Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Mercado carece de jogadores"

JUSCELINO DA SILVA - 11 de Junho, 2018

Tcnico do Petro de Luanda est ligado mais dois anos ao clube

Fotografia: Jos Cola

 

Que avaliação faz da época recém-terminada?
Depois de reunir com a nossa equipa de trabalho, concluímos que o balanço é positivo, pois tivemos um grupo que felizmente conseguiu enquadrar-se na filosofia do clube. Conseguimos fazer um trabalho, que merece o mérito. Estamos de parabéns. Os meus rapazes realizaram uma excelente época desportiva.

Vai estar ligado ao Petro de Luanda até 2020. O que os adeptos e sócios podem esperar do treinador?
Podem esperar um Lazare trabalhador, diferente, sempre à procura de novas iniciativas para ajudar os jogadores que vão competir não só para o Petro de Luanda, mas também para a selecção nacional.

Está no Petro de Luanda desde 2012 e já conquistou todos os troféus. Ainda há alguma coisa para mostrar no basquetebol angolano?
Espero continuar a trabalhar da melhor forma possível e formar jovens para potenciar a selecção nacional. Sou formador da FIBA. O nosso mercado nacional está carente de atletas. É preciso continuar a apostar na formação e ter bons formadores. Só assim vamos ter bons jogadores. Estou muito feliz com a evolução dos meus atletas, nomeadamente, o Childe Dundão, Abubakar Gakou, Joaquim Pedro e Gerson Gonçalves.

Há dois anos, o Petro de Luanda perdeu o campeonato por falta de consistência no banco. Na época recém terminada, voltou a acontecer a mesma coisa. Onde está o erro?
Para conseguirmos equilíbrio dentro e fora do banco, todos temos de pôr a mão nesse trabalho. A colaboração tem de ser a nossa estratégia. Temos de ter no banco qualidade suficiente para manter o rítmo de jogo. Só assim uma equipa pode contrariar as outras que fazem grande trabalho na constituição dos plantéis. As substituições não podem desequilibrar o rendimento da equipa sob pena de sofrer a pressão dos adversários. Para quem ambiciona ganhar campeonatos, tem de investir num banco coeso.

Quais são os sectores que a equipa precisa reforçar?
A posição zero-cinco é a mais fragilizada. Temos de reforçar também a posição três. Precisamos de mais experiência na posição zero-um e dois, onde já estão os meus meninos que cresceram muito. Ainda assim, a equipa encontra dificuldades para gerir o jogo e manter-se tranquila para ultrapassar o mau momento que esteja a passar.

A direcção já lhe garantiu alguns reforços?
A direcção está muito atenta. Todos temos de trabalhar de forma a encontrar os melhores reforços possíveis para a próxima época e o futuro do Petro de Luanda. O nosso mercado está carente de jogadores. Os bons têm contratos com os clubes, mas vamos arranjar a solução para o nosso problema.

Os seus adjuntos no Petro de Luanda oferecem tranquilidade ao grupo de trabalho?
Sim. Os meus adjuntos estão a fazer um bom trabalho. Estou satisfeito com eles, mas se vier mais ajuda é sempre bem-vinda. Quando somos muitos a trabalhar é sempre melhor. Dou muitos créditos aos meus adjuntos Faustino Casimiro e Benjamim Avó, que fizeram de tudo para apoiar esses jovens; não foi fácil trabalhar e puxar por eles. No entanto, seria terrível partir este projecto e começar um outro caminho.

Vai manter o grupo de trabalho ou dispensar jogadores?
Sem dúvida, vão sair seis a sete jogadores. É próprio da vida desportiva. Os jogadores, que não conseguiram enquadrar-se, vão ter de deixar o clube. São poucos jogadores que conseguem enquadrar-se na filosofia de jogo do Petro de Luanda. Actualmente, há jogadores que não conseguiram enquadrar-se no estilo de jogo e nas exigências da nossa equipa para o Unitel Basket, por isso muitos fogem assinar contrato no nosso clube. Felizmente, temos de agradecer aqueles que estiveram connosco durante a época toda. A verdade é que precisamos de qualidade e consistência no nosso banco.

Que Petro de Luanda vamos ter na próxima época?
Vamos ter um Petro de Luanda forte de forma a ombrear com os grandes do campeonato. A nossa massa associativa, a direcção, a Sonangol, a nossa patrocinadora, podem ficar descansados. Tudo faremos para constituir um grupo forte com bons jogadores.

Está satisfeito por ter assinado mais dois anos?
Estou satisfeito com a minha renovação. Aqui é a minha casa. Agradeço pela confiança depositada em mim. Um obrigado especial ao presidente Tomás Faria e ao vice-presidente Artur Casimiro Barros pela oportunidade de estar ligado ao clube nesses dois anos. Há três anos, começamos com esse projecto. Se não fosse a situação cambial do país, acredito que já teríamos ganho vários campeonatos. Mesmo com as dificuldades, estamos aqui com a nossa cabeça bem erguida.

Chegou a receber convites para orientar o Interclube?
Temos de ter cuidado com este tipo de informação. Contudo, tenho a salientar que, sendo profissional e o meu contrato havia terminado, há muitos clubes dentro e fora do país que se manifestaram interessados nos meus serviços.  Felizmente, vou continuar fiel ao Petro de Luanda.

 

\"Em Angola, os árbitros não usam a psicologia\"

É o treinador mais expulso do campeonato e que mais multa pagou à FAB. Que comentário se lhe oferece fazer?
Sim. É importante fazer uma rectificação sobre o meu percurso. Sou treinador mais antigo no Afrobasket, depois do professor Mário Palma. Estou a seguir com mais representação no continente africano. Se reparar, nunca tive uma ordem de expulsão no Petro de Luanda, quando estamos a competir nas competições internacionais. Nunca fui expulso durante a minha carreira profissional. Apanhei apenas duas faltas técnicas no Madagáscar. Agora, não entendo quais são as regras ou regulamentos que levam alguns juízes a ter uma atitude muito deprimente para o basquetebol, de uma forma geral. Fui sempre mal expulso. Os vídeos estão aí para justificar. Uma expulsão tem de ser por uma violação muito grave, mas aqui, por vezes, se aplicam as antigas regras e outras vezes a nova regra. Em Angola, os árbitros não usam a psicologia.

A arbitragem é o elo mais fraco do Unitel Basket. O que deve ser feito para melhorá-lo?
Temos de melhorar. É preciso haver reciclagem. Temos de ajudar os juízes com mais formação. No passado, já falámos sobre isso, mas são sempre os mesmos árbitros.  Para os grandes jogos, devem apitar os melhores árbitros e é necessário estarem em boas condições físicas de forma a seguir a passada dos jogadores. Os nossos jogadores têm sempre dificuldades, quando vão jogar no exterior por causa dos critérios de arbitragem que usam no país.

 \"Vamos valorizar a nossa juventude\"

O base Emmanuel Quezada mostrou-se disponível para representar o clube que lhe trouxe a Angola. Gostaria de ter o Quezada na sua equipa?
O Quezada ainda é jogador do 1º de Agosto e não podemos entrar nesse tipo de jogo. O jogador diz uma coisa, quando na verdade ainda está ligado ao seu clube. Se for o desejo do atleta, respeitamos isso. O Quezada é um grande jogador e uma mais-valia para qualquer equipa. O Petro de Luanda está preocupado em trabalhar com os jovens que ninguém acreditava que chegariam aonde chegaram. No entanto, vamos valorizar a nossa juventude que ainda tem muito a dar ao basquetebol nacional.

Qual será o futuro do base Domingos Bonifácio que esteve longe do seu habitual?
Bonifácio é uma prata da casa e tem de ser enquadrado de uma forma diferente, mesmo que já não possa jogar. Ainda é uma mais-valia para esta equipa, tem muito a dar em termos de experiência e não só. Tinha o problema de saúde, mas agora é o tempo para a recuperação e voltar a dar o seu contributo à equipa.

Assume a culpa da contratação de Olalekan Ajay?
Assumo plenamente. Desde que estou no Petro de Luanda, foi o pior erro que cometi. Ajay é um jogador que orientei nos Estados Unidos da América em 2010 e tinha muita qualidade. Infelizmente, não conseguiu dar aquele pulo na carreira. Pensei que, depois de passar oito anos, teria dado o salto, mas fui enganado. Por isso, assumo esse erro.

Edmir Lucas foi a contratação mais sonante da direcção. O que esteve na  base da sua não integração na equipa?
Edmir Lucas é um talento que ainda não explodiu e creio que vai dar outras indicações no futuro. Edmir Lucas teve muitas dificuldades em recuperar e dar o seu contributo à equipa. São coisas que acontecem. Espero que recupere e possa seguir com a sua carreira. Está em fim de contrato. Nesse momento, está a negociar com a direcção.

Conta com o atleta para a próxima época?
Tenho de contar com aqueles que estiveram aqui e trabalharam de uma forma digna em representação do Petro de Luanda. É com eles que conto em primeiro lugar. Ate recuperar não posso prenunciar-me sobre a continuidade de Edmir Lucas. Sou apenas um trabalhador do Petro de Luanda como ele é. Ainda não recuperou da sua lesão.

 
 \"Coragem é o que tenho a desejar\"

A selecção nacional tem agora a qualificação na Tunísia para o Mundial. Um comentário?
Coragem é o que tenho a desejar à nossa selecção. Não será fácil. A Tunísia já trabalha há dois meses. Angola tem menos de um mês para ter o grupo pronto. O país todo vai torcer por eles. Esperamos que possam dar o melhor de si de forma a passar por essa janela FIBA de apuramento ao Mundial. O facto de sermos hendecacampeões acarreta muita responsabilidade. Todos querem derrotar Angola. Temos de voltar a ter aquela Angola que metia medo aos adversários. Desejo muita força ao grupo de trabalho, à equipa técnica, jogadores, pessoal da federação, de forma que possam voltar só com vitórias.


A selecção nacional já devia ser renovada e deixar de levar jogadores que já não fazem a diferença?
Depende dos objectivos a longo prazo. Se trabalharmos a curto prazo, temos de manter o mesmo quadro. Essa é uma pergunta muito difícil de responder. Na verdade, depende somente da filosofia da Federação. Se é um projecto a curto ou longo prazo, só a Federação pode responder se já é a altura da renovação ou não.