Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Miguel Lutonda

Melo Clemente - 17 de Outubro, 2012

General Lutonda despediu-se ontem dos seus fs depois de 25 anos de intensa actividade

Fotografia: Jornal dos Desportos

O “General”, como é conhecido nas lides da “bola ao cesto”, vai doravante abraçar a carreira de treinador dos escalões de formação do Clube Central das Forças Armadas Angolanas, função em que espera brilhar, tal como o fez dentro das quadras.Jogador de qualidades inquestionáveis, Miguel Lutonda apenas aos 27 anos de idade conseguiu se impor ao nível da Selecção Nacional, onde logo se tornou numa grande referência.

Em entrevista exclusiva ao Jornal dos Desportos, o antigo base da Selecção Nacional e do 1º de Agosto mostrou-se radiante com a iniciativa do grémio que o catapultou para o sucesso, pelo facto de lhe ter proporcionado uma despedida à margem da quarta edição do Torneio Victorino Cunha. Apesar de reconhecer que chegou ao fim do seu ciclo, o ex-internacional angolano não escondeu a tristeza pelo facto de abandonar a alta competição.

Jornal dos Desportos – Está satisfeito com a iniciativa da direcção do 1º de Agosto em proporcionar-lhe uma despedida simbólica?
Miguel Lutonda - Ser homenageado com um torneio oficial que se chama Victorino Cunha é gratificante, na medida em que muitos atletas passaram por aqui e não tiveram esta sorte. Por isso, gostaria de agradecer à direcção do clube liderada pelo general Carlos Hendrick.

JD – Sente que chegou o momento certo para abandonar as quadras ou foi forçado a fazê-lo?
ML – Foram 25 anos a competir ao mais alto nível, por isso, acredito que chegou o momento certo de me retirar das quadras e dar lugar aos mais novos. Ninguém me forçou em nada, foi uma decisão minha.

JD – Mas não deixa de ser uma decisão difícil…
ML – Claro que sim. Gostaria de jogar até aos 50, 60 anos, mas tudo na vida tem ciclo e penso que o meu chegou ao fim.

JD – Sai de alguma forma frustrado pelo facto do 1º de Agosto não ter conseguido reconquistar o título de campeão nacional na época transacta?
ML – Em parte, sim. Seria bom se tivéssemos conquistado o campeonato nacional, aí sim, a minha despedida seria fechada com chave de ouro. Infelizmente, assim não aconteceu. Paciência.

JD – O que faltou ao 1º de Agosto para quebrar o jejum de dois anos sem ganhar campeonatos nacionais?
ML – Penso que, nos últimos dois anos, não nos conseguimos apresentar melhor nas fases finais. Nos dois anos em que perdemos o campeonato nacional, conseguimos ganhar as fases regulares, mas, na ponta final, acabamos sempre por claudicar. As outras equipas faziam exactamente o contrário de nós, ou seja, vacilavam nas fases regulares e apareciam em grande na fase final.

JD - Há quem diga que, nos últimos dois anos, o 1º de Agosto descurou e muito o factor rejuvenescimento...
ML – Penso que não. Nós perdemos o campeonato nacional nos últimos dois anos porque as outras equipas estiveram melhor que nós e não pelo facto da equipa não ter sido renovada.

 JD – Com a sua retirada, sente que a posição um do 1º de Agosto ficou de alguma forma fragilizada?
ML – Penso que não, na medida em que temos ainda o Armando Costa, que vai seguramente proporcionar muitas alegrias ao clube, em companhia dos demais colegas. O 1º de Agosto sempre esteve bem servido em termos de bases. Além do Armando Costa, o jovem Hermenegildo Santos tem me surpreendido pela positiva nos últimos tempos. A posição um está salvaguardada.

 JD – E os outros sectores?

ML – Nos outros sectores também não existem problemas. Tenho a plena certeza que o actual plantel está em condições de discutir as mais diferentes provas, quer a nível doméstico, quer a nível internacional. No recém-disputado Zonal VI de Maputo, a nossa equipa mostrou o seu poderio.

MUDANÇA
Começou prática desportiva no andebol


Apesar de se ter notabilizado no basquetebol, Miguel Lutonda começou a prática desportiva no andebol, onde foi um exímio guarda-redes.Face às suas qualidades, Lutonda tornou-se no guarda-redes principal da escola Nzinga Mbandi. Nos campeonatos interescolares, esteve sempre entre os melhores da capital do país.

Encorajado por um amigo, que via em Lutonda uma altura fora do comum para o andebol, convidou-o a treinar basquetebol, disciplina que até então lhe parecia estranha. Depois de muita insistência, decidiu abraçar o conselho do seu velho amigo.“Ao contrário do que muita gente pensa, o basquetebol nunca foi minha paixão porque entendia que não tinha talento para tal. A minha paixão era o andebol. Em 1984, eu era titular indiscutível da escola Nzinga Mbandi e actuava na posição de guarda-redes.

JD – Como é que nasceu a paixão pelo basquetebol?
ML – Foi graças a um amigo de infância que, vendo a minha altura, aconselhou-me a treinar o basquetebol ao invés do andebol.

JD – Foi fácil essa mudança do andebol para o basquetebol?
ML – Claro que não. Naquela altura, eu nem sabia driblar em condições e quando cheguei à Banca, puseram-me a treinar com as meninas.

JD – Como assim?

ML – Com não tinha muita habilidade para o basquetebol, os técnicos decidiram colocar-me a treinar com as meninas. Passados quatro meses, comecei a driblar em condições uma bola de basquetebol. Lembro-me que faltou um atleta na equipa masculina e o treinador chamou-me para completar o número. Ele ficou surpreendido com a minha evolução e convidou-me a fazer parte da equipa.

JD – E partir daí conseguiu impor-se na equipa?

ML- Não, porque no ano a seguir transferi-me para o Grupo Desporto da Nocal, onde me sagrei duas vezes campeão nacional de juvenis e duas vezes campeão de juniores.

DESAFIO
Aposta na carreira de treinador


O ex-internacional angolano tenciona repetir o sucesso protagonizado nas quadras, agora nas vestes de técnico das camadas jovens do 1º de Agosto. A paixão que sente pela modalidade fez com o Miguel Lutonda apostasse na carreira de treinador.“Apesar de me retirar oficialmente das quadras como jogador de alta competição, vou continuar ligado ao basquetebol do 1º de Agosto,como treinador das camadas jovens. Não podia ser diferente. Por isso, gostaria, mais uma vez, de agradecer à direcção do 1º de Agosto por me ter dado esta oportunidade”.

JD – Acha que vai ser bem sucedido nesta sua nova função?
ML – Só o futuro dirá. Não tenho pressa, por isso, quero apreender com todos os técnicos do país, porque só assim poderei um dia tornar-me num técnico de referência. Tenho consciência que só através de formações sistemáticas posso chegar um dia ao auge como treinador.

JD – Trabalhar com escalões de formação é sempre muito mais difícil...
ML – Acredito que sim. Daí é que se exige mesmo que os treinadores deste escalão sejam bem formados, porque só assim podemos formar atletas com boas qualidades a fim de mantermos a hegemonia do nosso basquetebol ao nível do continente africano.

JD – O seu sucesso como jogador é o mesmo que espera ter como treinador?

ML – Gostaria e muito que isso acontecesse comigo. Vou trabalhar arduamente, tal como o fiz enquanto jogador, porque o meu desejo é tornar-me num técnico de referência a nível do continente e - porque não? - do mundo.

ALEGRIA
O reconhecimento da sociedade


Embora não se sinta realizado em termos financeiros, dado o número de troféus conquistados, Miguel Lutonda sente-se reconfortado com o reconhecimento da sociedade.“Jordan ganhou seis títulos na NBA e hoje é um milionário. Eu consegui 11 títulos, sendo cinco a nível da selecção e seis de clubes, ainda assim, tenho de continuar a trabalhar arduamente para me manter estável no capítulo financeiro. Mas, a minha grande alegria é o reconhecimento que recebo da sociedade angolana”.

BASQUETEBOL
Podemos recuperar a hegemonia”


Para o antigo base da Selecção Nacional e do 1º de Agosto, a perda do título africano foi apenas um acidente de percurso, pelo que a conquista do Afrobasket 2013 vai ser um facto.“Tenho a plena convicção que, em 2013 na Costa do Marfim, vamos conquistar o Campeonato Africano das Nações. Reconheço que é um terreno extremamente difícil, porque a selecção da casa, que há muito não ganha um Afrobasket, tudo vai fazer para o conquistar. Mas, como os angolanos estão habituados a enfrentar grandes obstáculos, creio que vamos vencer. Em 2011, a nossa derrota foi apenas um acidente de percurso”, disse.

JD – Porquê tanta convicção na reconquista do Afrobasket?
ML – A minha convicção resulta da qualidade dos nossos jogadores. Temos um grupo de jogadores que podem ajudar Angola a manter-se ainda por mais tempo no top africano. Mas, para tal, temos de ser cada vez mais profissionais, quando estivermos a preparar uma competição internacional, porque, nos últimos dois anos, a nossa Selecção enfrentou muitos problemas que não se compadecem com o nível que já granjeamos tanto ao nível do continente africano, como a nível mundial.

JD – A Selecção Nacional fica fragilizada com a sua saída e a possível retirada do Carlos Almeida?
ML – Penso que não. Penso que o Carlos Almeida, pela sua experiência, ainda nos será muito útil nos próximos anos, por isso, penso que é um atleta com que podemos contar. De uma maneira geral, temos um leque de jogadores que estão em condições de reconquistar o Afrobasket. Disso não tenho a menor dúvida.

JD – Mas as outras selecções africanos evoluíram muito nos últimos tempos…
ML
– Com certeza. Os tunisinos evoluíram muito e não é por acaso que são campeões africanos tanto ao nível de selecções, como de clubes. A Costa do Marfim também tem subido de rendimento. Mas, nós temos de nos preparar convenientemente para superar todas essas selecções e mantermos a nossa hegemonia.

JD – Acha que, na eventualidade de reconquistarmos o Afrobasket, vamos nos manter no top por muito tempo?
ML – Porque não? Temos matéria humana no país, precisamos apenas de trabalhar correctamente.

CALVÁRIO 
Entrada aos 27 anos na Selecção Nacion
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Dono de um talento natural, Miguel Lutonda teve imensas dificuldades para se impor na Selecção, devido à qualidade dos jogadores que faziam o núcleo duro do combinado nacional.Apesar de ser chamado sempre à pré-selecção, na hora da verdade, era preterido.Apenas aos 27 anos, conseguiu constar dos 12 eleitos para o Campeonato Africano das Nações em Dakar, Senegal.O antigo base do cinco nacional não teve sorte e Angola viria a perder o Afrobasket de 1997, sob liderança do malogrado técnico angolano Wlademiro Romero.

“Fiz parte de uma geração de grandes jogadores. A minha entrada tardia na Selecção Nacional deveu-se ao facto de, naquela altura, Angola ter um fornalha de grandes jogadores e principalmente na posição um (base). Tínhamos o Benjamim Romano, Benjamim Avô, o Zé Neto “Escorrega” e, diante dessas feras todas, era impossível um jovem atleta impor-se na selecção por mais talento que tivesse”.

A sua estreia é de má memória, dado que Angola viria a perder o Afrobasket de 1997. “Infelizmente, no ano em que fiz parte pela primeira vez da Selecção Nacional, acabamos por perder a prova, para minha desolação”.De 1999 a 2007, seguiram-se vitórias consecutivas. As conquistas do Afrobasket de 1999 e de 2007 foram os mais saborosos para o ex-internacional angolano, por terem decorrido em solo angolano.

“Dos cinco títulos africanos que conquistei, os de 1999 e de 2007 foram os mais saborosos, porque foram disputados em Angola e senti de perto o calor transmitido pelos angolanos”, afirmou.Jogar ao lado de atletas talentosos como Jean Jacques da Conceição, David Dias, Ângelo Victoriano, Honorato Trosso, Nelson Sardinha, José Carlos Guimarães, Paulo Macedo, Aníbal Moreira, entre outros, serviu como factor motivacional para a sua brilhante carreira desportiva.

FEITOS
As conquistas da carreira


Apesar de acumular vários troféus ao longo dos 25 anos de carreira, foi no 1º de Agosto que Miguel Pontes Lutonda coleccionou mais títulos.O sucesso começou logo no Grupo Desportivo da Nocal, grémio que praticamente formou aquele que se viria a tornar num dos melhores bases dos últimos tempos.

Com a camissola da Nocal, Miguel Lutonda conquistou quatro campeonatos nacionais, sendo dois em juvenis e igual número de juniores.Em 1996, quando se transferiu para o Atlético Sport Aviação (ASA), arrebatou dois campeonatos nacionais consecutivos ao nível dos seniores.

Já com a camisola da equipa rubro-negra, o antigo internacional conquistou nove campeonatos nacionais, cinco taças de Angola, oito supertaças, seis títulos africanos de clubes e uma Taça Compal. Com a Selecção Nacional, Lutonda arrebatou cinco campeonatos africanos, dois torneios da RTP, além de ter sido eleito por duas ocasições como MVP (Jogador Mais Valioso do Campeonato Africano das Nações).

FUTURO
As conquistas da carreira


Apesar de acumular vários troféus ao longo dos 25 anos de carreira, foi no 1º de Agosto que Miguel Pontes Lutonda coleccionou mais títulos.O sucesso começou logo no Grupo Desportivo da Nocal, grémio que praticamente formou aquele que se viria a tornar num dos melhores bases dos últimos tempos.Com a camissola da Nocal, Miguel Lutonda conquistou quatro campeonatos nacionais, sendo dois em juvenis e igual número de juniores.

Em 1996, quando se transferiu para o Atlético Sport Aviação (ASA), arrebatou dois campeonatos nacionais consecutivos ao nível dos seniores.Já com a camisola da equipa rubro-negra, o antigo internacional conquistou nove campeonatos nacionais, cinco taças de Angola, oito supertaças, seis títulos africanos de clubes e uma Taça Compal. Com a Selecção Nacional, Lutonda arrebatou cinco campeonatos africanos, dois torneios da RTP, além de ter sido eleito por duas ocasições como MVP (Jogador Mais Valioso do Campeonato Africano das Nações).

FUTURO
Base aponta substitutos


A posição um da Selecção Nacional continua salvaguardada, dado o potencial de atletas que se têm destacado nos últimos tempos. A constatação é do ex-internacional angolano, que ontem mesmo se despediu de forma simbólica das quadras, no Pavilhão do CODENM, perante nove centenas de fãs.

“Felizmente, na posição de base temos muitos jovens que têm dado cartas. E se continuarem a ser humildes e, sobretudo, trabalhadores, penso não teremos qualquer problema nos próximos anos. Armando Costa, Milton Barros, Domingos Bonifácio são atletas que já têm dado provas das suas reais capacidades na Selecção Nacional”, disse.Além desses atletas, considerados consagrados, o “General” apontou ainda os nomes de Hermenegildo Santos (1º de Agosto) e Francisco Sousa (Libolo).

AGRADECIMENTOS
Técnicos que o marcaram


Ao longo dos seus 25 anos de carreira, vários técnicos marcaram a sua brilhante trajectória no basquetebol. Na hora do adeus final, Miguel Lutonda não deixou de agradecer a todos quantos contribuíram para o seu sucesso dentro das quadras.“Gostaria de agradecer a todos os treinadores que, de forma directa ou indirecta, contribuíram para a minha formação. Tenho a destacar os nomes de Elvino Dias, o malogrado Zezé Assis, Nuno Teixeira, professor Victorino Cunha, Mário Palma, sem esquecer o técnico Jaime Covilhã”, afirmou.