Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Modalidade est em fase de reestruturao

Jos Chaves, no Kuito - 29 de Setembro, 2010

Victor Quessongo, presidente da Associao de Andebol do Bi

Fotografia: Jos Chaves

Como avalia o andebol no Bié?
Está em fase de reestruturação. Para ser franco, a modalidade enfrenta dificuldades. A associação trabalha na revitalização e massificação da mesma, apesar de enfrentamos dificuldades como a falta de verbas para a implementação de projectos. Como é de conhecimento público, o desenvolvimento de determinada modalidade desportiva não passa apenas pelo surgimento de novos talentos e de infra-estrutruras desportivas, mas também pela formação de quadros técnicos em várias vertentes. Em anos passados o Bié viveu maus momentos, mas neste estamos a trabalhar para inverter o quadro.

A província não compete há dez anos em provas nacionais. Quando pretendem regressar às competições?
A massificação na província atingiu um nível considerável de desenvolvimento, com a mobilização de vários atletas dos escalões de iniciados e de juvenis, em ambos os sexos. O nosso objectivo é voltar a competir em provas nacionais em 2011 e, por isso, passos estão a ser dados.

A modalidade alcançou, em tempos idos, um nível considerável e teve várias participações em provas nacionais. Acredita na recuperação deste cenário?
Estamos a trabalhar para resgatar a mística do andebol bieno. Vamos fazer de tudo para recuperar esse nível, pois a intenção é voltar aos tempos de glória.

Quantos clubes movimentam  a modalidade?
Temos a equipa do Sporting, que realiza um trabalho digno de realce. A associação trabalha num projecto de masificação no interior, do qual destacamos o Núcleo do Andulo, de Nharea, do Cunhinga, de Camacupa e do Cuemba. Portanto, poucos clubes têm o andebol.

Quantos atletas estão inscritos?
Temos mais de 150 atletas controlados, número que pode subir, na medida em que todos os dias aparecem crianças interessadas.

Falou de falta de clubes, mas disse haver núcleos. Então, por que falta competição interna?
Sem clubes nada se pode fazer.Com núcleos não podemos organizar campeonatos regulares. Ainda assim, cremos que, este ano, teremos mais clubes com andebol, pois estamos a fazer contactos com o Vitória Atlético Clube, Benfica do Kunje, Recreativo do Chinguar, Desportivo de Camacupa  e Benfica do Andulo. Acredito que neste ano teremos cerca de seis equipas.

Os clubes locais enfrentam dificuldades?
A insuficiência de verbas constitui o grande entrave para a prática do andebol. A maioria das agremiações da província enfrentam sérios problemas financeiros, pelo que é complicado incluir novas modalidade, a julgar pelos elevados custos que acarreta. Logo que sejam criadas as condições financeiras, dar-se-á início à prática da modalidade.

Que estratégia utilizar para a criação das seis equipas este ano?
A província já possui infra-estruturas para a prática do andebol. Os clubes, tirando o Sporting, reclamavam de infra-estruturas. Agora que as temos, poderá ser mais fácil formar equipas.

As entidades que regem o desporto na província apoiam a associação?
O apoio que recebemos das instâncias que regem o desporto nesta parcela do território nacional é apenas institucional. O governo provincial apoiou-nos no ano passado com a realização, no Kuito, dos XXX Campeonatos Nacionais em seniores masculino e feminino. De lá para cá, nunca mais fomos tidos nem achados.

"Já atravessámos
períodos mais difíceis"


Mesmo sem grandes apoios a modalidade não pára…
Com certeza! Não podemos parar. Já atravessamos fases mais difíceis. Vamos continuar a trabalhar para recuperar o estatuto que o andebol local teve.

Que conselho deixa aos clubes locais?
As direcções dos clubes que apostam no andebol devem adoptar políticas que permitam ser fortes economicamente. Devem seguir o exemplo de outras agremiações que possuem patrocinadores. É preciso que os clubes procurem meios para sobreviver.

Dirigente considera prioridade
a massificação nas escolas


O que fazem para ter mais pessoas a praticar o andebol?
Achamos que a prioridade é a colocação de crianças do Primeiro Ciclo de toda a província a praticarem a modalidade para perspectivar um futuro melhor para a mesma no Bié. Dentro de cinco a seis anos, poderemos atingir os níveis de províncias que são hoje a montra de África, como Luanda e Benguela.

Que outras prioridades tem a associação?
Apostar nas infra-estruturas e na formação de atletas é prioridade, processo a ser implementado em todos os municípios.

Como estão em termos de recursos humanos e de infra-estruturas?
Temos alguns monitores em Andulo, Nharea, Cunhinga, Catabola e Camacupa. Na capital de província, temos mais cinco técnicos. Temos uma infra-estrutura, na cidade capital, que é o Pavilhão do Sporting e a Direcção Provincial da Juventude e Desportos disponibilizou uma das quadras do Centro Pré-Universitário Rei Ndunduma. No interior, também existem algumas quadras. Em suma, estamos bem servidos. O grande calcanhar de Aquiles está na conservação dos recintos desportivos.

O que procuram com a massificação?
O nosso propósito é formar e depois entregar os atletas a clubes da província e do país.

A classe empresarial local apoia?
Esta cultura no Bié ainda não se faz sentir. Aproveito a oportunidade para lançar um apelo aos vários empresários, que aqui têm os seus empreendimentos, no sentido de procurarem o "casamento" com os clubes, porquanto, para além de ajudar no desenvolvimento das modalidades, contribuirá para o surgimento de outras equipas na província. O futuro do andebol aqui depende do apoio de pessoas singulares e da classe empresarial. Caso surja, o andebol voltará aos tempos áureos. Tem de haver pessoas de boa fé para apoiarem a modalidade.

Competição em seniores só daqui a cinco anos

Este ano, o Bié não participou no Campeonato Nacional de Andebol em seniores masculinos.

Quando teremos de volta as equipas da província em provas nacionais?
Nós, a Associação Provincial, trabalhamos com os clubes e estes vivem uma situação financeira não muito boa. São nestes clubes que deveríamos ter o escalão de seniores, mas as condições financeiras não permitem, tudo porque tais encargos são elevados. Acredito que, com o projecto de massificação a decorrer na província, voltaremos a competir em seniores masculino e feminino, daqui a cinco anos. Creio que o Governo Provincial do Bié vai ajudar a inverter o quadro dentro de pouco tempo.

Faltam três meses para terminar o ano. Que perspectivas tem para 2011?
Estamos a preparar um encontro com os treinadores da província, no sentido de preparar a época em termos de campeonatos provinciais dos escalões de iniciados e de juvenis, em ambos os sexos. Vamos começar, no próximo ano, com um refrescamento dos treinadores das camadas jovens e trabalhar mais, a fim de dignificar o andebol bieno.

Fale da competição interna?
Perspectivamos a realização dos campeonatos provinciais em iniciados e em juvenis, em ambos os sexos. Vamos trabalhar para incluir na prova equipas do interior da província. Temos realizado alguns torneios internos para manter o nível competitivo das equipas locais.

E sobre o intercâmbio com outras regiões do país…
Temos contactos com equipas do Huambo, realizando jogos de controlo lá e cá. Vamos também procurar manter intercâmbio com as províncias do Kuando-Kubango, Benguela, Huíla, Moxico e Lunda-Sul.

A adulteração de idades tem sido uma constante. Como encara esta situação na província?
Este é um mal que estamos a combater. Queremos acabar com a adulteração de idades e garanto que os atletas inseridos na massificação têm idades verdadeiras, na medida em que trabalhamos em parceria com as escolas onde os alunos estão matriculados e mantemos encontros regulares com os seus encarregados de educação.

O que diz sobre o facto de os clubes se queixarem da falta de dinheiros...
Não está a ser fácil, mas continuamos nesta batalha. Tenho fé que vamos atingir o nosso objectivo que é contribuir para a melhoria do nosso andebol. É verdade que os clubes sozinhos nada podem fazer, pois não têm dinheiro para desenvolver o desporto de alto rendimento. Por isso, defendo que o Estado dê uma mãozinha, apoiando material e moralmente os clubes federados. Está provado que sem ajuda, o desporto, concretamente o andebol, não progride e pode cair numa situação muito mais complicada.