Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Não sou nenhum pára-quedista

Augusto Panzo - 02 de Junho, 2011

Antes de mais, quero agradecer a oportunidade que me concedem para falar ao Jornal dos Desportos, uma vez que estava em dívida para convosco, na qualidade de principal diário desportivo do país.

Fotografia: Machangongo

Jornal dos Desportos: Visto que nos encontramos já na fase da campanha eleitoral, como é que ela tem decorrido para a vossa lista?
General Pedro Neto: Antes de mais, quero agradecer a oportunidade que me concedem para falar ao Jornal dos Desportos, uma vez que estava em dívida para convosco, na qualidade de principal diário desportivo do país, pois ainda não tinha feito nenhum pronunciamento a respeito do processo eleitoral no qual me sinto envolvido. Podemos classificar esse processo eleitoral como renhido, onde as duas candidaturas me parecem ter argumentos e condições para poderem levar de vencida essas eleições. De qualquer modo, ninguém entra num processo destes para perder; nós estamos a esgrimir os nossos argumentos e os nossos adversários também os seus. Esperemos que a mensagem que estamos a passar cale bem fundo no seio dos amantes do futebol, principalmente na população votante, que é aquela que vai ser determinante para levar de vencida o pleito eleitoral. Acima de tudo dizer que estamos neste processo com homens do desporto, para cumprir uma missão, uma vez que temos a noção perfeita de que a avaliação que se faz actualmente do nosso futebol merece uma intervenção. É por isso que decidimos abraçar este processo de mudança a nível da Federação Angolana de Futebol.

JD: Qual tem sido a sensibilidade das APF com relação ao vosso programa de acção neste momento que estão a realizar digressões às províncias?
GPN: De um modo geral, as APF não têm tido oportunidade, nem tem sido este o procedimento, de se manifestarem pelo menos abertamente logo a seguir à apresentação do nosso projecto. A verdade é que, em todas as províncias para onde nos deslocamos, em todas as APF, fundamentalmente os clubes, apresentam muitas preocupações, que têm a ver com atendimento das próprias associações, com problemas ligados às competições a nível provincial, arbitragem, justamente assuntos inseridos no nosso programa, e que as APF gostariam de ver resolvidos com esse processo de mudança. A nossa mensagem tem sido de que nós não viemos para salvar nenhuma situação, mas sim nos engajarmos com métodos de trabalho, com organização, estruturação, regulamentação e acima de tudo com profissionalismo, para que o órgão coordenador do futebol no país possa corrigir todos os assuntos de futebol, principalmente a melhoria da qualidade dessa modalidade a nível das províncias.

JD: O que de concreto se alega na províncias…
GPN: A título de exemplo, as províncias alegam que o país tem dezoito regiões administrativas, mas o futebol de primeira divisão só se pratica em oito ou nove delas. Isto é o exemplo característico de quão distantes estamos da melhoria, da elevação da qualidade do nosso futebol. A mensagem que me passam e que eu tenho acatado é de que é preciso estender o futebol a todas as latitudes do nosso país. Esta será uma das tarefas que deveremos levar a cabo, se porventura formos eleitos para assumir o cadeirão da FAF.   

JD: O que terá motivado o candidato Pedro Neto a aceitar esse tamanho desafio?

GPN: O que me levou a aceitar esse desafio é fundamentalmente o facto de não me sentir um “outsider” nas questões do desporto, nas questões de futebol. Não sou nenhum pára-quedista, tenho alguma experiência enquanto dirigente desportivo, tenho alguma sensibilidade das questões de futebol enquanto ex-praticante, tenho alguma sensibilidade para as questões de gestão enquanto cidadão que desempenhou cargos públicos durante muito tempo. Por todos esses motivos, os desafios de conduzir os destinos da federação não são para mim um motivo estranho, na medida em que na minha vida já tive oportunidades de gerir situações bem mais difíceis. Portanto, acho que estou perfeitamente abalizado para eventualmente poder responder às grandes exigências das mudanças que se devem introduzir. Não porque tudo esteja errado, mas porque é preciso actualizar o desenvolvimento do nosso futebol, com uma federação que tenha capacidade de trabalho, de execução e acima de tudo, suficientemente bem estruturada.

JD: A vossa lista é acusada pela opositora de estar a receber apoios directos dos governos provinciais com insinuações de as APF votarem a vosso favor. Confirma isso?
GPN: Eu creio que os processos eleitorais são sempre caracterizados por questões de acusações mútuas. Eu não entro para esse jogo das acusações mútuas. Respondendo ao de leve a sua pergunta, o que devo dizer sim, é de que não consigo, nem nunca conseguirei abstrair-me da condição de ter desempenhado cargos públicos. O facto de ter desempenhado cargos públicos, o facto de ser um homem de futebol, de ter sido presidente de um clube de primeira linha deste país, faz com que a minha imagem seja de visibilidade diferente da imagem de quem quer que seja, e que esteja a competir comigo. Apesar disso não ser um gesto de vaidade, é um capital social que adquiri e tem de ser respeitado. E se isso é vantajoso para mim e desvantajoso para o outro, que não seja visto como uma batota.

JD: Fala-se também na existência de corrupção neste processo...
GPN: Tive a oportunidade de tomar contacto com esse documento que diz que a lista A ofereceu material com o objectivo de influenciar votos, e eventualmente seja isso que pretendam dizer. Quero ser franco de que não deveríamos transformar essas eleições num processo de antagonismos, porque antes de mais nós somos angolanos e como angolanos, nós temos práticas que nos são inerentes como povo, como cidadãos, e gostaria de expressar que o tão propalado gesto de suborno que me é atribuído pelo material informático oferecido à província de Cabinda, devo salientar abertamente e oficialmente que essa oferta foi feita em concertação com o presidente da APF de Cabinda, senhor José Alberto Macaia, que me aconselhou que ela fosse feita de forma pública, de maneira a evitar-se especulações à volta dela. Aliás, a oferta surgiu da necessidade manifestada por aquele agente desportivo, uma vez que a sede da APF local sofrera um assalto. Nessa conformidade, e porque o material ora oferecido não tem um valor pecuniário considerável para ser visto como medida de corrupção, para além de que visa única e simplesmente melhorar as condições de trabalho de uma instituição ligada ao futebol. Também oferecemos algumas bolas aos clubes que estavam presentes e que viviam algumas dificuldades neste capítulo, com vista a diminuir essa carência para com os clubes locais, financeiramente menos capacitados. A FIFA, da qual os nossos opositores se apegam para justificar as suas acusações, diz muito bem no seu articulado o que pode ser considerado oferta, que não tem conotação com a corrupção e aquilo que tem conotação com essa prática. Se tivéssemos oferecido carros, casas ou outros bens materiais de elevado montante, acredito que os nossos adversários poderiam especular que estaríamos a fazer ofertas com objectivos eleitoralistas.

Projectos e não esmolas
para os clubes crescerem

JD: Quer com isto dizer que está suficientemente descansado?

GPN: Efectivamente. Até porque se formos buscar os nossos usos e costumes, nós africanos quando vamos visitar alguém, normalmente oferecemos ou recebemos qualquer coisa. Por isso estou totalmente descansado neste capítulo.

JD: Não tem havido alguns mal-entendidos com alguns agentes desportivos nas digressões que estão a fazer nas províncias?
GPN: Até me tirou a palavra da boca. Na deslocação que fiz anteontem à Lunda Sul fui objecto de um gesto pouco simpático. Durante a minha explanação de apresentação do programa, numa forma de chapada sem mão, as pessoas na Lunda Sul disseram que, como sabiam da minha apetência sobre o desporto, iriam oferecer-me aquilo que eles não tinham. Um par de botas e equipamento completo, quando na realidade eu tinha esse material como oferta para eles como um gesto de carinho de um homem do desporto para com essa população. Mas nem por isso vamos começar a trazer conotações por causa disso. Apenas para dizer mais uma vez que estou tranquilo. O Que me parece é que se começa a buscar argumentações, justificações para transformar esse processo num processo de antagonismo e fundamentalmente criar fantasmas ali onde ele não existe.

JD: O candidato Pedro Neto está em condições de trazer melhorias para o futebol angolano, caso seja eleito presidente da FAF?
GPN: Não gosto de falar na primeira pessoa do singular. Gosto de falar em projectos, em estruturas, em órgãos, e penso acima de tudo que a melhoria do futebol não tem nenhum salvador da pátria. A melhoria do futebol tem que ser um problema conjuntural que congregue todas as estruturas que possam trazer mais-valia para o futebol, isto é, o envolvimento do nosso governo, do sector público do nosso país, do sector privado, dos agentes desportivos, sejam eles praticantes ou não, quer dizer, todos seremos poucos para melhorar o futebol. Agora, eu me reservo à tarefa de coordenação, se eu for eleito, compete à Federação Angolana de Futebol ter capacidade para coordenar todas essas vontades, criar sinergias e acima de tudo ter a capacidade de implementar programas que possam trazer essas mais-valia e o melhoramento do nosso futebol que, como todos nós sabemos, atravessa um mau momento.

JD: Existe algum projecto de apoio financeiro para os clubes no vosso programa?
GPN: Creio que o apoio financeiro aos clubes não pode ser entendido como uma tarefa específica da FAF. A federação eventualmente tem um orçamento, e tem programas de apoio a acções que possam ser desenvolvidas por clubes ou pelas associações. O meu entendimento de FAF não é dividir o bolo com os clubes. Por mais que isso pareça um tiro no pé em termos eleitoralistas, é dizer que não vamos dar directamente dinheiro aos clubes, temos que entender que a FAF deve apoiar projectos. Imaginemos que um clube nos demonstre que tem capacidade de organização e está a implementar um projecto a nível de camadas jovens, a FAF pode jogar o papel de impulsionador, e até de financiador, buscando mais-valias por ser um órgão coordenador. Agora, difícil será sim, a partir de um determinado “budget” ou orçamento, poder estabelecer-se que cada clube receba um percentual. Há outras formas de se fazer isso. Se evoluirmos para o profissionalismo, o que a nossa lista pretende é que se passe às técnicas modernas de rentabilidade de futebol que é: os clubes profissionalizados devem ter capacidade arrecadar somas com a realização de jogos, a venda de imagens, com propaganda, etc, etc.

JD: Nesse caso, qual é a ideia da vossa lista neste capítulo?

GPN: De acordo com as intenções da nossa lista, o nosso papel seria o de influenciar para que esta rentabilidade possa ser também compartilhada pelos clubes com menos capacidade, pois assim, haverá um crescimento harmonioso do nosso futebol, uma vez que os clubes com menos capacidade, que se encontram nas províncias longínquas do centro das decisões que é Luanda, poderão beneficiar da profissionalização do futebol, recebendo também apoios que venham desse mesmo projecto. Na minha opinião asseguro que projectos sim, mas esmolas não.

Mudar a
face do futebol

Perfil

Nome: Pedro de Morais Neto
Data de nascimento: 15 de Junho de 1952
Naturalidade:Gabela, Kuanza Sul
Hobby: Praticar futebol e leitura
Habilitações académicas: Curso superior de História
Clube: 1º de Agosto
Calçado: 39
Vestuário: Simples
Cor preferida: Azul-marinho