Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Mário Soares teve um pé nos Palancas

Arão Martins |Lubango - 08 de Fevereiro, 2018

Fotografia: Edições Novembro

Este ano, o Girabola passa a ser disputado a uma \"velocidade de cruzeiro\" para a uniformização do calendário no continente, de acordo a orientação da Confederação Africana de Futebol (CAF). Que avaliação faz da decisão?
“Temos de ter a capacidade de gerir o plantel da melhor forma possível e equilibrar ao longo da prova com as equipas que têm plantéis equilibrados. Penso que desta forma será mais fácil. Mas para as equipas modestas, de certeza absoluta que as dificuldades são acrescidas, teremos de ter capacidade e nós treinadores submetidos a este teste para alcançar bons resultados”.
 
Para as equipas que competirem nas Afrotaças vai permitir entrarem nas competições da CAF em pé de igualdade com os  adversários?
“Nunca estivemos desfasados da programação da CAF. Sempre e mesmo agora com esta mudança, vamos notar que o nosso calendário era de Fevereiro a Novembro e o Girabola também se fazia durante o ano civil. A CAF agora mudou para  a uniformização da FIFA, obrigou todos os países a seguirem”.
 
Defende que a alteração pouco ou nada vai trazer de novo para o futebol angolano?
“Repito. A FAF nunca esteve desfasada da CAF, em função das  datas. É apenas uma mudança para acompanhar quem dirige o futebol africano”, destacou.
 
Em relação à Taça de Angola é a favor ou contra o cancelamento da prova, este ano?

“Ainda continua a ser pena, não se disputar a Taça de Angola este ano, mas temos de compreender que é um mal necessário, e talvez  uma forma de insatisfação mas temos de aceitar a decisão da FAF. O futebol é a alegria do povo e a Taça de Angola é a competição que qualquer um dos clubes inscritos na Federação tem a possibilidade de discutir”.

E, a Supertaça, que comentário tem a dizer?
“É o primeiro troféu da época e creio que qualquer um dos clubes interessados tinham o direito de determinar se queriam disputar ou não o primeiro troféu da época”.

O plantel do Desportivo para a época 2018 está fechado?
“Tenho o grupo quase fechado. O camaronês Leonel começou a trabalhar em Benguela, deu bons indicadores e aceitamos a  integração no nosso grupo. Acreditamos que vai ficar connosco se administrativamente for inscrito, porque tecnicamente nós os treinadores fizemos a nossa parte e demos o aval para inscrevê-lo.
 Contudo, em função de todas as situações que por vezes acontecem, vamos esperar para ver e crer”.


RELAÇÃO COM A DIRECÇÃO
“Estou agastado
com algumas situações”


O Desportivo da Huíla efectuou um estágio pré-competitivo em Benguela, onde disputou alguns jogos de controlo. Que avaliação faz do plantel para esta época?
“Disputámos oito jogos de controlo e o grupo portou-se muito bem. Trabalhámos com muita alegria, mas a direcção do clube ao dispensar o avançado Belito, com valências difíceis de colmatar beliscou o trabalho feito”.
 
Não lhe foi avisado com antecedência essa pretensão?
“Já na recta final e a poucos dias do início do campeonato, surgiu o problema adverso e que afectou a nossa preparação. Estávamos a formar no estágio em Benguela um bom grupo de trabalho, mas esta situação apanhou-nos de surpresa”.
 
Repito. A direcção não lhe informou da intenção?
“O Belito é um bom jogador e sabemos que atletas com a sua característica não é fácil neste mercado. Ele tem as suas características e nós trabalhamos em função das suas qualidades e a maneira de estar em campo”.

Já encontrou alternativa para cobrir o vazio deixado pelo Belito? 
“Temos de acreditar em nós mesmos. Potenciar outras valências que temos dentro do grupo, porque afinal também somos profissionais e temos capacidade para isso. Entretanto, deve-se alertar que isso leva tempo e pode ter custos. O que vamos fazer é minimizar esse custo, para que não seja muito alto, e mais rápido possível arranjar soluções dentro do plantel, para iniciarmos bem o campeonato, porque o público do Lubango merece uma equipa boa e regular”, destacou.

Para um plantel de 26 atletas existem sempre alternativas?
“Temos de criar alternativas, mas dizer que entristeceu muito o grupo, particularmente a mim como treinador,  começo já a  agastar-me com algumas situações da direcção, principalmente, a que aconteceu. Pedir às pessoas para pensarem mais no clube e não em situações que não beneficiam o colectivo”

À excepção deste imprevisto  formou o plantel para alcançar o objectivo perspectivado para esta época no Girabola Zap?
 “Perspectivamos fazer 7 a 9 jogos e acabamos por realizar oito boas partidas. Tínhamos o nosso esqueleto base, mas na ponta final da pré-época deparámo-nos com esta situação. Estamos um tanto ou quanto insatisfeitos pelo que aconteceu. O Clube não é só idealizado pela equipa técnica, por sermos nós que trabalhamos dentro do campo, mas tem de haver sintonia muito ampla”.


“É de louvar a atitude
dos atletas”

O Desportivo debate-se com problemas de campo para treinar. A nível de direcção como está a ser tratado esta questão, para ultrapassarem este triste cenário?

“Não temos campo para trabalhar e falta-nos também material. Não temos bolas para trabalhar. É chato, que uma equipa da primeira divisão quando vai treinar, às vezes até água falta. São um conjunto de situações negativas que engolimos. Sabemos das dificuldades que o clube tem, mas um clube com estas dificuldades.... os atletas têm facilitado e é de louvar”.
 
Como é que está a ser ultrapassado esse défice e quais são as consequências para os objectivos traçados?

“Procuramos no meio do grupo compreender esta fase menos boa e ultrapassar essas dificuldades. Mas na totalidade não está a ser correspondido pela parte administrativa, sobretudo na estrutura de apoio. Isto aborrece, porque constitui um esforço muito grande por parte de nós treinadores para incentivar os atletas e, fazê-los crer que são profissionais e têm de defender a profissão”.
 
Que avaliação faz da componente administrava de um modo geral?
“Há um conjunto de factores que me deixa completamente descontente. Dizer que nesse arranque de campeonato não estou satisfeito com o que acontece, e não é novidade”.


PALANCAS NEGRAS
“Temos de seguir projectos e não amizades”


Esteve à um passo de fazer parte da equipa técnica da Selecção Nacional que realizou no CHAN de Marrocos, que faltou para abraçar o projecto?
“No futebol temos de seguir projectos, não os homens e nem as amizades. Ao depararmo-nos com um projecto, temos de analisar se podemos entrar. Foi apenas isso, que aconteceu. Foi uma hipótese, conversei com os dirigentes da Federação Angolana de Futebol (FAF) e houve alguns condicionalismos que fizeram com que eu não integrasse a Selecção nacional. Mas é como eu disse, é em função dos projectos do Desportivo”.
 
O sonho de qualquer atleta é jogar pela selecção do seu país e o treinador é de ser seleccionador nacional. Não acha que perdeu uma soberana oportunidade de dar um salto na sua carreira?
“Acordei esse projecto. Estou no segundo ano e não era de bom grado deixar o projecto ao meio, porque ia faltar com a minha palavra. Reconheço que em termos de projecção estar ligado à Federação Angolana de Futebol (FAF), não é o mesmo que estar no Desportivo da Huíla, já que são de outros patamares”.

Ainda assim, optou por dar continuidade ao trabalho no Lubango?

“Estar na Selecção Nacional era uma montra muito mais alta e ficava mais exposto ao que são as minhas capacidades. Ainda assim, sou das pessoas que acha, que uma palavra vale muito mais que uma assinatura. Daí, a minha palavra à direcção do Desportivo da Huíla”.
 
Não se esqueça que na vida às portas nem sempre se abrem para nós e certas oportunidades nem sempre se repetem?

“No contacto com a direcção do CDH puseram-me à vontade, mas senti que pudesse ficar beliscada a minha forma de estar. Não digo só no futebol, como em sociedade e assim preferi adiar temporariamente a minha entrada na Federação Angolana de Futebol ”.
 
Acredita que podem surgir possibilidades para fazer parte da equipa técnica dos Palancas Negras?

“Sinto-me capacitado e honrado pelo convite que me foi feito. Espero um dia voltar a receber o convite e entregar-me de corpo e alma, porque afinal de contas tenho muito a dar ao futebol e em especial à nossa Selecção.

Em função das dificuldades que o Desportivo enfrenta, não está arrependido de deixar passar a oportunidade?

“Tinha de cumprir com o que eu assumi no Desportivo da Huíla e só por esse facto, não fui à Selecção para desagrado de alguns dirigentes da FAF, porque insistentemente queriam que eu fizesse parte da equipa técnica dos Palancas Negras, mas é como tudo. Tenho de analisar os projectos e o que tenho no CDH não podia deixar a meio, salvo se tivesse já acima dos 50 ou 60 por cento do caminho andado. Aí, sim, podia largar. Nesta primeira fase, preferi dar sequência ao projecto”.

 

CHAN 2018
Treinador elogia Palancas


O técnico Mário Soares mostrou-se satisfeito com a participação dos Palancas Negras no CHAN 2018, que  decorreu no reino de Marrocos e consagrou a equipa anfitriã como campeã,  derrotou no jogo da final por 4-0, a Selecção da Nigéria.
 “Tenho de tirar o chapéu e dar o braço a torcer, porque  do que foi a preparação da selecção, não havia grande esperança. Fui sempre um crítico e apresentei as minhas ideias do que a Selecção pudesse fazer. Felizmente, fui surpreendido porque nunca me cansei de dizer que como angolano queria ser surpreendido pelo comportamento da Selecção. O que a Selecção fez durante o CHAN, não corresponde de maneira nenhuma, ao que foi a sua preparação”.
 
Disse que a participação dos Palancas Negras esteve acima do perspectivado, não obstante à turbulência vivida na fase de preparação. Acredita que se alguns pressupostos fossem  salvaguardados, a prestação era melhor?

“Por tudo que o grupo presente no CHAN fez, surpreendeu-me pela positiva. E, assim, como angolano me senti satisfeito e retiro tudo que foi negativo e que falei sobre a nossa Selecção, antes da sua estreia na prova”.
 
O que lhe pareceu a equipa técnica que esteve à um passo de fazer parte?

“A equipa técnica surpreendeu pela positiva, sobretudo, pela capacidade de ultrapassar as adversidades vividas, não só na própria convocatórias de jogadores que fossem ou não. Mas também a capacidade de liderança demonstrada na prova. Daí, um bem-haja aos grandes artistas no CHAN”.