Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Nzuzi André critica políticas dos clubes no futebol feminino

Augusto Panzo - 03 de Janeiro, 2012

Ex-seleccionador adjunto manifesta preocupação na categoria

Fotografia: João Gomes

Como caracteriza o actual momento do futebol feminino em Angola?
Infelizmente, o actual momento do futebol feminino no país é extremamente desolador, a começar pela própria organização interna das equipas, que no fundo são os viveiros, e estende-se à FAF, com consequências na selecção nacional, que vem perdendo qualidade todos os anos.

Na sua óptica, o que é necessário fazer para se inverter o quadro?
Acho que tudo passa pela criação de bases sólidas. É necessário que se criem as condições que possam sustentar o futebol sénior neste escalão, tal como temos vindo a constatar em outros países, onde existem campeonatos juvenis e juniores. Se não houver um trabalho em profundidade nestes escalões, será muito difícil termos uma selecção feminina forte no futuro, capaz de fazer bons resultados por muito tempo.

Na sua experiência como treinador nesta categoria, alguma vez teve a oportunidade de debater esta questão, pelo menos a nível dos clubes de Luanda ou da federação?
Durante a vigência da anterior direcção da FAF, essa questão não me lembro de ter sido debatido, mas é uma preocupação que alguns dirigentes manifestavam em alguns círculos. Quando Miller Gomes deixou-me a trabalhar com o futebol feminino, após a sua saída, comecei a renovar o esqueleto da selecção sénior feminina e muitos dos dirigentes da federação contrariaram a nova dinâmica que estava a implementar nesta categoria.

Qual foi a sua reacção diante da atitude destes dirigentes?
Fiquei muito triste e sem solução. Mas de uma coisa tenho a certeza: alguns desses dirigentes aproveitavam alguma coisa com a desorganização que existia. Lembro-me bem que levei por duas vezes a selecção sub-20 para as competições regionais. A primeira vez foi em Moçambique, onde ficamos em segundo lugar na Taça Cosafa. Chegamos a realizar um jogo com oito atletas, porque havia problemas de idade no seio do grupo. Ficamos todos bastante tristes, mas era um caso que competia à federação resolver, mas as pessoas ficaram chateadas comigo, pois, fui mal interpretado.

Chegou a manifestar esta preocupação aos dirigentes da FAF?
Exactamente. Quando saí do comando da selecção, deixei um relatório completo sobre este tema. Infelizmente, ele não teve o resultado que se esperava.

Será que com esse novo elenco da FAF, as coisas podem tomar um novo rumo a nível do futebol feminino?
Acho que sim. Agora, com a presença da senhora Teresa Quarta na vice-presidência para o futebol feminino, uma pessoa muito dinâmica, acho que as coisas podem mudar, porque ela está bastante empenhada na melhoria deste escalão. Se a memória não me falha, ela e o treinador Augusto Manuel “Leão” estiveram recentemente num simpósio internacional sobre o futebol feminino na África do Sul. Isso demonstra o quão preocupada está nessa matéria. Está apostada na mudança do rumo do nosso futebol feminino.

Acredita que possam surgir melhorias no escalão de futebol em Angola?
Acho que sim, porque o simpósio em si proporciona uma boa oportunidade para a obtenção de um vasto leque de conhecimentos sobre esta matéria. Acredito que com a sua presença naquele colóquio terá trazido bagagem suficiente para conseguir trabalhar no sentido de reverter esse quadro, para que se atinja um nível mais alto do futebol cá em Angola.

Federação deve assumir
as suas responsabilidades


Na sua óptica, o grande problema reside a nível dos clubes, por estes não terem escolas de formação nesta categoria, ou na FAF, por não ter projectos virados para a melhoria desse mesmo escalão?
Pela experiência que tenho nessa área, não teremos tão cedo selecções fortes, enquanto não tivermos boas equipas e uma melhor organização a nível da federação. Quem tem mais tempo de trabalhar com as jogadoras são os clubes, então tem que se criar as bases a partir dos clubes com o apoio da federação. Se não haver este intercâmbio, será muito difícil invertermos o quadro. Penso que é aí que se tem pecado muito, quanto à evolução do futebol no feminino no nosso país.

A nível de treinadores, não tem havido o intercâmbio para melhoria da qualidade?
Não existe diálogo entre treinadores e muito menos entre estes e os dirigentes, quer dos clubes como federativos, o que é bastante mau. Penso que quando existir a troca de impressões entre treinadores, ou entre nós e os responsáveis das equipas e da federação, veremos que as coisas hão-de mudar. Ao contrário, as coisas vão se manter ou mesmo piorarem.

Quer com isso dizer que é necessário criar estruturas de base para a formação de jogadoras nos clubes?

Sem dúvidas. É preciso que os clubes criem todas as condições que facilitem a integração do futebol feminino no seu seio, principalmente na alta competição como o 1º de Agosto, Petro de Luanda, Interclube, Kabuscorp e o ASA. Mas tudo isso tem a ver com as pessoas que estão à frente dos clubes. Muitas delas não se interessam sequer com essa categoria, o que é um grande erro que se comete. Se em todas as selecções, sejam elas de honras, sub-20, 17 e 15, as jogadoras não estiverem bem formados nos seus clubes, em nada vai mudar o rumo dos acontecimentos. Enquanto não tivermos equipas fortes de juvenis e juniores a partir dos clubes, nunca vamos ter selecções fortes, porque a formação parte da base.

Falta apoio à formação

Os treinadores dos escalões de formação queixam-se da falta de apoio por parte das direcções dos clubes. Que comentário faz a esse respeito?
Esta questão tem sido a maior preocupação para os treinadores. É preciso que se valorizem os treinadores dos escalões de formação. Há uma falha muito grave que tenho constatado nos clubes, que é a falta de material. Já vi um treinador de formação a trabalhar com cinquenta meninos, e ter à sua disposição apenas quatro bolas. Isso é incompreensível. Como é que um homem pode trabalhar assim?! O que é que este treinador vai ensinar as meninas com essas quatro bolas?! Quanto tempo levaria para ensinar a todas atletas as técnicas do domínio, recepção, condução e outras vertentes ligadas à bola. É simplesmente uma pura aberração.

Pelo que podemos depreender é que tem havido pouca atenção nos escalões de formação?
Lógico. As direcções dos clubes devem se entregar profundamente na melhoria de condições de trabalho para estes escalões, porque eles são os viveiros do futuro, tanto para os próprios clubes, como para as selecções nacionais. É para lá que os nossos dirigentes desportivos devem virar as atenções, dando mais material, mais moral e mais dedicação aos treinadores, de forma que se consiga fazer uma formação ideal dos jogadores.

O mister Nzuzi André estaria disponível a voltar a treinar a selecção feminina, se fosse convidado pela FAF?
Está fora de hipótese. Neste momento, a selecção está entregue em boas mãos, o professor Augusto Manuel “Leão” é uma pessoa muito capacitada e competente. Só lhe posso dar o meu apoio, desde que ele assim o ache e me solicite.