e nos seniores tínhamos um ataque demolidor, com Ndisso, Matateu e Juca.

Foi uma substituição fácil?
Nem tão pouco possível. Foi uma substituição necessária. José Pedro foi um grande craque. Se Dinis foi o maior, José Pedro foi o melhor. Quem o viu a jogar que o diga. Não encontro adjectivos para qualificar aquele grande jogador.

Quem foi para si Chico Ventura?
Foi um pai para nós, mas eu e o Juca tínhamos um tratamento diferenciado. Foi ele que limou as minhas arestas. Foi ele que me pôs a jogar como ponta de lança, porque antes eu jogava como extremo direito. Éramos para ele o “abono de família”. Chico Ventura era um “expert” na visão e capacidade táctica, admirava-o não só pela sua cachimbada, mas também na leitura que fazia do jogo do adversário e para o ultrapassar. Tinha igualmente uma grande capacidade na gestão do grupo.


BILHETE

NOME: SABINO MANUEL DA SIVA
PAI: SILVA MANUEL
MÃE: MARCELINA BENJAMIM
DATA DE NASCIMENTO: 21 DE FEVEREIRO DE 1956
NATURALIDADE: CACUACO
POSIÇÃO: PONTA DE LANÇA E MÉDIO ATACANTE
JOGOS: MAIS DE 200
GOLOS: MAIS DE 300
JOGADOR REVELAÇÃO COM 17 ANOS
MELHOR JOGADOR DO MUNDO: LEONEL MESSI
ÍDOLO: NELSON MANDELA, PORQUE SACRIFICOU A VIDA INTEIRA POR UMA CAUSA.