Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Nunca fui prejudicado por jogar na Seleco

Betumeleano Ferro - 22 de Outubro, 2018

Angolano esteve sempre aberto a propostas financeiras de outros campeonatos desde que o realizassem e fossem atractivas

Fotografia: Paulo Mulaza| Edies Novembro

Djalma Campos revelou que nem sempre os elencos federativos foram ao encontro da expectativa dos atletas convocados para a selecção nacional e, nem mesmo a tentativa dos internacionais provenientes da diáspora de darem sugestões ajudou a melhorar as coisas. Disse ser esta uma das razões principais porque em alguns momentos ficou de fora da selecção.

A carreira de muitos jogadores africanos é alicerçada pelo bom percurso das suas selecções. Até que ponto terá sido prejudicado por representar uma selecção modesta como a angolana?
Nunca fui prejudicado por representar a selecção de Angola. Muito pelo contrário, a selecção angolana é uma selecção respeitada e muito competente e, é, assim que ela é vista no estrangeiro. Temos bons jogadores com capacidades técnicas muito boa.

Ao serviço da selecção, disputou 3 fases finais seguidas do CAN, 2010, 2012 e 2013, os últimos em que Angola participou. O que faltou aos Palancas Negras para consolidar o que vinha obtendo desde 2008, quando chegou pela primeira vez aos quartos de final?
O que faltou à selecção angolana nos últimos anos foi sem dúvida um maior investimento no capital humano. Com consistência e técnica para ganhar jogos importantes e internacionais, por exemplo em 2010, fomos eliminados nos quartos de final pelo Gana, que acabou por ser finalista derrotada. Então, creio que as oscilações a nível da organização da FAF tem vindo a diminuir. Só sendo extremamente rigoroso com a organização e formação de quadros desportivos poderemos ter um caminho mais linear para o sucesso. 

O CAN 2010 vai ser sempre lembrado pelo 4-4 contra o Mali. Para quem como você esteve em campo, é de certeza é um momento inesquecível. Qual a sua versão para esse dramático empate?
Para mim, essa é sem sombras de dúvidas uma das situações mais dolorosas de que tenho memória desde que sou convocado para a selecção. Penso que eu e os meus colegas tornamo-nos confiantes demais durante o jogo e baixamos a guarda. Acreditamos que o jogo estava ganho, não percebemos que o Mali, estava ali para lutar até ao último segundo.

“Transmiti sempre confiança 

aos clubes que me contrataram”

O internacional angolano, Djalma Campos, falou de tudo na primeira grande entrevista, ao Jornal dos Desportos. Aos 31 anos, o buliçoso avançado do Alanyaspor, da primeira divisão turca,  assegura que a sua carreira atingiu o apogeu, em diversos momentos, em clubes, como o FC do Porto e o PAOK da Grécia.
De modo similar, deu a opinião sobre as dificuldades que os futebolistas angolanos têm de jogar, até em equipas modestas, do segundo escalão português, falou, também, um pouco do lado empresarial que acaba de abraçar, para acautelar o futuro. Os Palancas Negras mereceram, igualmente, uma atenção especial.

A sua carreira profissional começou de forma fulgurante, mas não atingiu o apogeu individual, que muitos auguravam. Hoje, olhando para trás, consegue explicar o que aconteceu?
O apogeu individual aconteceu, em diversos momento da minha carreira. Passei por grandes clubes, como o FC do Porto, o PAOK da Grécia e fui campeão por todos eles. Estou onde estou, devido ao meu esforço e dedicação. Tenho qualidades que me tornaram um futebolista de excelência e transmitem confiança, aos emblemas que me contratam.

A ida ao FC do Porto, parecia ser a porta de entrada para o estrelato, mas depois de uma época promissora, 19 jogos no total, acabou emprestado, no ano seguinte, para o Kasimpasa da Turquia. A adaptação aos portistas estava a ser difícil ou necessitava de mais tempo para jogar?

Com toda a certeza, precisava de mais tempo para jogar.

 Quando chegou ao Estádio do Dragão, fez alguns jogos a lateral direito, se continuasse nessa posição, a história da sua carreira nesse clube, talvez fosse escrita de maneira diferente?
A posição, em que jogamos, influência sempre no nosso rendimento e naturalmente, no resultado dos jogos. É possível, que tivesse outra história, mas também pode ser que a história fosse esta.

Basicamente, a sua carreira foi feita, em 3 países, Portugal, Turquia e Grécia. Nunca pensou testar outros campeonatos ou as propostas não tinham o aliciante financeiro?
Joguei nesses campeonatos, porque me identifico com o futebol jogado nesses países, e foi onde me realizei. Se tivessem surgido propostas financeiras de outros campeonatos, que me realizassem e fossem atractivas, quer para mim quer para a minha família, com certeza que ia avaliar.

As duas excelentes épocas, que fez no PAOK ,foram boas demais, como fica evidente pelo número de jogos que efectuou. Sentiu, nesse período, que estava a fazer um novo começo na carreira, como no início quando jogava com regularidade no Marítimo?
O PAOK foi um desafio interessante, e eu gosto de desafios, e de me expressar no campo com toda a liberdade e capacidade de mostrar o que valho, e, foi o que aconteceu. Além disso, tive um excelente acompanhamento da equipa.

O futebol angolano tem poucos jogadores no futebol europeu. Essa pouca representatividade, pesa na hora do treinador escolher a equipa titular, ou na maneira como olha para o atleta?
Em minha opinião, o treinador deve olhar apenas para o bom rendimento do jogador, quer este jogue na Europa, quer jogue num clube da segunda divisão do seu país.

“Tenho 

muito orgulho 

do meu pai”

Ser filho do craque Abel Campos foi alguma vez, um peso adicional, nas suas costas?
De maneira alguma. É bem verdade que houve alturas em que existiram muitas comparações, mas aos poucos as pessoas foram percebendo, que cada um de nós tinha e tem o seu estilo próprio.

Há exactos 30 anos, o seu pai tornou-se o primeiro futebolista angolano a ser transferido para um clube estrangeiro, Benfica de Portugal. De lá para cá, a realidade quase que não mudou, o que falta para as portas da Europa se abrirem, em definitivo, para os atletas nacionais?
A falta de agentes é um dos grandes factores, que condicionam a ida de muitos futebolistas para o exterior. Outro factor é, sem dúvida, a adaptação à cultura local, ao clima, ou até é à dificuldade de estar longe da família.

Na era colonial, os clubes portugueses vinham a Angola fazer 'excursões',   no regresso levavam jogadores que marcaram o futebol em Portugal, casos de Zé Águas, Benfica, Dinis, Sporting, só para citar estes. Há explicação para essa inversão de papéis, já que, agora, nem em equipas modestas os atletas angolanos conseguem jogar?
O que falta em Angola são agentes ou agências especializadas na promoção de desportistas, e que trabalhem com a FIFA.

O seu pai foi uma referência no Petro de Luanda. Algum dia pensou em vir a Angola reivindicar esse legado, no Girabola, como fez o seu irmão Geovany?
Tenho muito orgulho do meu pai e estou feliz, por tudo o que ele deu ao futebol angolano, mas reclamar o legado dele, não faz parte dos meus planos.

É consenso, entre os treinadores europeus, que o jogador africano tem habilidade em excesso, mas com pouca aptidão para o lado táctico. Há alguma verdade nisso, ou é apenas uma maneira de querer diminuir o trabalho que se faz em África?
Há casos e casos. Há jogadores com habilidades diferentes, e isso, não se aplica só aos jogadores africanos.  

Em Angola, fala-se muito do preconceito que os angolanos sofrem no futebol português, inclusive, há história e estórias que visaram muitos atletas promissores, como Cavungi e Abel, teu pai. O que se fala é uma espécie de mind game, como são chamados hoje?
Pela proximidade dos países, seria natural haver mais talentos angolanos inseridos no campeonato português. Mind games existem, em qualquer campeonato do mundo. Os atletas têm de ser fortes para superarem as adversidades.

Atacante espera diversificar projectos

Em várias ocasiões,  jogou na selecção com Gelson Dala e Ary Papel. Consegue explicar o sucesso de um e o insucesso de outro?

Existem muitos factores e as circunstâncias que ditam o desempenho de um jogador. Não me cabe a mim avaliar o sucesso, ou insucesso dos meus colegas, mas fazer equipa com eles e contribuir para o sucesso da equipa como um todo.

Além do futebol, também tem-se dedicado ao ramo empresarial, mas não ligado ao futebol. Ser treinador ou agente de jogadores, não fazem parte dos seus planos?
Não a curto ou médio prazos, mas são hipóteses que não estão totalmente descartadas. Quanto a ser empresário, tenho apostado em criar valor e em abraçar outras áreas da economia, que me são claras. Espero,vir a investir em postos de trabalho, e em diversificar os meus projectos.

O Djalma tem uma marca de roupas e artigos de luxos masculinos, a BBraune. Essa, é a maneira antecipada, de aumentar a "fortuna" ou acautelar o futuro?
Essa, é uma das formas que tenho de diversificar a minha postura, perante o mundo e envolver-me com outras formas de actividade. A BBraune é um projecto muito importante para mim, que espelha uma marca, um conceito, uma atitude. É um projecto que quero ver crescer e desenvolver com a minha mulher. 

A breve trecho pensa trazer a marca para Angola ou apostar em outros negócios?
Expandir e trazer a minha marca de roupas para Angola, é sem dúvidas um dos meus grandes objectivos, a médio prazo. Em relação à aposta em outros negócios, tenho vários projectos, que passam pelo desporto, mas por enquanto, são apenas projectos e prefiro, por enquanto, não falar deles.
Atleta com aposta no sector empresarial

Os futebolistas têm fama de gastar o que ganham, durante a carreira, num abrir e fechar de olhos. Há algum pingo de verdade nisso, ou é uma maneira de perpetuar a má fama que os futebolistas têm, como por exemplo, de serem pouco escolarizados?
 Antigamente, era assim, a “cultura financeira” não era tão presente na vida dos jogadores, e estes gastavam tudo o que ganhavam, e temos vários exemplos, como o lendário Garrincha, ou o génio português Vítor Batista, que não souberam administrar a fortuna. Hoje, em dia, é muito raro ver situações dessas, porque temos empresas especializadas que fazem a gestão dos activos financeiros dos jogadores. 

O nível académico dos jogadores aumentou em Angola e em Portugal, mas sem resultar em muitos craques. Como se explica esse aparente paradoxo?
Esse paradoxo existe, não só em Angola e Portugal, mas em muitos outros países, é uma realidade que está a mudar, por exigência dos próprios clubes e do organismo máximo do futebol.

Atleta e empresário, em qual das duas se sente, como peixe na água?
Nas duas. Fui sempre atleta e o resultado está à vista e o lado empresarial sempre existiu, mas só recentemente, comecei a explorar. É um novo desafio e estou a gostar imenso.

Até quanto tempo mais teremos Djalma Campos a correr pelos relvados?
 Eu estarei a correr pelos relvados, enquanto o corpo permitir.
 
Qual é, até o momento mais marcante da sua carreira?
A final da Supertaça europeia 2011/2012,  frente a FC Barcelona, em que o Porto perdeu, por 2-0.