Jornal dos Desportos

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Entrevistas

No temos ambies de conquista de medalhas

Hlder Jeremias - 21 de Outubro, 2011

Antnio Monteiro presidente da Federao Angolana de natao

Fotografia: Jos Soares

Estamos a pouco menos de um ano do início dos Jogos Olímpicos de Londres’2012. Como está a preparação administrativa e técnica?
Com base na experiência obtida nas anteriores edições em que estivemos presentes, começámos a preparar-nos com dois anos de antecedência. Daí que temos quase tudo delineado e esperamos apenas a qualificação dos restantes atletas para concluirmos o processo administrativo, na medida em que há uma série de tramitações que somos obrigados a cumprir para podermos estar no Jogos Olímpicos de forma tranquila, cumprindo todas as obrigações do Comité Olímpico Angolano. As imposições do Comité Olímpico Internacional são rígidas, porque os Jogos Olímpicos são o topo de qualquer competição desportiva. Devo dizer que são 28 modalidades; estamos a falar de 28 Campeonatos do Mundo que acontecem, em simultâneo, na mesma cidade, no mesmo local. Por isso, há uma série de regras que o Comité Olímpico Angolano precisa de cumprir.

Como vê a presença de Angola no evento, uma vez que os números apontam para um défice em relação ao que se pretendia em termos de modalidades?
Quando partimos para os Jogos Olímpicos, sabemos que, no que diz respeito à participação de atletas angolanos, não temos ambições em relação à conquista de medalhas. Conhecemos a nossa realidade desportiva, assim como a realidade desportiva mundial, e percebe-se que não é possível, no estágio actual do desenvolvimento do nosso desporto, em nenhuma modalidade, disputar qualquer medalha nos Jogos Olímpicos.

Quer dizer com isso que vamos apenas marcar presença?
Sendo uma competição de topo, é reservada aos melhores atletas. São poucos os atletas que durante a sua carreira têm a felicidade de estar presentes nos Jogos Olímpicos. Portanto, o maior prémio para os atletas, em primeiro lugar, é conseguir o apuramento aos Jogos Olímpicos. Somos um país pequeno, com fracos investimentos no desporto, quer em termos infra-estruturais quer financeiros e humanos. Diria que somos o David ao pé de Golias. Neste caso, refiro-me a Golias como as grandes potências mundiais.

Será que estamos muitos furos abaixo em relação aos países que refere?
No desporto, países como a China, Austrália, Rússia e Estados Unidos investem muito, têm delegações com cerca de 800 atletas todas as vezes que participam nos Jogos Olímpicos. Países como o nosso, que têm dificuldades em ter normalmente 20 atletas - e só o conseguimos porque qualificamos as modalidades colectivas, no caso o basquetebol, que em 2012 se faz representar pelo género feminino - não vão longe. Temos a perspectiva de nos qualificar pelo andebol feminino. Portanto, vamos ter, uma vez mais, uma delegação na ordem dos 30 atletas, à semelhança do que aconteceu em Beijing’2008. Mas, como dizia, não temos a ambição de conquistar medalhas. Vamos procurar fazer a nossa melhor participação, procurando, nas modalidades colectivas, equilibrar os jogos e, obviamente, aproveitar os resultados diante das equipas que estão mais ao nosso alcance. Haverá aquelas mais fáceis de jogar, assim como as mais difíceis.

Em Beijing, Angola perdeu todos os jogos...
Sim. Angola não venceu qualquer jogo, tanto no basquetebol masculino como no andebol feminino, apenas empatou no andebol, isto é, no último jogo. Nas modalidades individuais, os atletas participam na fase de qualificação e são eliminados. A excepção foi do atleta de canoagem Fortunato Pacavira, que se apurou para as meias-finais e depois foi eliminado.

O facto de Angola representar uma das potências do desporto africano não é motivo para se impor no continente?
Nas modalidades colectivas só está presente um representante do continente africano. A África é o maior continente em termos de países (tem 54), mas só qualifica uma equipa para os Jogos Olímpicos, quer seja no basquetebol ou andebol, masculino ou feminino. Portanto, a representação do continente fica assegurada por aquela equipa que venceu o Campeonato Africano. E o representante africano não tem a menor oportunidade de disputar as medalhas com os “tubarões” do desporto mundial. Muitos deles investem no desporto quantias superiores ao PIB de vários países africanos, o que representa um sinal claro de que estamos a uma distância muito grande. Paulatinamente, estamos a subir os nossos degraus e vamos procurar encurtar a distância que nos separa, que já foi maior. Se a gente reparar, desde a nossa primeira participação, a distância continua grande, mas não tanto como antes.

Referiu-se ao número reduzido de representantes do continente africano. Isso é um acto de discriminação a África?
Se analisarmos a coisa por este prisma, podemos dizer que sim, mas o Comité Olímpico Internacional prima pela competitividade dos atletas. Não somos os únicos. Temos a Ásia, por exemplo, que se faz representar também por um, a Oceania por outro e, depois, aqueles países europeus com o desporto mais desenvolvido e com mais atletas em competição, à semelhança do continente americano. A América do Sul e a América do Norte fazem-se representar por duas selecções cada uma.

Com tantos atletas existentes, porquê tanta rigidez?
Sendo 28 Campeonatos do Mundo, não há lugar para todos na Vila Olímpica. O número de atletas apurados para os Jogos Olímpicos tem vindo a crescer. Para que o número não seja insustentável aos países organizadores, o Comité Olímpico Internacional impõe restrições cada vez mais rígidas para a qualificação dos atletas. Por isso, muitos atletas fazem uma carreira desportiva, mas não conseguem apurar-se para os Jogos Olímpicos. Perguntem aos nossos jogadores de futebol que já se conseguiram apurar para o Campeonato Mundial, mas até hoje não conseguem apuramento aos Jogos Olímpicos e já vamos com 36 anos de independência. Portanto, havendo esta dificuldade na qualificação dos atletas, é preciso que sejamos melhores, é necessário que a África cresça em termos desportivos para que, ao invés de uma selecção, passamos a ter duas e quem sabe três em qualquer modalidade desportiva colectiva, o que não acontece neste momento.

“Temos um orçamento provisional”

Tem meios para que os atletas possam estar na competição nas condições desejada, uma vez que Londres é uma cidade muito cara e com alto nível de vida?
Estamos a preparar estes jogos há dois anos e temos um orçamento provisional elaborado, entregue ao Estado e pedimos, de facto, que este orçamento fosse disponibilizado à medida que o tempo decorra para que não recebêssemos o total do orçamento nas vésperas da competição, como tem sido apanágio, para que pudéssemos fazer uma preparação tranquila, sem sobressaltos e com enorme qualidade. O dinheiro recebido e gasto de forma atempada tem mais valor. A título de exemplo, se comprarmos hoje um bilhete de passagem para ser usado daqui a três ou quatro meses, tem um custo, ao passo que se o fizermos na semana anterior a data da viagem, tem um custo mais elevado. Portanto, torna-se necessário que a gente perceba esta forma de utilização dos recursos financeiros para que possamos participar nos Jogos Olímpicos sem problemas. Temos o orçamento feito e entregue ao Governo há um ano e oito meses. Porém, não temos ainda a totalidades dos atletas qualificados, porque o período de qualificação está em aberto.

Quer dizer que é possível a integração de atletas de voleibol de praia, atletismo, canoagem, natação, judo, boxe, taekwan-do. Tudo está em aberto, o que quer dizer que podem ou não se qualificar, contrariamente ao basquetebol masculino e feminino que já se sabe quem vai representar o continente e daí não vem mais ninguém. O futebol, infelizmente, mais uma vez não estará presente. Vamos ter o Campeonato Africano de Andebol feminino e masculino que vai apurar os dois representantes do continente. Esperamos estar, pelo menos, com a nossa equipa feminina e, oxalá, os masculinos nos façam uma surpresa e também consigam apurar-se. Seria inédito e bom para o país. Vamos ver como as coisas correm.

Uma vez que ainda não estão todos apurados, o orçamento não peca por excesso ou defeito?
Há uma série de tramitação que somos obrigados a cumprir; há uma pré-inscrição que deve ser elaborada; existem nomes que devem ser avançados ao Comité Olímpico Internacional. Por isso, tivemos de fazer o papel de seleccionadores e adiantar um número de atletas do basquetebol feminino e do andebol, porque para o Comité Olímpico Internacional é mais fácil depois retirar do que colocar. A dinâmica das inscrições está de tal forma montada que fica mais fácil dizer, por exemplo, que já não vai o Manuel, mas vai o Joaquim. O Pedro vai no lugar do António, mas dentro de nomes que estejam naquela base que indicamos previamente. Obviamente que, se a gente falhou e não indicou um ou outro nome, vão considerar isto.

Há uma fase da acreditação destinada aos países que se esqueceram de indicar determinado atleta e este acabou de se apurar. Temos um período muito curto para indicar estes atletas. Mas a base dos atletas prováveis foi enviada. Eu, por exemplo, como presidente da Federação Angolana de Natação, mandei oito dos meus melhores atletas. Portanto, será pouco provável que o décimo ou décimo primeiro se qualifique, se alguém se qualificar será entre aqueles oito e assim não teremos qualquer problema quanto à inscrição.

Quanto à emissão dos vistos, existem garantias da Embaixada do Reino Unido em tornar célere o processo?
De facto. Já fizemos o nosso trabalho de casa. A nossa experiência obrigou-nos a isso. Apercebemo-nos de que nas edições anteriores houve grandes dificuldades na obtenção de vistos, vamos para Londres onde as dificuldades em relação a esta matéria são multiplicadas por 10. Neste momento, os requisitos para a obtenção de vistos para a Inglaterra são terríveis e marcámos, há seis meses, uma reunião com o embaixador da Grã Bretanha em Angola, na qual abordámos não só a questão do Comité Olímpico, mas também do Comité Paralímpico. Ficou estabelecido que vai ser o Comité Olímpico a liderar todo este processo, porque o embaixador manifestou a preocupação quanto à existência de pessoas que queiram aproveitar-se deste evento para obterem vistos e emigrarem para lá. Por isso, quer os atletas, quer os dirigentes, para obterem os vistos, devem depender do COA.

Angola tem plano B

A conjuntura actual é marcada pela crise financeira mundial. Na eventualidade de alguma alteração no sistema económico, como pode funcionar o orçamento feito com dois anos de antecedência?
Por hábito, de ordem profissional, sempre procurei trabalhar com um plano B; um “back up”, de formas que, caso haja uma eventualidade, vamos actuar com este plano. Somos optimistas de que as coisas vão correr com toda a normalidade e que possamos fazer excelente participação, não obstante sabermos que as grandes mutações do sistema económico, em qualquer que seja a latitude, acabam por afectar todos os países e não escapamos a realidade.

Há um programa para publicitar a imagem do país nesta competição?
Os Jogos Olímpicos regem-se por regras muito severas, tanto que os direitos de publicidade são todos do Comité Olímpico Internacional. Por isso, não podemos passar qualquer imagem no equipamento a não ser a marca do fabricante e da própria organização, tanto que os tamanhos das letras e dos números obedecem um padrão próprio, principalmente, nos equipamentos de competição. Talvez naquele equipamento que os atletas usam na Vila Olímpica, possamos fazer passar algumas referências particulares de Angola. Quanto à publicitação da nossa participação, vamos esperar que o resto de atletas se qualifique para que arranquemos com o nosso programo que já está definido.

Tiro sem espaço em Londres

Angola esteve representada através da modalidade do tiro em Atenas e Sidney e obteve a medalha de ouro nos Jogos Africanos de Argel. Este ano, o país viu-se impedido de disputar o Campeonato Africano por questões alheias à vontade da delegação, além de não ter feito parte nos Jogos Africanos de Maputo. Não deveria o Comité Olímpico Internacional rever esta situação, já que o país não teve culpa nisso tudo?
As regras de qualificação aos Jogos Olímpicos são específicas, claras e todo o mundo conhece à partida, com que linhas se cozem. O tiro não esteve em Beijing, mas em Atenas (Grécia) e em Sidney (Austrália), porque se qualificou. Este ano, o apuramento foi feito, salve o erro, em Abril ou Maio. A nossa selecção não se fez presente na competição e, por via disso, não pode estar presente por direito próprio nos Jogos Olímpicos. Há uma competição específica para todos os países que buscam uma vaga, à semelhança do Afrobasket que apura o campeão. O mesmo acontece com o tiro, mas não estivemos presentes, infelizmente, nesta competição. E mesmo que o tiro fizesse parte do leque de modalidades disputadas em Maputo, aquela competição não daria qualificação para o Jogos Olímpicos. Portanto, nesta altura só haverá uma hipótese para os nossos atiradores estarem presentes, que seria através de um convite que deverá ser feito pela Federação Internacional de Tiro.

Quais são os requisitos para que este convite seja endereçado?
Se a Federação Internacional de Tiro (ISSF) compreender as razões pelas quais Angola não se fez presente no torneio de apuramento, se for ao historial de Angola e compreender que o país marca presença de forma regular nos jogos, pode ser que, extraordinariamente, decida emitir um convite para um ou dois atiradores angolanos. Mas isto é algo que, primeiro, deve ser solicitado e bem argumentado, quer para a Federação Internacional de Tiro quer ao Comité Olímpico Internacional, e depois da avaliação feita por estas duas instituições podemos ou não ser convidados. Acho muito difícil.

O porta-bandeira de Angola já este definido?
Não. Estamos à espera que os demais atletas se qualifiquem como são os casos de andebol feminino e masculino, natação, judo, taekwan-dó. Não seria justo indicarmos o porta-bandeiras. Além disso, existe uma série de procedimentos que vamos actuar somente na altura certa. No entanto, esta questão vai ser resolvida com muita facilidade.

Nome: António Monteiro “Bambino”
Naturalidade: Luanda
Data de nascimento: 21 de Janeiro de 1961
Estado civil: solteiro
Filhos: 3
Hobby: Cantar
Prato preferido: Feijão de óleo de palma com peixe gralhado
Nível acadêmico: Licenciado em Ciências Químicas
Cor preferida: vermelha
Música: qualquer, desde que seja boa
Religião: não tem