Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Mesmo sem condies demos o litro no CAN96"

Paulo Caculo - 04 de Setembro, 2009

Quais são as grandes recordações que guarda do CAN de 96, que disputou na África do Sul?

Recordar a nossa participação no CAN de 96 não deixa de ser difícil, porque naquele tempo o futebol não era encarado com a mesma importância que se dá hoje. Trabalhávamos e jogávamos porque gostávamos e tínhamos paixão por aquilo que fazíamos. Hoje o futebol evoluiu, os dirigentes têm outra mentalidade, olham para a modalidade de outra forma e podemos sentir que existe maior motivação para realizarmos um CAN melhor que aquele que disputamos na África do Sul.

Como foi, para si, integrar um grupo que tinha a responsabilidade de representar pela primeira vez o país numa fase final do Campeonato Africano das Nações?

- Foi com muita satisfação que recebi a notícia de que integrava a selecção para o CAN e, como qualquer jogador, me senti muito honrado por ter participado do primeiro campeonato africano disputado.

Quando olha para a selecção que evoluiu actualmente consegue descortinar diferenças de comportamento?

- As diferenças entre a realidade da selecção do meu tempo com esta que vemos actualmente são enormes. Basta ver que na selecção actual existe melhores condições de trabalho, há maiores incentivos e os níveis de motivação também são mais altos.

Na selecção do seu tempo não havia motivação?

- A única motivação que sentíamos era do sentimento de representarmos o nosso país. Nós não tínhamos nada, não ganhávamos nada, jogávamos em amor à pátria, com amor à camisola. Viajávamos nas piores condições, em cargueiros sem cadeira para nos sentarmos, como se fôssemos cargas. E devo dizer que mesmo faltando as condições, sempre deixamos uma boa imagem de entrega e empenho.

E os estágios de preparação?

- E disso já nem se podemos falar. Hoje a selecção utiliza hotéis de luxo para estágios, enquanto nós dormíamos na Casa do Desportista, debaixo de mosquitos, mas quando chegávamos no campo o empenho era sempre o mesmo, jogávamos com a mesma raça, ganhávamos jogos e convencíamos os adeptos.

Como era o ambiente de balneário perante tanta dificuldade?

- O ambiente de balneário sempre foi dos melhores. Mesmo não havendo grandes condições de trabalho, havia sempre razões para nos mantermos satisfeitos e solidários uns com outros, pelo objectivo que sempre nos propusemos alcançar. Havia muita união e o lema, na altura, era um por todos e todos por um. O futebol faz-se com grupo e o nosso era muito forte.

E como foi disputar um CAN nas condições que referiu?

- Foi complicado. Não gosto de falar deste assunto, mas houve muita coisa que acabou por influenciar também na nossa prestação no campeonato da África do Sul. E posso lhe dar um exemplo; quando fizemos o primeiro jogo só dormimos depois da meia-noite, porque estávamos a discutir o prémio de jogo.

De que forma antevê, então, a participação de Angola no CAN que vamos organizar, em 2010?

- Acho que temos tudo para fazermos uma boa campanha. A selecção tem condições para fazer um grande CAN. Já mostramos isso no Ghana, onde alcançamos a primeira fase. Conseguimos ir ao Campeonato do Mundo da Alemanha, fizemos grandes jogos com equipas fortes e demonstramos ter capacidade para jogar de igual para igual com os nossos adversários. A equipa tem jogadores de qualidade, está a fazer um bom trabalho de preparação em Portugal. Penso que a com maior ou menor dificuldade teremos condições para mostrar uma selecção que dignifica o país.