Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

"Nós mulheres ainda temos de lutar muito pelos nossos direitos na sociedade"

*Augusto Fernandes - 10 de Março, 2013

Ana Cristina a voz feminina da Rádio 5

Fotografia: Jornal dos Desportos

Dona de uma voz que se distingue na Rádio 5, não só pelo facto de ser praticamente a única mulher a exercer com regularidade a função de locutora, mas também pelo timbre ímpar da sua voz, Ana Cristina é jornalista desportiva desde 1998 e exerce as funções de editora, no canal especializado do Grupo Rádio Nacional de Angola (RNA). Tudo começou em 1995, quando depois de ter sido uma das vencedoras de um concurso público denominado “Manhã de Domingo”, realizado pela rádio nacional, recebeu de prémio um curso de jornalismo na Rádio Escola (Cefojor). Aí, foi discípula de Mesquita Lemos, Saraiva e Titi, que eram considerados “grandes mestres” do jornalismo em Angola na altura, em companhia de Estanislau Garcia, Herculano Coroado e outros.

“Depois do curso, em 1996, fui colocada na Rádio FM como locutora e fui realizadora do programa “Noites Quentes”. Com o tempo, e como nesta área tinha pouco margem de progressão, decidi ir para uma área com mais actividade em termos jornalísticos, como por exemplo as reportagens, notícias e até mesmo editar outros conteúdos”, disse a voz feminina mais ouvida no desporto. Ana Cristina lembra-se que, quando se candidatou à Rádio 5 contavam-se pelos dedos de uma mão o número de “profissionais” mulheres, entre as quais se destacavam Delmira Dias e Sónia Marisa.

“Alguns colegas homens, em jeito de brincadeira, intimidavam-nos dizendo que aquele lugar era apenas para homens de barba rija. Mas, com muita força de vontade, consegui adaptar-me à nova realidade, pois tinha consciência que o mais importante era conseguir dominar a linguagem desportiva”, recordou. Para Cristina, outro factor que teve grande influência na sua rápida adaptação foi o incentivo de Manuel Rebelais, que queria muito ter vozes femininas na Rádio 5. “Assim, outros profissionais como Arlindo Macedo, com experiência reconhecida, foram mobilizados e contribuíram sobremaneira para o meu progresso nesta casa”, disse.    *COM JOÃO FRANCISCO


RESPEITO
“Os meus colegas do sexo oposto
tratam-me muito bem”


Ana Cristina não tem problemas em trabalhar com colegas maioritariamente homens, que a tratam muito bem e têm um grande respeito por ela. Pelo que, nunca lhe passou pela cabeça ser assediada sexualmente no local de trabalho, mesmo quando os elogios atingem, de certa forma, proporções fora do normal. “Acho que é normal quando se está no meio de muitos homens, uma mulher ser alvo de muita atenção, em especial quando estamos vestidas de forma atraente e alguns fazem comentários tendenciosos. Prefiro levar a coisa na desportiva. No fundo, acabamos por nos dar muito bem e todos me respeitam, confirmou.

Apesar de se sentir muito bem entre os homens, Ana Cristina é de opinião que as mulheres na sua área ainda têm de lutar para conseguirem impor-se em função do seu potencial, e dá vários exemplos: “Quando se formam as equipas para a cobertura de grandes eventos desportivos, normalmente as mulheres são passadas para atrás, o que não é correcto, nem ético, em termos profissionais. “Creio que nós temos de ser vistas e tratadas em função do nosso potencial e não pelo facto de sermos mulheres. E, mesmo internamente, é preciso que se dê mais espaço às mulheres para que elas possam crescer do ponto de vista jornalístico”, defende.


MOMENTOS
“Entrevista ao Presidente
da República no dia do meu aniversário”


O momento mais marcante da carreira jornalística de Ana Cristina aconteceu quando, no dia do seu aniversário, se encontrava de serviço no Estádio da Cidadela, num jogo dos Palancas Negras contra um adversário que já não recorda. Como estava na tribuna VIP conseguiu entrevistar o Presidente da República. “Depois de ver a forma como o Presidente comentava os lances do jogo, decidi entrevistá-lo, utilizando o argumento de ser a prenda do meu aniversário, para pedir ao chefe do protocolo do Presidente no local, que anuiu e fiz a minha primeira entrevista ao Presidente José Eduardo dos Santos, que me deixou muito feliz naquele dia de festa para mim”, confessou ainda.

A jornalista acrescentou que, embora ao longo da entrevista tenha mantido o profissionalismo que se impunha naquele momento, depois do trabalho e longe do entrevistado, não se conteve emocionalmente, e chegou mesmo a deitar algumas lágrimas de emoção e felicidade. Na condição de ouvinte, Ana Cristina revelou que se inspirou em Laurinda Santos, que fazia o programa “Boa Noite Angola”, para ter o sucesso que as pessoas dizem possuir  agora nas locuções desportivas.

“Ela tinha uma voz simpática. Conversava com os ouvintes e eu não dormia sem ouvir aquele programa. Mas, de manhã, havia outra voz potente que mexia comigo, o da Paula Simons. “Estas duas vozes exerceram, realmente, uma grande influência em mim. Além disso, ainda na condição de ouvinte, também prestava muita atenção a Luísa Fançony, pois ela fala um português fácil e claro. Não digo que estas pessoas sejam as minhas fontes de inspiração, mas são grandes referências.”


PING PONG
“Acho que mereço
outra posição na Rádio 5”


JORNAL DOS DESPORTOS: Está satisfeita com o que ganha?

ANA Cristina: Não. O ser humano, por natureza, é ambicioso. Por isso, quero mais, pelo menos ganhar um salário que seja compatível com as minhas reais necessidades. No cômputo geral, acho que mereço mais por aquilo que faço nesta casa. Mesmo em termos de hierarquia, creio que mereço outra posição na Rádio 5.

 JD: Em sua opinião, qual foi o motivo da má prestação dos Palancas Negras no CAN 2013?

AC: Sinceramente, há coisas sobre as quais às vezes preferimos não nos debruçarmos a fundo. O que aconteceu no CAN é fruto de uma má preparação no seu todo, não falo da selecção, mas no geral. Além disso, temos um défice muito grande de qualidade nos nossos jogadores. Até a nossa melhor referência, Manucho Gonçalves, que joga no campeonato espanhol, não fez a diferença, assim como fazem os outros jogadores que são referência nas suas selecções. Nós perdemos em vários aspectos e, enquanto não se pensar bem na questão de formação, dificilmente saímos desta situação.

JD: Acha que Gustavo Ferrín é o homem certo para dirigir a selecção nacional?

AC: Por aquilo que nos deram a conhecer o homem é um treinador de formação. Não sei se ele está em condições de ser treinador de uma selecção principal de um país. Mas quem o pôs lá tem experiência e sabe melhor do que eu, pois sou apenas uma treinadora de bancada.

JD: Qual é o seu desporto predilecto?
AC: Basquetebol e Hóquei em Patins.


POR DENTRO


Nome completo: Ana Cristina Jeremias
Naturalidade e data de nascimento: Luanda em Novembro. Não gosto de dizer o ano em que nasci.
Estado Civil: Solteira
Filhos: Não tenho
Altura: 1,63 m
Calçado: 37/39
O que mais teme na vida: Deixar de ser feliz com a pessoa que amo
Prato preferido: Um bom funji com bons molhos
Bebida: Água
Religião: Católica
Sonho: Ser muito feliz