Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"No podemos atirar a bandeira ao cho"

Rosa Panzo - 24 de Junho, 2019

Mrio Fernandes evoca mais patriotismo aos atletas demissionrios da seleco

Fotografia: Edies Novembro

O pedido de demissão de três atletas da selecção nacional não belisca os objectivos da Federação nas provas internacionais que se avizinham?
A presença do atleta nas selecções nacionais não é obrigatória. É algo voluntário. As pessoais são convocadas de acordo com o mérito e a estratégica da Federação por via do Conselho Técnico. Se alguns se afastam da Federação, não podemos obrigá-los a ficar. O campeonato do mundo abre a porta para ir ao Jogos Olímpicos. É uma porta alternativa.

Que critérios o atleta deve seguir para alcançar a porta alternativa?

Um nadador para ir aoS Jogos Olímpicos tem de obter os tempos mínimos da categoria \"A\". A qualificação é directa e não fica dependente da Federação. Por outro lado, há um conjunto de nadadores, chamados de \"esperanças\" da modalidade, que se qualificam para os Jogos Olímpicos por via de um convite (will card) da Solidariedade Olímpica.

Quais são os critérios da FAN para o atleta beneficiar do convite?

Esses nadadores foram estabelecidos pela Federação Internacional de Natação (FINA). Estão cadastrados e assim se evitam que sejam substituídos por nadadores desconhecidos nos Jogos Olímpicos. Por outro lado, se evitam algumas situações constrangedoras. O que torna mais apreciável a esses nadadores é a participação obrigatória no próximo campeonato mundial por não disporem de níveis competitivos para atingirem os mínimos olímpicos. A decisão da FINA visa potenciar os atletas de países como o nosso que vão aos campeonatos de mundo e aos Jogos Olímpicos mais para participar por falta de hipóteses de obter medalhas. A estratégia é dar a oportunidade às novas estrelas em ascensão nas selecções de juniores para sucederem às estrelas em fim de carreira.

Esse é o caso dos quatro atletas eleitos para a selecção nacional?

Sim. É o caso do Daniel Francisco (campeão nacional), Salvador Gordo (referência nos campeonatos africanos de juniores pela conquista de medalha aos 16 anos de idade), Lia Lima, que dispensa apresentações e vencedora de Globo de Ouro do Desporto, e Catarina Sousa (medalha de ouro no Africano da Juventude). Estamos a levar a elite da natação angolana. Só temos quatro lugares e preenchemo-los com eles.

Assim sendo, não havia hipóteses de os veteranos serem chamados?
Devemos entender o seguinte. Uma coisa é levar os mais famosos e outra coisa é levar os que estão no topo. Foram seleccionados os que estão no topo. Se nos perguntar qual é a nadadora em destaque em Angola actualmente, a resposta é imediata: Lia Lima. Conquistou sete medalhas de ouro no zonal e tem a medalha do concurso de Globo de Ouro. Estamos a seguir o percurso dela. O mesmo digo da Catarina, Daniel e Salvador Gordo. Estamos a recompensar aqueles que actualmente dão cartas. Alguns só querem ir ao Mundial e aos Jogos Olímpicos, mas não estão disponíveis para nadar em África.

Existe alguma orientação da Confederação Africana para a constituição das selecções?

A orientação da Confederação Africana cinge-se, sobretudo, na promoção de atletas que se mostram disponíveis para nadar nos campeonatos africanos e zonais em África. Os atletas, que pediram a demissão, alguns deles, não se mostravam mais disponíveis para nadar em África. Entendemos as razões. Não é uma questão obrigatória. É voluntária.

O que a Federação tem a dizer sobre o descontentamento de Pedro Pinotes?
Em relação ao Pedro Pinotes, inscrevemo-lo na natação em Águas Abertas. Nos históricos da natação nacional, Pinotes sempre foi o melhor fundista. No último Mundial, em Budapeste, convidámo-lo e a Federação assumiu os custos todos. E fez uma boa prestação. Recentemente, estava inscrito para ir ao Sal, em Cabo Verde, para nadar em Águas Abertas. Não é normal, no mesmo Mundial, o atleta participar da prova de maratona e depois nadar em piscina. Fizemos essa estratégica para garantir aos mais novos competirem na piscina e Pinotes em Águas Abertas no Mundial. Infelizmente, o atleta não aceitou isso. O mais agravante é que faltou à prova do Sal, onde tinha as fortes hipóteses de conseguir a medalha de ouro. Foi aí, onde testamos o patriotismo do atleta.

REACÇÃO DO PRESIDENTE DA FAN
“Não podemos atirar a bandeira ao chão”


Pedro Pinotes falhou à prova do Sal, Cabo Verde, depois da FAN custear todas as despesas de representação do país. O atleta recusou vestir a bandeira de Angola no evento por não constar do grupo para o Mundial. Face à posição, a FAN promete tomar medidas \"pesadas\" contra aqueles que fogem levar as cores da bandeira de Angola nas provas africanas. O atleta reprovou nos testes feitos pela FAN.

Qual é a posição da Federação sobre os atletas demissionários?
Este assunto vai ser tratado com rigor dentro do Conselho da Federação. É lógico que quem renuncia já não faz parte da selecção. À quem falta às provas, como é o caso de Pedro Pinotes, a Federação vai pôr a mão pesada. Mesmo com as dificuldades financeiras, o Comité Olímpico Angolano pediu à Federação que pagasse o bilhete dele e as outras despesas. Perdemos o dinheiro numa situação em que o país ainda vive da crise financeira e económica. O atleta não foi participar da prova do Sal, porque ficou zangado por não ir ao Mundial da Coreia do Sul. A Ana Nóbrega e Pedro Pinotes já foram a vários Mundiais, agora, chegou o momento de definir as outras estratégicas. No futebol, o Akwá teve o seu momento e terminou. A FAF teve de definir outras estratégicas. É assim em todas as modalidade. No andebol, algumas senhoras já tiveram o seu momento, mas terminaram. Hoje, estão outras a brilhar.

Quais são os critérios para que os atletas tenham acesso às bolsas olímpicas?
Um dos primeiros critérios é atingir um determinado nível competitivo. O outro critério, o do COA e da FINA, são as idades. O COA não dá bolsas a atletas abaixo dos 25 anos. Acima dos 25 anos, o atleta tem de conquistar pelos seus próprios meios ou seja atingir os mínimos A. O Pedro Pinotes teve direito a bolsas para ir aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro\'2016. A Federação apoiou-o com tudo. Agora, já não é elegível.

Entendemos que o principal critério é o factor idade...
Não podemos apoiar quem está próximo dos 30 anos e deixar de fora quem está com os 17 anos e dentro de todos os critérios. Exigimos uma coisa que temos de levar em conta. Temos uma pátria. Se somos chamados para a representar, não podemos atirar a bandeira ao chão, não podemos dizer que só estamos disponíveis para vestir o fato nacional para a competição X e as outras não.

EXCLUSÃO DA SELECÇÃO

Baixo rendimento retira Everdosa da lista

O atleta residente na África do Sul teve um resultado aquém do esperado no Mundial de Budapeste por atravessar momentos menos bons no capítulo desportivo. Desde a sua estreia na selecção, recuou cinco lugares no ranking da Federação de Natação da África do Sul.

Quanto ao Mário Everdosa, qual é a posição da vossa instituição?

Estamos a seguir o percurso de Everdosa. É um nadador que nasceu e sempre viveu na África do Sul, mas é filho de pais angolanos. Descobrimos que tem a nacionalidade angolana e o ajudamo-lo a adquirir a documentação toda cá no país. Na África do Sul, estava entre os dez melhores do campeonato local, mas que não tinha lugar na selecção sul-africana. Propusemo-lo a vir nadar pela nacionalidade do seu pai e assim o fez. Pela primeira vez, veio nadar nos Jogos da SADC na piscina do Alvalade e saiu-se muito bem. Foi também no Mundial de Budapeste e esteve bem.

O que se passa de concreto?
O que se passa é o rendimento. Constatámos que baixou de nível de competitividade. Quando entrou para a selecção, estava entre os dez melhores do ranking na África do Sul e, hoje, baixou para 15º lugar. Invés de avançar, notamos que estagnou e baixou.

Foi o motivo para não ser convocado?
Sim. No Mundial, que se avizinha, achamos que não era prioridade. Esteve presente no Mundial de piscina curta realizado em Dezembro. Dêmos várias oportunidades aos atletas e apercebemo-nos que o comportamento desse grupo de nadadores está relacionado com o amor à pátria e à bandeira. Fomos desportistas e havia anos em que não constámos de convocatórias. Estamos aqui e não renunciamos a bandeira do nosso país.

Que razões causaram o pedido de demissão de Ana Nóbrega?

Neste momento, Ana Nobre não está em condições de ir ao Mundial. Temos duas nadadores menores (Lia e Catarina) com melhores tempos em relação à ela. No ano passado, tivemos o Campeonato Africano e quando a convocámos, disse-nos que não estava disponível por razões laborais. Entendemos a explicação. Para a Federação, o Africano é a nossa principal prova, na qual os nossos atletas têm fortes hipóteses de ir às finais e conquistar medalhas diante de nossos adversários directos. O Mundial ou os Jogos Olímpicos são provas secundárias na definição de objectivos.

Estava dentro da estratégica da FAN fazê-la constar da convocatória?
Quem não está disponível para ir ao Campeonato Africano também não está para o Mundial, porque são provas seguidas. O Africano realizou-se em 2018 e o Mundial é realizado em 2019. Foi ultrapassada pelas atletas mais novas. Tínhamos o plano de a levar aos Jogos Africanos, nos quais levaríamos uma equipa de estafeta feminina. Essa foi a proposta do Conselho Técnico. Lamentamos o seu abandono da selecção nacional por não ter sido convocada para o Mundial.

MÁRIO EVERDOSA
“A FAN não me deu o direito de mostrar o meu potencial”


O anúncio da convocatória da pré-selecção nacional às vésperas do campeonato da África do Sul prejudicaram o desempenho de Mário Everdosa no evento, por não constar da lista para o campeonato do mundo da Coreia do Sul. O nadador retrata na sua mensagem ao Jornal dos Desportos que \"este tipo de comunicação (da FAN) afecta o estado mental e físico\" do atleta.
\"Senti-me desrespeitado e desvalorizado como atleta. Tenho a absoluta certeza do meu empenho e da minha dedicação. Todas as vezes que pulei do bloco, dei sempre o melhor. Prova disso são os dois novos recordes nacionais sénior e absoluto de Angola que estabeleci nos últimos sete meses. O primeiro foi de 28s89 (contra o anterior de 29s26) na prova de 50m bruços na piscina de 50 metros no campeonato africano absoluto na Argélia. O segundo foi de 29s38 (contra o anterior de 29s40 de Pedro Pinotes) na prova de 50m na piscina de 25 metros no campeonato do mundo de natação em Hangzhou, China\", esclareceu.
Pedro Pinotes esclarece que é \"o atleta angolano com maior pontuação no ranking da FINA com 724 pontos e o segundo melhor, atrás de Pedro Pinotes, no ranking de Angola\". Com esse critério, acredita que o seu nome constaria da lista de pré-convocados para o Mundial.
\"Percebo que a FAN não me deu o direito e nem o tempo de mostrar, num futuro próximo, o meu potencial como atleta e onde poderia chegar. Faço lembrar que estou no terceiro ano da Universidade e nunca parei de treinar. Diante desse cenário, a atitude mais honrosa e digna para mim, como atleta, é pedir o meu descredenciamento da Federação Angolana de Natação\", escreveu.
Mário Everdosa agradece a FAN por ter sido \"acreditado em algum momento\" e sai de \"cabeça erguida\" por ter a certeza do \"dever cumprido\". Doravante vai apostar \"em novos horizontes\" e deseja \"a sorte a FAN e aos atletas seleccionados\". O atleta reitera que não pretende entrar \"em lutas inglórias\", pois sabe \"o valor das instituições; as pessoas passam por elas e permanecem sólidas\".            

PEDRO PINOTES
“Fui excluído sem motivo”

O Nadador Pedro Pinotes, que milita no Sporting de Portugal, apresentou recentemente a carta de demissão à FAN, em vésperas da participação do evento do Sal, onde tentaria obter os mínimos FINA para os Jogos Olímpicos de Tóquio\'2020. Num email enviado ao Jornal dos Desportos apresenta os reais motivos que o levaram a pedir demissão da selecção nacional. Na mensagem esclarece o apreço que tem pelos colegas também demissionários e a exclusão do Mundial.
\"É pela solidariedade que partilho com a postura dele (Mário Everdosa). Lamento profundamente que também a Ana Nóbrega tenha decidido deixar a selecção nacional. O principal motivo, que me fez tomar a decisão dura e difícil para mim, foi a recente convocatória da Federação (FAN) para o campeonato do mundo de piscina longa. Sem qualquer motivo desportivo, fui excluído\", disse.
Pedro Pinotes esclarece que registou os melhores tempos entre os colegas, por isso considera que \"deveria constar da lista para o mundial\" de Julho. O nadador sustenta que \"os casos\" registados na modalidade, como a \"recusa de clubes em participar dos campeonatos nacionais e as supostas interferências na arbitragem\" fizeram com que fosse sua \"responsabilidade deixar de pactuar com quem vem a praticar esses actos\".
\"Como sou uma das principais referências da modalidade e comunico-me regularmente com muita gente, quase semanalmente me chegam histórias e descontentamentos de outros dirigentes, treinadores, pais dos atletas, atletas e ex-atletas com a FAN\", disse.
Pedro Pinotes destrinça as motivações reais que o levaram a pedir a demissão da selecção.
\"Compreendo facilmente que não é uma situação, em particular. O meu apelo é que se avalie e se decida se é com dirigentes com esta postura autoritária, anti-desportiva e, muitas vezes, arrogante que queremos continuar\", disse.
O atleta do Sporting de Portugal realça que \"assim não se potencia os talentos do país e não se regressa à conquista de bons resultados internacionais\".
\"Desde 2015, não alcançámos nenhuma medalha nas principais competições em África\", recordou.
                                                    
NUNO ROLA
“Há uma negligência total”


Nuno Rola, atleta angolano residente em Portugal, lamenta a situação da natação e aponta alguns factores que colocam os atletas descontentes. O nadador aponta a falta de transparência nos critérios de convocação de atletas.
\"São vários os motivos que levaram os melhores atletas do país a abandonar a selecção, enquanto se mantiver a actual direcção da Federação. Há falta de transparência nos processos de selecção de atletas para as competições internacionais; há falta de diálogo com os melhores atletas com vista a programar a época e as competições; há falta de acompanhamento de performances competitivas e reconhecimento do valor e das marcas obtidas; há desprezo das conquistas dos atletas e a publicidade é selectiva\", disse.
Nuno Rola esclarece que desde o ano de 2016 constata-se a \"exclusão dos mundiais com objectivo declarado de os eliminar dos Jogos Olímpicos, embora sejam os melhores atletas angolanos de sempre\".
\"Pedro Pinotes continua a ser o melhor. Bate recordes nacionais absolutos e lidera o ranking nacional com a maior pontuação FINA. Assistimos ao nosso desporto que há uma negligência total\", referiu.