Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Norberto encerra a escola

Matias Adriano - 16 de Abril, 2015

Algumas situaes obrigaram a fechar a escola

Fotografia: Jornal dos Desportos

A escola de futebol, Norberto de Castro, era uma espécie de “bastião de resistência”, daquilo que em determinada época se considerou o boom da formação futebolística no país. As escolas Jokasport e Flaminguinhos foram as primeiras a fechar as portas quando acharam que as condições já não permitiam ir mais além. Entretanto, a Norberto de Castro, muito por conta do “jogo de cintura” do proprietário continuou a sua actividade, embora também com alguma intermitência.

Mas como a resistência quebra,  também chegou a hora da crise. E fechar as portas é a saída encontrada, numa altura em que o futebol nacional está enfermo, a precisar de soluções pontuais e imediatas para a sua revitalização. A informação do encerramento da escola chegou ao Jornal dos Desportos de forma oficiosa.

Não nos fizemos rogados e fomos ao encontro de Norberto de Castro, o  proprietário, em busca da verdade. Loquaz e simpático como sempre, acedeu em receber-nos no seu escritório, abriu-se sem evasivas ao nosso “confessionário”.Comenta-se à boca pequena que a escola de futebol Norberto de Castro cessou a actividade. Até que ponto esta informação corresponde à verdade?

Embora nós não tenhamos feito um comunicado público, na verdade cessamos a nossa actividade. Estou para confirmar o encerramento da escola de futebol Norberto Castro desde Janeiro. Neste momento continuamos a trabalhar  com o colégio, que representa a área académica do nosso complexo.

Quais foram as razões estão na base dessa tomada de posição?

Primeiro ficamos lesados pela atitude que foi tomada pela própria Federação Angolana de Futebol, em relação a um atleta que foi formado na nossa escola, morava inclusive no complexo, e que veio para cá aos 11/12 anos. Ele fez parte do primeiro grupo dos atletas formados aqui na nossa escola, de modo que se trata de um atleta que teve contrato de formação e depois teve contrato profissional. E foi triste a posição que a FAF tomou na pessoa do seu presidente do Conselho de Disciplina, senhor Carvalho Neto, quanto a esse caso, o que me deixou muito triste a ponto de pensar se valia a pena continuar ou não.

O que se passou concretamente com esse atleta a ponto de envolver o Conselho de Disciplina da Federação?

Acontece que depois do contrato de formação, o atleta celebra com a escola o contrato profissional e o meu espanto é que a Federação desvincula o mesmo, a favor do Interclube. E o mais grave é que, o próprio Conselho de Disciplina, como já disse, na pessoa do senhor Carvalho Neto, veio a terreiro dizer que eu tinha falsificado a assinatura do próprio atleta. Considerei isto muito grave e fiquei, na verdade, muito chocado com esta situação, reconhecendo que sou apenas um formador e não um falsificador de assinaturas. Portanto, quando se chega a esse ponto de acusar alguém de falsificador de assinaturas é muito grave. Outra situação tem a ver com a punição, em relação a mim, sem a Federação me ter ouvido. Por sinal estava fora do país. Portanto, deu-se que antes de eu ser ouvido já tinha sido punido, e penso que não é assim que se trabalha, em qualquer parte do mundo as coisas obedecem a uma norma.

É este episódio que precipitou o encerramento da escola?

Sim, porque a partir daí criou-se uma grande instabilidade dentro das nossas instalações, todos os  atletas queriam sair à revelia, já não havia respeito institucional e depois também começou-se a fazer uso de alguns atletas que davam entrevistas, tudo isso com o propósito único de denegrir a minha imagem e manchar o prestígio da nossa instituição. Com tudo isso, achei por bem parar, porque como é sabido esta instituição não tem apoio de ninguém e juntando tudo, preferi fechá-la, porque tenho outras coisas para ver na vida.Ao longo da vigência da escola Norberto de Castro não só ganhou nome e prestigio na praça do nosso futebol, mas também consagrou alguns valores.Foi fácil tomar uma decisão destas?Não foi fácil, porque como sabem, eu gosto muito de futebol e vivo disso.E o que posso dizer à propósito, é que até ao momento é muita pressão que tenho estado a sofrer por onde passo, quer cá dentro do país, quer fora. Mas as pessoas têm compreendido e sabem tudo o que eu tenho feito, tudo o que tenho sofrido, e isso é que me tem posto mais sossegado. Porque quando o povo está do seu lado, reconhece o que você faz é confortante e estou à vontade nesse sentido.


A palavra recuo não entra no seu dicionário?Ou seja, o recuo já não é possível?
Não vamos recuar, isto está fechado, esta fechado. Se reparar pelas condições do complexo dá a sensação de estar em desuso. Aliás, ontem tive de mandar fazer o corte da relva, porque da forma como o campo estava parecia um lugar para pasto de animais. Engraçado é que, depois disso, muita gente vem para aqui a pensar que vamos reabrir.Mas está encerrado definitivamente

Mesmo que surja apoio institucional?

Aí é outra coisa. Se houver apoio institucional, à condição de Instituição de Utilidade Pública, com um orçamento anual, podemos reflectir e talvez possamos fazer um recuo e reabrir a escola. Só por aí.


REBENTOS
Geraldo o maior astro


Geraldo aparece como a grande referência dos rebentos da Escola Norberto de Castro. Haverá outros nomes ai?
Nós temos muitos nomes e repara que o Geraldo se foi até onde foi é porque é um jovem muito humilde e chegou onde chegou. Eu já tive 14/15 atletas no Brasil e o Geraldo foi o único que permaneceu lá até hoje, porque muitos destes atletas que hoje estão a jogar em determinados clubes do Girabola também estiveram no Brasil, mas infelizmente quando se perceberam que aqui em Angola alguns atletas já tínham salários razoáveis não deram sequência à formação superior, preferiram regressar ao país. Portanto, esta é a mentalidade de alguns dos nossos jogadores, e infelizmente é assim que são as coisas.

PELO PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Inauguração marcou
o momento mais alto


Sendo assim, que destino pensa dar a esta infra-estrutura daqui em diante?Nesta altura estamos a trabalhar com o colégio. Antes leccionávamos até ao ensino médio, mas terminamos com esse nível. Estamos a leccionar apenas até à nona classe, porque de facto muitas destas crianças já estavam habituadas. Quanto ao espaço desportivo vamos esperar ver se aparece algum clube interessado em fazer os seus treinos. Para isso, estamos completamente abertos. Mas para a formação está encerrado.

Quais são os espaços de prática desportiva de que dispõe o complexo no seu todo?
Temos aqui dois campos de futebol, um com relva sintética por terminar, outro com relva natural e temos ainda uma quadra de salão para a prática de basquetebol, andebol e futebol de salão a nível dos alunos internos.

Qual terá sido o momento mais alto da vigência da escola que lhe terá deixado feliz, na qualidade de mentor do projecto nesta hora de balanço?
Para ser franco o momento mais alegre que tive foi o começo. Ou seja, a inauguração das instalações por Sua  Excelência o Presidente da República, que é na verdade um homem do desporto, que dispensa comentários. Portanto, quando ele apareceu aqui para inaugurar o nosso complexo foi uma alegria imensa para mim, que eu próprio não conseguia explicar. Para mim foi este o momento mais alto

Será que ele o Presidente da República sabe que a escola Norberto de Castro fechou?
Sinceramente não sei explicar. Mas alguma coisa me diz que não deve saber.Que apoio institucional recebe ou recebia o Complexo Desportivo Norberto de Castro?Nunca tivemos apoio institucional.  Reparem que nós começamos a ter dificuldades desde que foi encerrado o mercado Roque Santeiro. Perdemos as nossas instalações, que eram a nossa fonte de receitas, foram demolidas e não fomos sequer indemnizados até hoje. Naquela altura nós não tínhamos dificuldades nenhumas, porque o nosso rendimento vinha do mercado Roque Santeiro.

NÚMEROS
Escola movimentava mil alunos por ano


Quantos alunos o complexo movimentava por ano?
Movimentamos uma média anual de cerca de mil alunos, tanto na área académica como na área desportiva, porque afluíam e viviam aqui meninos oriundos de várias províncias do país, de modo que só no futebol tínhamos cerca de 200 atletas

Que destino tiveram esses atletas? Pois acreditamos que entre os que se portavam mal haviam outros de boa conduta.

Na verdade, não digo que todos eram maus. Mas na sua maioria foram maus para connosco, mas isso é próprio do atleta angolano, faz parte da sua mentalidade e isto é que às vezes, faz que o nosso futebol não progrida, não conquiste outros patamares. Muitas vezes depois de estarem a auferir um salário esquecem-se de onde saíram, de onde foram formados. Paciência. Mas há sempre excepções. Deixam-me dizer que ainda agora três atletas nossos vão para a equipa 4 de Abril do Cuando Cubango, a pedido do treinador João Machado.

Quanto vai custar a transferência?
Negociada não. Diria que já está acertada. Eles vão a custo zero porque João Machado alegou falta de dinheiro da parte do clube de Menongue. Mas pela qualidade e educação dos três, nomeadamente o Canducha, Vito e o Gui, vou autorizar a ida deles a custo zero, pelo menos por um ano para que os meninos também possam aparecer sem problema nenhum. São educados e quando as pessoas são educadas para mim recebem sempre o apoio, aquele carinho.

Que aproveitamento tiveram os instrutores com o encerramento da escola. Foram para o desemprego ou aproveitados para outros projectos?
Lamentavelmente deram-me algumas informações de que alguns treinadores estão em alguns clubes, mas isso é próprio. Eu  conversei com eles no sentido de permanecerem, nem que tivessem que fazer um trabalho a nível escolar, mas infelizmente saíram. E o que senti mais,   foi um a quem dei formação, que inclusive foi estagiar em alguns clubes grandes do Brasil como o Curitiba e o Botafogo, mas pronto, não estou arrependido, respeito a consciência de cada um. Ele pensou que foi melhor assim. Não há problema neste aspecto. Há muita gente para trabalhar e é bom que eles apareçam a treinar outros clubes, isto é muito importante, porque nós tivemos ou temos a nossa qualidade e penso que isto é reconhecido a nível nacional e não só.

CONTINUIDADE
Huambo é o novo pólo de investimento







As atenções estão agora voltadas para a província do Huambo. Para a implementação de um projecto igual?
Estamos agora no Huambo e é aquilo que eu disse cada um tem o seu dom e eu tenho o meu. Portanto, vou continuar a fazer aquilo que gosto de fazer. E veja que no primeiro ano no Huambo nós já fomos campeões de juvenis. Não é o facto de sermos campeões o que me anima, mas é a forma como os atletas estão a evoluir dia-a-dia ou mês a mês o que me dá muita força para continuar com este projecto naquela província.

Quais são os primeiros sinais do investimento que se está a fazer no Huambo?

Em um ano e seis meses de trabalho já se nota qualidade nos nossos atletas e pessoalmente conversei com as pessoas que estão à frente da instituição sobre o que eu gosto, o que eu quero que se faça com estes atletas na formação para que possam evoluir. E dou três anos para começarmos a colher frutos, porque lá está ser aplicada a mesma filosofia e método de trabalho que nós tínhamos cá em Luanda. Além demais, as pessoas que estão a trabalhar comigo são humildes, têm vontade de trabalhar e aprender no dia-a-dia. Isso  dá-me garantia de que dentro de três anos já podemos apresentar valores nossos no mercado.

Podemos considerar animadoras as perspectivas de colheita a médio prazo?

Tenho certeza que no Huambo vamos progredir, se não houver interferências no nosso trabalho. Nesse momento estamos com dificuldade de espaço, mas já foi localizado, temos autorização dos sobas,  penso que ainda este ano vamos ter boa resposta a nível da administração municipal e do governo da província para que possamos erguer as nossas instalações. Eu  sinto-me mal trabalhar num campo que não me pertence, este não é o meu dom, eu gosto trabalhar com estruturas, com sítios próprios. Portanto, se houver  e tenho a certeza que vai haver sensibilidade dos dirigentes da província, ainda este ano vamos conseguir vedar o terreno e inicialmente fazermos um campo para podermos começar trabalhar com estas condições criadas.

De alguma forma ou doutra parece estar a ser um pouco difícil a fase de implantação na província do Huambo. É isso?

Não é por aí. Está a ser muito positivo, porque há muita humildade nas pessoas com as quais estou a trabalhar, e devo dizer também que no Huambo há talentos. Aliás, temos talentos em todas as províncias e eu até arrisco em dizer que nós não ficamos a dever nada aos brasileiros. O nosso problema está na mentalidade dos próprios atletas. Mas o que eu vi durante este tempo transmite-me a sensação de que as pessoas no interior do país são mais fortes e são mais sensíveis nestes casos e tenho certeza que com a filosofia de trabalho que estamos a implementar tenho certeza que nós vamos progredir no Huambo.

Em termos de adesão da rapaziada o nível é o mesmo em relação aquele que se registava aqui em Luanda?
Sim, nós estamos a ser muito solicitados no Huambo e recebemos diariamente atletas vindos de todos os municípios da província e mesmo dos bairros periféricos da cidade. Só que temos uma meta por falta de instalações. Em face desta situação não nos é possível trabalhar com muitos meninos como o fazíamos aqui em Luanda.  Mas quando ultrapassarmos a situação vamos poder receber mais crianças.

Como foi recebido o projecto pelas autoridades locais?
É uma maravilha. As pessoas no Huambo são espectaculares. Gente altamente sensível e que está muito satisfeita com a nossa vinda à província. Repara que a semana passada fomos convidados para receber o troféu de campeões de iniciados e quando cheguei ao estádio houve uma ovação muito grande. Os dirigentes desportivos que estiveram presentes no estádio deram-me toda a atenção, e na altura fiz a entrega de uma menção honrosa a uma pessoa que muito também tem dado ao futebol, o senhor Jorge Mangrinha. E noto de facto que as pessoas no Huambo estão muitos satisfeitas com a vinda de mais um irmão angolano que se vai juntar eles na promoção do futebol.

OPINIÃO
Conferência sobre futebol
não traz nada de novo


O país organiza em Junho próximo a Conferência Nacional sobre futebol. Será a via ideal para a salvação da modalidade no país?
Eu não acredito muito nisso. Sou aberto e franco. Os problemas do futebol estão identificados há muito, eles residem na falta de apoio à formação e na desonestidade de alguns dirigentes federativos. Antes de entrarem têm uma linguagem e depois de estarem dentro têm outra. A solidariedade entre os órgãos dentro da própria Federação também não concorrem à melhoria. Quando uma área detecta um erro de outra não consegue criticar. Portanto, não espero nada desta conferência.

Angola está inserida no mesmo grupo com a RDC, RCA e Ilhas Maurícias nas preliminares ao CAN'2017
. Na sua perspectiva é grupo acessível ou difícil?
Não é um grupo fácil como se pensa. Para mim não é. Primeiro o Congo é mais forte que Angola. E assumo que a qualidade do nosso campeonato ainda é razoável porque temos congoleses ou angolanos regressados a jogar nas equipas. Se não fosse seria uma lástima. Mas vamos nos qualificar, desde que paguem antecipadamente os salários da Comissão Técnica.

PROJECTO
Pensamos enviar alguns meninos ao Brasil


Podemos ter certeza que os próximos Geraldo virão do Huambo?
Já temos muitos. O trabalho que era feita aqui em Luanda é que estamos e vamos fazer no Huambo. Já orientei todos os meninos no sentido de juntarem documentação para a emissão de passaportes, porque ainda este ano vamos começar levar alguns para o Brasil numa primeira fase e também já temos contactos avançados na Holanda para o mesmo fim.

Se dependesse do senhor até quando gostaria ter já instalações da escola do Huambo prontas e funcionais?
Era já amanhã. Amanhã mesmo começava a vedação e depois seguir com a construção de um campo, um restaurante para os meninos se alimentar e um balneário. Este seria já o primeiro passo.

O projecto no Huambo não prevê colégio como aqui em Luanda?
É tudo igual, vai ter também escola. E digo mais: se eu tivesse verba era fazer a nível das 18 províncias de Angola o mesmo que fiz em Luanda. É este o meu desejo, porque sabem que isto só vem trazer desenvolvimento e quem beneficia disso é o próprio país. Espero de facto que haja apoios neste sentido e eu estou aberto, enquanto tiver saúde posso fazer isso em todas as províncias do nosso país.

Já agora que balanço fazer da escola de Luanda que acaba de fechar?
Considero positivo. Estão ai os resultados. Nós hoje temos atletas a jogar na primeira divisão, outros na segunda. Aliás, a nível de Luanda podemos dizer que todos os clubes receberam atletas da Norberto de Castro. É sinal de que os nossos atletas foram bem formados. Tanto é que nós vamos agora fazer uma carta para a Associação Provincial de Futebol no sentido de persuadir estes clubes para pagarem pelo menos a formação, porque isto tem custos.

A par do colégio o que mais funciona actualmente no complexo Norberto de Castro?
Temos também a fundação Norberto de Castro em funcionamento, mas também à custa de muito exercício. Pois a nossa fundação não tem apoio institucional, quando é sabido que as outras fundações têm um subsídio anual, funcionam como instituições de Utilidade Pública. Mas nós temos desenvolvido o nosso trabalho. Apoiamos nas cheias do Lobito, nas cheias do Namibe, no acidente da Académica do Lobito assim como também temos prestado apoio a outros cidadãos anónimos que nos batem à porta.