Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Norberto Castro se fssemos corruptos j estariamos no girabola

Paulo Caculo - 14 de Fevereiro, 2012

Dirigente descarta pretenso ao Girabola

Fotografia: Jornal dos Desportos

Norberto de Castro abordou a fracassada tentativa de qualificação ao Girabola deste ano. 
Não conseguimos a qualificação ao Girabola porque não somos corruptos. Se o Clube Norberto de Castro fosse corrupto, estaria a festejar a subida no Girabola. E digo isso porque senti na carne tudo aquilo que se passou com o nosso clube. Sou uma pessoa que prima pela harmonia e desportivismo. Sou formador e não estou ligado a outro tipo de coisas.

Está a querer denunciar algum caso de corrupção na eliminatória?
Quem esteve atento e viu o jogo da primeira-mão, notará que não voltámos a utilizar o mesmo guarda-redes em Benguela. Todos viram o que fizemos, não foi fácil. Não temos dinheiro, temos poucos recursos, pois nenhuma empresa patrocina a nossa instituição. Nós não conseguimos a qualificação, mas demos uma boa lição nos dois jogos que fizemos com o Nacional.

Sente que a equipa Norberto de Castro saiu da eliminatória de cabeça erguida?
Em Benguela demos um espectáculo de futebol e os próprios adeptos do Nacional calaram-se todos e no final apoiaram a nossa equipa, em detrimento da equipa da casa. Isso é sinal de que há trabalho no Norberto de Castro, há qualidade e a prova disso é que este ano temos quatro jogadores no mercado nacional e internacional. Dois vão seguir esta semana para o Brasil e o Jairzinho, meu filho, formado na escola. Vamos continuar com o nosso trabalho.

De que forma pensam atacar as competições jovens da época?
A equipa de juniores fará o provincial de juniores e de seniores. A equipa que está na Segundona não jogará no provincial de seniores, apenas fará jogos amigáveis, porque queremos dar maior competitividade aos juniores.

A subida ao Girabola ainda representa um sonho?
Não temos objectivo de subir ao Girabola, nunca tivemos. Se assim fosse, iríamos. Não é esta a nossa pretensão. Não temos objectivo de chegar à primeira divisão, porque estamos virados para a formação. Estamos hoje com uma equipa de seniores, porque fomos obrigados a ser clube, mas internamente funcionamos como uma escola de formação. Já ganhámos campeonatos provinciais de juniores, mas nunca nos deixaram ir ao campeonato nacional, em virtude de se tratar de uma escola.

A mudança de estatutos facilitou a presença da equipa na Segundona?
Tivemos que alterar os estatutos e hoje somos o Clube Desportivo e Escolar Norberto de Castro, isso para facilitar a presença da equipa no campeonato nacional. Mas, ainda assim, estamos mais virados para a formação e não demos muita importância ao campeonato nacional de juniores.

Porquê?
Há muita turbulência nessa prova e a forma como é disputada não nos interessa. O importante para nós é colocar os jovens a fazer jogos com os seniores, para quando atingirem este escalão se apresentarem mais maduros.

“Não há progresso no nosso futebol”

Acha que o Estado deve prestar maior atenção ao futebol de formação?
Com certeza. Deve haver maior apoio e investimento. Tive conhecimento, por exemplo, que a FAF recebeu para o CAN cerca de oito milhões de dólares. Penso que é muito dinheiro. Eu queria este dinheiro nas minhas mãos para gerir uma federação. Até prestava contas, sem qualquer problema.

Gostava de estar na Federação nessa altura?
Com este dinheiro todo gostávamos de mostrar trabalho. Mas digo-vos que mostrava trabalho mesmo. Acho que estes valores têm sido mal canalizados. Penso que se devia priorizar o futebol jovem e as pessoas que trabalham com estes escalões de formação, de forma a incentivar estas pessoas a prosseguirem os seus trabalhos. Aquelas pessoas que têm estrutura recebiam um valor e os que não têm beneficiavam de outro valor. Que se criasse duas ou três classes, pois acredito que em três ou cinco anos teríamos resultado.

Considera fundamental a aposta no futebol de formação?
Sim e gostava de saber o que é que as pessoas da FAF têm feito com o futebol jovem. Peço desculpas, mas mesmo dentro da Federação a avaliação que se pode fazer do trabalho ao nível dos escalões de formação é zero. Digo isso com propriedade e desafio quem quer que seja, porque está à vista de todo o mundo: não há progresso no nosso futebol jovem. Repare que as nossas selecções são sempre eliminadas. Infelizmente não estou na federação, mas se lá estivesse pedia de três a cinco anos, e acho que o povo angolano ia ver o resultado do meu trabalho.

Que postura acha que a FAF devia assumir face à actual realidade?
É preciso que se trabalhe em projectos a longo prazo. Deve-se deixar de trabalhar a pensar no imediatismo. A própria federação pode criar mecanismos para controlar aqueles que trabalham com o futebol jovem. O técnico Hervé Renard esteve a fazer um grande trabalho - tive oportunidade de conversar com ele e seus adjuntos – e se continuasse aqui, dentro de três anos íamos ter bons resultados, mas infelizmente nós, angolanos, não gostamos de pessoas que trabalham. E a prova da qualidade do treinador está aí, com o brilhante resultado que teve com a selecção da Zâmbia.