Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Nunca fui escoltado

Gaudncio Hamelay, no Lubango - 17 de Novembro, 2010

Ex-Assistente de linha nunca foi punido pela CCAF em duas dcadas de carreira

Fotografia: Gaudncio Hamelay, no Lubango

Após 20 anos na arbitragem angolana, que recordações leva consigo?
Ao longo dos 20 anos, ganhei muita coisa, fiz amigos de verdade nas 18 províncias do país, bem como conquistei mérito. Dou graças a Deus por nunca merecer punição do Conselho Central de Árbitros de Futebol de Angola durante esse período. Posso afirmar com muita alegria que tive uma bela carreira.

Qual o segredo do sucesso?
Para estar na arbitragem, o segredo mais importante é saber estar. Soube estar e terminei a carreira com lisura, o que não é fácil. Nem todo o árbitro termina a carreira com honradez. Todavia, dou graças a Deus por ter terminado com sucesso. Os meus agradecimentos vão para aqueles com quem trabalhei durante todos esses anos, sobretudo, ao árbitro Vicente Mussay, João Geraldo, José de Sousa e agora com o jovem Romualdo Baltazar. Espero que caminhe com sucesso e termine com honra, conforme fiz.

Como caracteriza a vida de um árbitro?
Ser árbitro é difícil, porque o seu desempenho é avaliado por milhares de pessoas, tem três segundos para decidir uma falta. Os espectadores avaliam a falta em cinco ou dez minutos, mas eu tenho três segundos. Não é fácil agradar às duas equipas, à comunicação social e ao público. É uma tarefa difícil. Para ser bom árbitro, temos de ser humildes e sinceros. É verdade que, às vezes, pecamos. Não o fazemos deliberadamente, mas por falhas que acontecem dentro do campo à semelhança do que ocorre com os jogadores.

Quais foram os jogos mais polémicos que assinalou?
Nunca tive um jogo polémico. Aliás, tive jogos difíceis. Já apitei vários dérbies entre o 1º de Agosto e o Petro, ASA e Interclube, mas sempre me saí bem. Nunca fui escoltado nesses campos.

Já favoreceu uma equipa em detrimento de outra por falha?
Quem faz os resultados em campo são as equipas. As equipas de arbitragem só cumprem o que está estipulado. Quando vamos para o campo, entramos com o objectivo de cumprir as leis da arbitragem. Um árbitro nunca deve trocar os resultados dos jogos. Não me recordo de haver algum favorecimento.

Já algum dia influenciou o árbitro a assinalar uma grande penalidade inexistente?
Não é influenciar, mas já contribuí para a marcação de uma grande penalidade que o meu chefe de equipa não viu. Já assinalei lances em que o meu chefe de equipa teve de apitar, mas não os viu por estar posicionado numa área diagonal que não lhe possibilitava visualizar as ocorrências. 

Recorda-se de algum jogo em que isso aconteceu?
Foi num jogo realizado na província do Namibe entre o Sonangol local e o Petro Atlético de Luanda, em que o árbitro José de Sousa vinha de uma área que não lhe permitia divisar o lance de penalty e, como estive em cima da jogada, assinalei a grande penalidade a favor do Sonangol do Namibe.

Um admirador de Colina

Quem é o árbitro que mais admira no país?
Na geração passada, foram os árbitros José de Sousa e Leopoldo Mavunza, enquanto o mais “catedrático” da arbitragem foi o Luís Manuel João, de Benguela, porque tinha uma forma excepcional de apitar e estar dentro do campo.

E quanto aos assistentes, quem mais admira?
Tivemos muitos assistentes, mas que terminaram mal. Porém, destaco o assistente internacional de Benguela, cujo nome já não me recordo. Foi o melhor assistente que tivemos no país, foi várias vezes aos Campeonatos do Mundo de Futebol, mas depois acabou por ficar pelo caminho. Honestamente, foi dos melhores assistentes que apareceu em Angola.

Dos árbitros do exterior do país, quem mais admira?
O italiano Pierluigi Collina. É um homem que muitos diziam que não falhava. Mas teve falhas. As pessoas nunca conseguiram reparar nas falhas que cometia. Apesar disso, é o melhor de todos os tempos. Venero-o. É um grande árbitro.

Qual é o seu clube de preferência?
Em Angola, o 1º de Agosto, e no exterior, Sport Lisboa e Benfica.

Como se sentia quando ajuizava uma partida do seu clube de coração?
Quando estivesse a apitar o jogo do 1º de Agosto, naquele momento, não era um assistente adepto do clube. Era apenas um juiz. E para ser sincero, o 1º de Agosto nunca ganhou todos os jogos que ajuizámos.

Categoria internacional
só se atinge por amizade


O que o influenciou a entrar para a arbitragem?
Entre 1982 e 1983, frequentei um curso de monitores de caçulinhas da bola. Durante muitos anos, fui treinador de escalões de infantis. Quando terminei a carreira de treinador, abracei a de árbitro assistente de futebol, no dia 21 de Fevereiro de 1990. Comecei a trabalhar como árbitro provincial, posteriormente, promovido a assistente nacional até 31 de Outubro do corrente ano. O meu último jogo de despedida foi entre nas formações do Kabuscorp do Palanca e Académica do Soyo.

Termina a arbitragem com o dever cumprido?
Sim. Dever cumprido a 100 por cento e sem nenhuma mancha.

Com o fim da carreira, o que pensa fazer?
Apenas terminou a carreira na quadra de jogos. Agora, a minha vida vai ser outra. Possivelmente, serei um instrutor para transmitir à nova geração as leis de jogo. Quem sabe um dia serei igualmente comissário de jogo! Pela Huíla, já estou a exercer a tarefa de comissário de jogo. Espero que Luanda, através do Conselho Central de Árbitros de Futebol corresponda para que venha a contribuir nessa tarefa.

Que conselho daria aos jovens que abraçam a carreira de árbitro ou assistente de futebol?
O segredo principal para se ser um bom árbitro é o treino diário. Tem de se treinar constantemente. Conforme tomamos o pequeno-almoço, assim deve treinar o árbitro todos os dias. Outra receita é: o árbitro deve ter o princípio de estar e deixar os vícios. Só assim pode atingir as metas fundamentais para ser bom árbitro.

Que momentos mais altos e mais baixos marcaram a sua carreira?
Nunca fui o melhor assistente de Angola, mas sempre estive entre os melhores assistentes do país.

O que gostaria de atingir e não conseguiu?
Gostaria de ter sido assistente internacional. Por tudo quanto fiz neste país em prol da arbitragem, merecia ser assistente internacional. Mas, não foi possível, porque na vida nem tudo o que pretendemos se concretiza. Se fosse por mérito, já seria assistente internacional, mas não consegui, porque houve manobras.

O que o impediu de ascender à categoria internacional?
Houve muitas manobras. Às vezes, não se ascende a determinada categoria por mérito próprio, mas por amizade. Se fosse por mérito, já seria assistente internacional.

Como avalia o nível de arbitragem angolana?
Angola possui bons árbitros. Infelizmente, há falta de acompanhamento de quem de direito. Temos árbitros com grande capacidade de ajuizar, mas não são lançados para competições internacionais. Eles têm tudo para apitar em qualquer jogo que forem indicados.

O que falta aos árbitros nacionais para serem convocados para os jogos internacionais?
Falta uma aposta séria para que sejamos analisados pelos organizadores das competições africanas. Vimos alguns árbitros africanos cujas qualidades não são superiores à dos angolanos. Portanto, falta-nos um acompanhamento mais rigoroso e estratégico das instituições angolanas.

Há corrupção na arbitragem do futebol nacional?
Não confirmo se há ou não. Digo isso porque durante os 20 anos de arbitragem nunca vi um julgamento de um árbitro corrupto. Mas, fala-se muito de corrupção na arbitragem. Por tudo quanto vi, neste tempo de convivência, acredito que não há corrupção dentro da arbitragem. Daria um exemplo: se o meu entrevistador me alojar em sua casa, me der um transporte e alimentação, são as condições essenciais que se podem atribuir ao visitante. Esses não são sintomas de corrupção, conforme pensam as pessoas. Não é corrupção. A recepção que um clube dá a um árbitro deve merecer um tratamento durante o jogo. Isso não significa que haja corrupção.

Há aliciamento dos árbitros no futebol angolano?
Também não confirmo, porque nunca fui aliciado. Sempre trabalhei com espírito vencedor. No campo, ganha quem for melhor e não com influência da equipa de arbitragem.

>> PERFIL

Nome: Eduardo Samuel José
Idade: 45 anos
Nacionalidade: angolana
Clube: 1º de Agosto
Hobby: Ouvir música e ler
Estilo de música: Kizomba e Gospel
Prato preferido: Funge com lombi da Huíla
Cor preferida: Azul
Onde passa as férias: Benguela (terra natal)
Cidade: Lubango
Religião: Cristã (Evangélica)
Filhos: Cinco
Bebida: Sumo
Desporto: futebol
Altura: 1,73m
Peso: 70 kg
País: África do Sul
Calor ou Cacimbo: Cacimbo