Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Miguel Lutonda ainda estou em forma

Avelino Umba - 23 de Julho, 2010

Miguel Lutonda, extremo-base do 1 de Agosto e da Seleco de Angola

Fotografia: M. Machangongo

Miguel Lutonda fala do regresso à Selecção Nacional de Basquetebol. O "General" está de volta à Selecção Angolana de Basquetebol e disposto a ajudar o país a fazer boa figura no Mundial da Turquia, em Agosto. Miguel Lutonda, a caminho de 39 anos, afirma estar em forma, apesar da idade, factor que diz ter pouco peso para si. “A idade nem sempre conta”, justifica. Acredita numa boa prestação de Angola na prova, sonhando inclusive com a superação do novo lugar alcançado na última edição realizada no Japão. Siga a conversa com Miguel Lutonda, em que, dentre outros assuntos, fala da aposta nos escalões de formação, a fórmula para Angola se manter no topo do basquetebol continental.  Depois da ausência no último “Africano”, por algum descontentamento, volta a vestir as cores do país. Foram já satisfeitas as suas exigências?Respondi muitas vezes a essa pergunta e acredito que todos os amantes da modalidade estão ao corrente dessa situação… Na altura, era o momento certo para pendurar as botas?Foram muitos anos de basquetebol e, como tudo tem o seu tempo, na altura, achei por bem colocar um ponto final, não pelo facto de ser a altura certa, mas porque precisava de ter o descanso merecido para dar mais atenção à família e aproveitar para fazer outras coisas. As condições que exigiu na altura foram satisfeitas?Enquanto estive na Selecção Nacional, todas as propostas foram satisfeitas. Não tive problemas de maior. Hoje, voltei e tudo indica que não haverá problemas, cabendo apenas às partes cumprirem as cláusulas firmadas no contrato. Após o Mundial, creio que haverá satisfação dos dois lados e continuaremos a trabalhar normalmente.  O seu regresso deve-se muito ao facto de o Armando Costa se encontrar lesionado? Caso contrário, não regressaria?Não é verdade. Na altura em que não fui convocado, evocavam o facto de não atingir os itens desejados para estar na Selecção, quando até acredito ter feito uma época regular. Hoje, se voltei a ser convocado, deveu-se à boa prestação ao longo do campeonato e não pelo facto de o Armando Costa contrair lesão. Regressou. Qual é o seu sentimento?Como sempre, o mesmo sentimento de uma pessoa batalhadora, de um patriota, que faz tudo para não defraudar aqueles que directa ou indirectamente contribuem para este Lutonda ser o que é hoje. Embora as pessoas digam que o factor idade conta, na verdade, ainda me sinto em forma, porquanto consigo dar o meu máximo e ajudar os colegas sem problemas de maior. Com esta convocação, só me resta fazer de tudo para dignificar as cores da bandeira, acima de tudo. Um atleta de várias geraçõesSoma 39 anos de idade, 17 dos quais ligados à Selecção Nacional. Que avaliação faz desse período?Completo 39 anos de idade em Dezembro, dos quais 17 ao serviço da Selecção Nacional, desde os juniores. Foi um período positivo. Nove anos antes de chegar à Selecção de Honras (em 1997), já vinha participando em pré-selecções, algo que tenho como motivo de satisfação e orgulho. Que recordações tem desse tempo?Recordo ter encontrado alguns mais velhos com os quais fui trabalhando até atingir um nível aceitável, em 1997, numa altura em que somava 27 anos, tendo antes participado em torneios como o da RTP e outros tantos em Moçambique.  Pode-se dizer que você deve muito ao basquetebol?Lembro-me que comecei a praticar basquetebol em 1985 e não sabia que seria o grande jogador de hoje. Com muito trabalho e dedicação, fui mantendo a esperança de um dia me conseguir impor na modalidade. Quando era mais novo, inspirava-me em mais velhos como o Jean Jacques da Conceição, o José Carlos Guimarães e o Benjamim Avô. Interrogava-me: se eles estão onde estão, porque não também conseguir chegar lá? Qual foi a receita para atingir este patamar?A única receita para tal foi o trabalho. Trabalhei bastante e consegui jogar com os mais velhos para ser o Lutonda de hoje. Joguei com as melhores gerações de basquetebolistas, o que é para mim uma satisfação e honra. "Consegui de tudo umpouco com o basquetebol"O que de mais importante ganhou no basquetebol?Consegui de tudo um pouco. Numa primeira fase, o jogador deve estar equilibrado mentalmente para as coisas correrem da melhor maneira. Quero agradecer ao ASA, pois, na altura em que jogava lá, souberam cativar-me e satisfazer as minhas necessidades. No que toca ao basquetebol, em geral, consegui muita coisa. Fui duas vezes eleito o Jogador Mais Valioso (MVP) de África e, na última vez, no Torneio da Compal, com a idade que tenho, consegui ser o melhor atleta da prova. Por isso, afirmo que muitas vezes a idade não tem grande influência.  Como vê a nossa selecção?Temos dois jogadores muito valiosos nesta selecção. Trabalho com eles há algum tempo e noto-lhes evolução. Trata-se do Olímpio Cipriano e do Carlos Morais, não descurando outros. No último “Africano”, tivemos uma selecção mais nova e conseguimos vencer a prova, razão pela qual continuo a acreditar que, com muito trabalho e a aposta nos mais novos, poderemos manter a hegemonia no continente.  Acredita haver valores na posição onde joga (extremo-base), isso aventando o seu abandono nos próximos tempos?Acredito que sim. O Armando Costa e o Bonifácio são bons. Além destes, temos o Milton Barros, que não foi convocado (não sei porquê), mas na verdade é um bom jogador. Existem outros bons basquetebolistas noutras equipas que merecem oportunidades, mas que, infelizmente, nunca aparecem porque o campeonato dos seus clubes acaba mais cedo, ficando em prova apenas o Libolo, o 1º de Agosto, o Petro de Luanda e o ASA. Existem muitos bons jogadores em determinadas equipas e não conseguem aparecer porque não estão nas três principais formações do país. Se estivessem nas grandes equipas do país, teriam mais chances de chegar à Selecção Nacional. Tem algum exemplo?É o caso do nosso colega o Mário Correia, que jogou quase cinco anos em Cabinda e que ninguém tinha notado que podia dar muito mais ao basquetebol. Pena é que é cabo-verdiano. Jogadores como ele, temos muitos noutras equipas, mas não os conseguimos ver, pois, como disse, as suas equipas ficam na primeira ou na segunda fase. Apostar na base é prioridadeA nossa selecção parece ter uma média de idade avançada. Concorda?Ronda entre 32 anos de idade. Temos de apostar mais na base, porque doutra forma, daqui a cinco anos, a nossa selecção estará na faixa etária dos trinta e cinco anos. Comparativamente à selecção dos Camarões, por exemplo, que esteve cá no Afrobaskete’2007, tinha uma média de 25 anos. Fazendo contas, quando eles atingirem a média de 35 anos, se não fizermos um trabalho de base, até lá este grupo já não existirá. A nova geração garante a hegemonia no continente?Temos de trabalhar com a nova geração para garantir o amanhã. Devemos procurar investir mais nos Campos de Férias, para injectar mais jovens na modalidade, tal como se faz em Portugal e nos Estados Unidos da América. "Com mais trabalho podemos superar o nono lugar"Que estratégias devemos adoptar para continuarmos no topo do basquetebol continental?É acima de tudo, o trabalho e o empenho. Trabalhamos muito, jogamos num só campeonato e conhecemo-nos bem. Embora reconheçamos que, em termos de estatura, a nossa selecção é a mais baixa de África, conseguimos ganhar 10 campeonatos africanos, o que é muito bom para o nosso basquetebol.  É possível ir além do nono lugar no Campeonato do Mundo?No último Mundial, ficamos em nono lugar, ao vencermos duas equipas. Se isso aconteceu, com mais trabalho, acredito que podemos fazer melhor. Temos de continuar a pensar alto, com muito trabalho e dedicação e, acima de tudo, investimento. Que possibilidades tem o país no Mundial da Turquia, em Agosto?Somos decacampeõs africanos e, por essa razão, todo o mundo tem as atenções viradas para Angola. Com as vitórias alcançadas ao longo deste tempo, admito que FIBA reconhece o nosso potencial. >> Quem é quem ...Nome: Miguel LutondaData de Nascimento: 24/12/71 Naturalidade: Cazenga (Luanda)Nacionalidade: Angolana Estado civil: CasadoFilhos: Seis Altura: 1.86 cmPeso: 84 QuilogramasClube: 1º de AgostoDesporto ideal para si: Basquetebol Bebida: Vinho tintoNúmero de calçado: 45 Música: RapPrato preferido: Banana pão com frango estufado Religião: Tocoista Calor ou cacimbo? Cacimbo Esplanada ou discoteca? DiscotecaBoleia ou volante: Volante