Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Mestre Ado foi influenciado pelo match Ficher - Spassky

Joo Francisco On-Line - 01 de Fevereiro, 2013

Agostinho Ado Domingos ou simplesmente Mestre Ado, como conhecido nas lides xadrezistas, 53 anos, foi o primeiro Mestre Nacional (MN) angolano

Fotografia: Jornal dos Desportos

Esteve no centro das duas primeiras gerações de jogadores de xadrez que Angola teve, a geração do antes e do pós-independência. Agostinho Adão Domingos ou simplesmente Mestre Adão, como é conhecido nas lides xadrezistas, 53 anos, foi o primeiro “Mestre Nacional (MN) angolano”, título que a Federação Angolana de Xadrez (FAX), começou a atribuir apenas em 1981 aos vencedores dos Campeonatos Nacionais individuais absolutos, um ano depois das competições recomeçarem no País. Adão foi proclamado o primeiro “MN”, um ano depois de Mário Sila Fonseca Oliveira (Mário Sila), já falecido, ter sido Campeão Nacional na “estreia” desta competição, em 1980, no Lubango. Esta situação obriga a um recuo na história da modalidade para mencionar quem de facto foi pioneiro.

Agostinho Adão conta que começou a jogar xadrez em 1977, porque jogava bem às Damas e como houve uma grande propaganda do “jogo-ciência” em anos anteriores, concretamente em 1972, a propósito do “match” entre o Grande Mestre norte-americano Bobby Ficher e o russo agora naturalizado francês, Boris Spaski, vencido pelo primeiro, então decidiu também tentar a sua sorte. “O barulho que se fez na altura em torno daquela final do Campeonato Mundial de Xadrez nos anos 70 foi tão grande, talvez por opor dois jogadores das duas potências que dominavam o Mundo, levou-me a tentar a minha sorte”, revela.

PRIMEIRAS
VITÓRIAS OFICIAIS

Agostinho Adão disse que depois daquela azáfama toda, a primeira vitória oficial aconteceu em 1979, no torneio “Juventude”, tinha ele 20 anos e não havia na altura Campeonato Nacional de Juniores.  “Seguiu-se outra vitória no torneio 1º de Maio e em 1980 fui vice-campeão nacional absoluto, na prova vencida pelo Mário Sila, o que me valeu a minha primeira participação internacional no mundial de Jovens, disputado no México”, disse. Adão revelou também que “naquela altura ficava muito feliz em ver o mais velho Mendes de Carvalho nas primeiras cadeiras a assistir aos jogos de xadrez e prestava sempre particular atenção ao meu jogo, talvez por ser da localidade de ‘Domingos João’, três quilómetros depois de Catete, para onde íamos a pé para estudar”.

Em 1980, Agostinho Adão fez parte da primeira Selecção Nacional de Xadrez de Angola, que disputou a Olimpíada de La Valetta (Malta). Nessa época, Agostinho Adão fazia parte da transição de duas gerações em que se desatacavam os que transitaram da época colonial, muitos dos quais se nacionalizaram angolanos e os que surgiram após a independência, como ele. Recorda-se de Mário Sila, Rogério Silva, Rogério Ferreira (médico, não o actual vice-presidente da FAX), Alexandre Gourgel “Xandoca”, Luís Silva “Chirila”, Fontes Pereira “Fontinhas”, os irmãos Veloso (José e Hermenegildo), os irmãos Ferreira (Rogério e Cassiano), Saraiva de Carvalho, entre outros.

No Mundial de Jovens por equipas disputado no México em 1980, Agostinho Adão, na altura o melhor jogador júnior angolano, ocupou o primeiro tabuleiro, enquanto na Olimpíada de Xadrez de Malta, no mesmo ano, foi segundo, atrás de Mário Sila. Esteve também no apuramento para o Campeonato Mundial individual em 1981, em Tripoli. A nível de clubes representou o Núcleo de Xadrez da Constroi, “Os Persistentes “, onde também foi coordenador do departamento de Xadrez e esteve igualmente num dos centros de Interesse de Xadrez (CIX), na antiga Escola Industrial, actual Instituto Politécnicio Makarenko, até 1984, quando concluiu o seu curso médio de Construção Civil. No dirigismo, Agostinho Adão ocupou o cargo de secretário-geral da FAX, de 1979 a 1982. Foi segundo vice-presidente de Direcção entre 1992-1996 e vogal de Direcção da mesma instituição nos mandatos 2004-2008 e 2008- 2012. Entre 2008 e 2012, exerceu igualmente as funções de oficial de imprensa da FAX junto da FIDE (Federação Internacional de Xadrez).


MOMENTOS
 “Participações como treinador da selecção”


Como jogador, Agostinho Adão participou apenas na Olimpíada de 1981, como treinador esteve na Selecção Nacional olímpica em três ocasiões, 1986 no Dubai, na Olimpíada de 1990 em Novi-Sadi (antiga Jugoslávia) e em 1996, na capital da Arménia, Erevan. “Os meus momentos memoráveis e positivos aconteceram quando fui ‘capitão’ e seleccionador nacional de Angola nas olimpíadas Mundiais de Xadrez: no Dubai, 1982, Jugoslávia (Novi-Sadi, 1990) e Arménia (Erevan, 1996), ao ver jogadores sob minha alçada a aplicarem tão bem as técnicas de jogo que ensaiávamos antes das partidas”, recorda.

Para Agostinho Adão os jogadores que mais o impressionavam eram os Mestres Nacionais Alexandre do Nascimento, Manuel Mateus e Nelson Ferreira, que lhe deram muitas alegrias. Os momentos mais tristes, segundo Mestre Adão, aconteceram depois de Angola ter obtido a última posição no Mundial por equipas do México, onde apesar de ter sido a “estreia” de uma equipa nacional em competições Internacionais, não deixou de ser marcante. “O facto de termos sido vistos como meros turistas não foi nada bom”, disse.


Perguntas e respostas

“Hoje os prémios
são um bom salário”


O que diferencia o xadrez de agora?
No meu tempo os jogadores entregavam-se mais de corpo e alma. Sentiam o prazer das peças e não fazer do jogo a sua profissão. Outra grande diferença é que jogava-se o xadrez por amor à camisola. Note que quando venci o Campeonato Nacional em 1981 não ganhei absolutamente nada em termos financeiros. Hoje, o jogador, quando ganha um Campeonato Nacional absoluto, além do troféu, recebe um prémio monetário, que se pode comparar a um bom salário.

Se o convidassem de novo para treinar a Selecção nacional de Xadrez aceitava?
Com certeza. Faria com muito prazer da mesma forma ou melhor do que fiz durante três ocasiões.

Agora o ídolo é Garry Kasparov. E no seu tempo?

Ouvimos muito falar de Bobby Ficher e não tínhamos como contorná-lo e isso incentivou-me muito a jogar xadrez, como o Grande Mestre Garry Kasparov, Karpov, incentivam as novas gerações.

Quer fazer uma comparação dos mandatos dos presidentes que já passaram pela FAX?
Não há comparação possível. Cada um teve a sua forma e o seu carisma de gerir a modalidade. Geriram ou dirigiram a FAX em épocas diferentes. Rogério Silva, por exemplo, dirigiu a FAX numa época com poucos recursos e fez milagres. Aguinaldo Jaime gere a FAX numa época em que, mesmo tendo alguns recursos disponíveis, não é possível agradar a todos e se calhar até tira dinheiro do seu bolso par levar o barco a bom porto.


Por dentro
Nome: Agostinho Adão Domingos
Filiação : Adão Domingos e Cândida João Bernardo
Local e Data de Nascimento: Localidade de Domingos João (Bengo) aos 27.07.1959
Estado Civil: Casado
Filhos: Sete
Altura: 1,65m
Calçado: 41
Prato Preferido: Bagre Fumado e Feijão com Funge de Milho
Bebida: Um bom vinho
Hobby: Jogar Xadrez


ERRATA

Por um erro de grafia, no perfil publicado ontem, o coordenador nacional das Academias de Ginástica da Federação Angolana de Ginástica (FAG) foi identificado como Paulo João Simão. Na verdade, o seu nome é Paulo João Serrão. Natural do Kwanza-Norte, o dirigente é filho de João Paulo Serrão e Suzana Pinheiro. Quanto à orientação religiosa, revê-se nas Testemunhas de Jeová.