Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Nelson Costa acredita que Angola pode realizar o Mundial com xito

Hlder Jeremias - 22 de Abril, 2013

Nelson Costa destaca cariz internacional da taa

Fotografia: Jos Cola

Estamos a pouco mais de quatro meses da disputa da 41ª edição do Campeonato do Mundo que Angola vai organizar. Depois de tantos anos nas lides da modalidade, que significado tem isto para si?
“Antes de tudo o mais representa a capacidade de um país africano poder realizar um Campeonato do Mundo, em particular o hóquei em patins, modalidade pouco praticada em África, mas que, a nível mundial, tem um grande esplendor. O segundo aspecto tem a ver com o facto de espelhar a funcionalidade e capacidade do nosso trabalho de formação e também o grau do palmarés alcançado, com o ingente esforço dos dirigentes desportivos e atletas, ao passo que o terceiro aspecto reside na oportunidade de poder brindar este povo, depois de vários anos sacrificado pelas consequências do conflito armado, com algo de bom, palpável e que vislumbre um novo horizonte sobre os benefícios resultantes do desporto e do hóquei em patins.”


Para si qual é o grande ganho que Angola pode ter em termos práticos?

“O grande ganho que se pode considerar é mostrar a capacidade do povo angolano em organizar um evento de tal magnitude, coisa que não acontece com normalidade no continente africano, onde são realizadas várias actividades internacionais, mas não à escala mundial. Com excepção da África do Sul, que acolheu o primeiro Mundial de Futebol, não temos visto outros campeonatos do mundo de grande impacto, tirando a canoagem. O Mundial de Hóquei, com a situação inédita de ser albergado em duas cidades, é algo de extraordinário, quanto mais num país africano. Angola demonstra a sua afirmação e importância perante o Mundo, numa evidente prova de que, em poucos anos de Paz, conseguiu reerguer-se dos escombros com firmeza e esmero no trabalho.”


Na sua óptica, quais foram os factores que mais influenciaram a entrega da organização do mundial a Angola?
“Primeiro que tudo, posso dizer que os torneios “José Eduardo dos Santos” tiveram cariz internacional. De forma lógica, a mensagem é passada ao órgão federativo internacional, tendo ele tirado as melhores ilações quanto à capacidade da organização. Acredito que também tenha pesado na balança a capacidade de organização demonstrada por Angola no primeiro Campeonato do Mundo de clubes, realizado em Luanda e, também, as excelentes demonstrações que o país tem dado fora nos vários sistemas organizativos, pautados pelas respectivas delegações, incluindo o poder financeiro, como é óbvio.”

Tudo isso pesou?
“São factores que, sem margem para dúvidas, pesaram nos créditos do órgão reitor para que chegasse à conclusão de que Angola tinha, de facto, os atributos humanos e materiais para merecer a confiança de ser o primeiro país do continente africano a organizar a maior festa do hóquei em patins à escala planetária.”


Como é que justifica o paradoxo de haver poucos praticantes mas boas representações internacionais?
“Na verdade, houve uma altura em que os campeonatos nacionais eram disputados, na maioria, entre as equipas de Luanda, com excepção da Casa do Pessoal do Lobito ou o União da Catumbela, no intuito de fazer animação ou dar um cariz mais nacional. Hoje, a realidade é diferente. Há mais províncias a participar, isto para dizer que temos o Namibe, o Lubango, Benguela, Malange, o Bié, que, como se diz na gíria, voltou a ‘rebentar’, o Sumbe também está numa fase inicial da sua massificação. Estes exemplos servem para ilustrar bem como a modalidade está a expandir-se.”


Até que cheguem ao nível de alta competição leva ainda muito tempo...
“Só para ser mais claro, o penúltimo e antepenúltimos campeonatos juvenis foram ganhos por uma equipa do Namibe. Isto é uma prova evidente de que existe uma dinamização de grande impacto pelo país fora, e que estamos todos de acordo que, a médio prazo, muito mais frutos vão ser colhidos desse trabalho. Devemos atender ao facto de que as infra-estruturas em construção, no âmbito do Mundial em Luanda, Namibe e Malange, que vai ser palco da Taça José Eduardo dos Santos, em Agosto próximo, representam garantias para, doravante, a formação de atletas ser mais consolidada. Teremos atletas dotados de grande capacidade técnica.”


Que avaliação faz do nível de hóquei praticado hoje pelos nossos atletas, em comparação com o tempo em que dirigiu a selecção nacional e o Petro de Luanda?
“Na actualidade dispomos de um bom leque de jogadores a competir em equipas de referência fora do país, muitos dos quais em Portugal, Espanha e Itália, como é o caso particular de João Pinto, numa altura em que temos outros jogadores dotados de grande nível, aqui na competição nacional. Esta rotatividade que eles ganham a jogar com equipas lá de fora dá-nos maior traquejo, permite estar mais à vontade dentro de campo, algo que é sempre vantajoso porque, a nível interno, não temos equipas que realizem, com regularidade, jogos no exterior para maior contacto internacional. Neste caso, recorremos, com frequência, aos serviços destes, sem descurar aqueles que, apesar de competirem no país, demonstram grande capacidade. Em suma, o hóquei está melhor servido, mas, tal como eu disse, o projecto de massificação em curso vai trazer melhorias significativas num futuro muito próximo.”


NO MUNDIAL
“Vai ser uma grande satisfação a melhoria da classificação”


Acredita que a jogar na qualidade de anfitriã Angola alcance os lugares cimeiros?
“Em linhas gerais, posso dizer que o hóquei praticado pela nossa equipa está em contínua evolução. A equipa nacional está boa e tem um técnico que conhece muito bem os rapazes. Pessoalmente, conheço bem o treinador Orlando Graça que, por coincidência, foi meu atleta. Sempre se pautou pela dedicação. Outro elemento a ter em conta é o facto de conhecer bem os seus atletas, com os quais não tem muita diferença de idade, o que, em certa medida, permite inteirar-se dos problemas pessoais de modo a superar qualquer obstáculo do ponto de vista psicológico. Contudo, será uma grande satisfação superar a última classificação de Angola, que foi o 12º lugar.”


Quais são as hipóteses de Angola, num futuro próximo?
“No Campeonato Mundial de 2002, em Barcelona, Angola foi eliminada logo na primeira fase, facto que suscitou alguns comentários que davam conta da inexistência de um objectivo concreto. Naquela altura, não havia a responsabilidade da própria federação em incutir na mente das pessoas os objectivos que se perseguiam com a presença em determinada competição. Actualmente, a federação tem sido mais incisiva na melhoria das nossas classificações, mostrando que o hóquei angolano tem hipóteses e boa probabilidade de, num futuro não muito distante, começar a ombrear um pouco mais com as grandes potências. Temos de ter em conta que o trabalho de formação que está a ser feito vai possibilitar-nos ter bons atletas e, caso consigamos mete-los lá fora, melhor ainda”.


“Federação tem elenco coeso e disciplinado”

Como vê o desempenho da actual direcção?
“É um elenco muito coeso e disciplinado, composto por pessoas que entendem da matéria e que vivem o hóquei em patins. O presidente Alberto Jaime “Calabeto” merece o carinho de todos quanto se revêem na modalidade, por ser uma pessoa competente e que gosta do desporto, pois os resultados melhoraram, em grande medida, em função da boa postura dos órgãos de decisão, o que nos permite acreditar que a pretensão do treinador em melhorar o 12º lugar vai ser concretizada. Contudo, não podemos esquecer-nos do sexto jogador que é o público, envolvendo todos os intervenientes desta empreitada, que são equipa técnica, distintos membros da federação e o próprio executivo, que criou as condições para que Angola se tornasse no primeiro país africano a assumir a responsabilidade de acolher o Mundial.”


Devido aos seus pergaminhos no hóquei nacional, tem sido abordado pelo comité organizador para dar a sua contribuição no contexto da organização?
“Por enquanto, ainda não me foi formulada qualquer proposta de colaboração por parte da organização, mas presumo que, uma vez ser apanágio da federação procurar aproveitar todos os elementos do hóquei em patins, no sentido de obter as suas contribuições, primeiro neste campeonato mundial e, segundo, nas demais questões ligadas à modalidade, espero que, a qualquer momento, isso venha a acontecer. Mantive contactos com pessoas que nada têm a ver com o comité organizador, ligadas à imprensa e a outras entidades afins, com as quais afloramos temas pertinentes que eu, enquanto homem do hóquei, sempre procurei ajudar com o meu saber.”


INDICAÇÃO
“Preferia Luanda e Lobito
como sedes do campeonato”


Considera a escolha da cidade do Namibe, além de Luanda, como sedes do Mundial, a mais acertada?
“Primeiro tinha de ser Luanda, como é lógico, por ser a capital do hóquei em Angola, mas não podemos esquecer-nos de Benguela, pois foi a província que durante estes anos todos se aguentou e nunca desistiu, representada pela cidade portuária do Lobito, dando sempre o seu contributo aos campeonatos nacionais. A província do Namibe também teve sempre uma palavra a dizer no capítulo da massificação, até porque obteve dois títulos a nível do escalão de juvenis. Como não podem ser todas contempladas, em minha opinião, a segunda escolha devia ser o Lobito, mas o comité organizador teve critérios para a opção, os quais são mais sigilosos e não posso cingir-me a isso. Estou em crer que tanto o Lobito como o Namibe ficavam bem entregues e só resta dar parabéns ao Namibe por ser a eleita.”

A magnitude das obras que estão a ser erguidas corresponde à expectativa que se criou em torno do desafio?
“Na verdade, ainda não consegui ver as obras de perto, pois não tive oportunidade de me deslocar ao Namibe, mas, pelas conversas mantidas com pessoas que já o fizeram e as informações que a comunicação social tem veiculado, tudo leva a crer que as coisas decorrem a preceito, o que permite augurar o sucesso da organização.”

JOGADORES
“Na selecção devem estar os melhores”


O facto dos atletas da selecção nacional jogarem, na sua maioria, no estrangeiro, não é um contraste entre o trabalho que se faz no país e aquilo que representa o palmarés do hóquei?
“É relativo, porque primeiro temos de organizar a nossa competição interna. Apesar de ter algum cariz competitivo e de regularidade, falta uma certa ‘pimenta’ para que as competições sejam efectivas e com épocas mais longas. A maior parte dos atletas que estão lá fora jogaram antes aqui. São os casos de Kirro, Mário e Big. São todos jovens que saíram daqui e que estão a fazer parte da espinha dorsal da nossa selecção. O mesmo sucede noutras modalidades, quer a nível do futebol, basquetebol, onde se vai buscar os jogadores que estejam em melhor forma e que garantam a concretização dos objectivos, estejam eles a jogar fora ou dentro do país. Se fosse só para ir ganhar experiência, qualquer atleta estaria apto, o que não é o caso de Angola, já que tem metas a cumprir.”

Significa que na selecção devem estar os melhores?
“Sempre tratei desta questão com alguma delicadeza, mas a nossa realidade é essa. A selecção é para os melhores atletas desde que sejam angolanos, dentro ou fora do país”.


 Acha que existem assimetrias nas condições de trabalho em relação ao tempo em que esteve à frente dos destinos da selecção?
“Há muitas diferenças. Tivemos diversos índices, altos e baixos, a nível das nossas selecções, tanto no capítulo competitivo, como no organizativo, nos próprios apoios que as equipas recebiam, entre outras situações. Na altura em que tínhamos dois grupos (A e B), parecia que Angola ia competir no grupo A ciente de que iria para perder e, consequentemente, baixar de divisão, para no ano seguinte competir no grupo B, no qual fazia boa prestação e voltava a subir para no ano seguinte competir novamente no grupo A, ou seja, viajar todos os anos. Até que Angola se afirmou e manteve-se na primeira divisão onde se encontra até hoje.”


Tendo em conta o pouco tempo que resta para a prova, acha que se está a fazer um bom trabalho em termos de divulgação e propaganda?
“Acho que sim. Na qualidade de homem do hóquei em patins fico feliz porque é difícil passar um período do dia sem se ouvir falar sobre o assunto. Se não são pessoas que me abordam sobre aspectos pontuais, a comunicação social tem sempre em dia todos os acontecimentos em torno do trabalho que se faz rumo à consumação do evento. Aqui, quero aproveitar para felicitar os profissionais da imprensa, tanto escrita, como televisiva ou radiofónica, pelo excelente trabalho. Outro facto que me despertou a atenção é a publicidade no aeroporto internacional e nos Multicaixas. Mas era necessário aumentar o número de outdoors pela cidade, algo que acredito que vai ser feito, com outras acções que a organização tem em agenda.”