Jornal dos Desportos

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Entrevistas

O atleta Mendona dos Santos insultou a condio de mulher

Sack Santos - 05 de Abril, 2012

Marximina Luzia Bernardo no esquece a atitude negativa do jogador santista

Fotografia: Jornal dos Desportos

Marximina Luzia Bernardo, 33 anos, 1,74 m, 73 kgs, é uma mulher que dá a cara e cartas na arbitragem nacional, um sector que muita polémica tem suscitado no futebol angolano a vários escalões. Entrevistada pelo Jornal dos Desportos, ela fala da sua actuação pessoal, do modo como é avaliada, dos preconceitos e de erros que, na sua visão, são próprios de humanos, afastando também a ideia de que há corrupção, porque nunca se provou.

Como é que a sua família reagiu quando optou por esta carreira de arbitragem?
O meu pai demorou um pouco a aceitar, talvez por ser militar. Acho que ele não imaginava que eu chegava tão longe e que podia ultrapassar todas as barreiras e vicissitudes. Em particular, considero que o meu percurso teve muito a ver com o elemento sorte aliado a circunstâncias felizes. É importante realçar que sempre considerei a arbitragem como um hobby, um complemento, atendendo a que tenho como prioridade a Licenciatura, o Mestrado e o Doutoramento.

Trabalhando no seio de tantos homens nunca sofreu nenhum preconceito?
O preconceito existe e sempre há-de existir, mas já foi pior. Hoje, o respeito é maior. Tive muitas barreiras no início da minha carreira por ser mulher, mas no meu íntimo não existia nenhum receio de que a minha condição de mulher viesse dificultar a promoção na carreira que tanto desejei. Por isso, levo a arbitragem muito a sério, com grande dedicação e rigor, uma dúvida que o futuro dissipou para alcançar tal feito. Ganhei muita experiência, ultrapassei sucessivas etapas até chegar ao topo da arbitragem.

Como tem realizado o seu trabalho?
Tenho recebido provas de admiração de muitas pessoas, pela minha condição física adequada, de modo a estar sempre em cima das jogadas com o objectivo de garantir seriedade no julgamento e manter o controlo do jogo seja qual for o ritmo imposto pelas equipas.Mas reconheço que as coisas complicam-se quando os jogadores se esquecem da bola e preferem gerar conflitos e nessas situações…

Como tem sido o comportamento dos jogadores?
Damo-nos ao respeito e por vezes não somos respeitadas. Muitos jogadores não respeitam a autoridade do árbitro e dos assistentes.Esta falta de respeito é observada em gestos e algumas frases, que podem ser entendidas da leitura labial, e são tão ofensivos que não é preciso ser linguista para fazer esta leitura. O surgimento das novas tecnologias de informação, os chamados auriculares, trouxe muitos benefícios. Comunicamo-nos com o exterior e é-nos dada toda a informação, como diz o ditado, antes tarde do que nunca…

Esclareça melhor
Mostrei o cartão vermelho ao jogador Mendonça, do Santos FC, no jogo realizado no Soyo frente à Académica em que o Santos FC venceu por 2-0. Mendonça é o jogador mais ordinário que já vi durante a minha carreira. Um atleta sem o mínimo de educação, de carácter e de formação. Neste jogo, o atleta ofendeu a minha condição de mulher, insultou-me de todas as formas e feitios. Não merece estar no futebol.

BILHETE DA JUÍZA
Da formação à sua actuação


Marximina Luzia Bernardo é professora de Educação Física no Colégio Boa Visão em Viana, bairro onde reside. Estudante finalista do curso de Motricidade Humana, fala fluentemente o inglês e sonha fazer o Mestrado e o Doutoramento nesta especialidade. Marximina tornou-se a primeira angolana a ascender ao quadro Internacional de Árbitros de Futebol desde 2003. Jogou basquetebol em 1997, no Grupo Desportivo da Nocal.

Em 1998, com 19 anos, frequentou o curso de árbitros de futebol com aproveitamento, onde teve como colegas Emília Dias, a primeira árbitra assistente em 2001, Teresa Leitão em 2002 e Santa Isabel. O antigo árbitro português Victor Pereira foi o coordenador do curso e os prelectores foram os ex-árbitros angolanos Délcio Costa e Leopoldo Mavunza, a partir do qual deu o primeiro passo para a concretização do seu sonho.

No seu palmarés conta com a participação em dois Campeonatos Africanos de Futebol Feminino em 2006, na África do Sul e em 2008 na Nigéria, para além de outros jogos internacionais a nível de clubes. Marximina sonha terminar a sua carreira aos 40 anos de idade, ser Instrutora da FAF, da CAF, da FIFA e a primeira presidente do Conselho Central de Árbitros

NO INÍCIO DA CARREIRA
Seu primeiro jogo foi prova de fogo


É possível haver uma harmonia entre o árbitro e o resto dos participantes?
Não é possível, porque cada um vê o jogo, lê o jogo, vê as situações concretas em ângulos completamente diferentes. Estes agentes vêem o árbitro como o único responsável pelos seus erros.

Qual foi o momento que marcou a sua carreira?
Foi o primeiro jogo da minha carreira no Girabola em 2004, entre o 1º de Maio de Benguela e o Benfica de Luanda. Foi uma autêntica prova de fogo. Ouvi comentários desagradáveis e alguns até me apedrejaram. Foi muito triste.

Os árbitros estão sempre sob suspeitas?
É o que dizem. Não confirmo nem desminto, dada a subjectividade do assunto.

Qual é a sua opinião acerca das análises que são feitas sobre a arbitragem?
Que sejam imparciais, justas e neutras como nós. Quero manifestar a minha indignação e preocupação pela análise depreciativa que o senhor Belmiro Carmelino, ex-árbitro e analista para o futebol, tem feito ao longo dos seus comentários tendenciosos e pejorativos na Rádio Cinco, aproveitando-se dos microfones da mesma para denegrir o meu trabalho.Assim, na minha singela opinião, uma vez que detemos a condição de árbitros, implicitamente estão subjacentes as faculdades de uma boa capacidade de análise, o que faz de nós verdadeiros analistas natos.

Segundo, atribui-me a intenção deliberada de prejudicar o espectáculo e criou uma situação desagradável, diria até grave, para a minha família, pois aquando da sua análise colocou em causa o meu trabalho. Repito, em relação ao resultado de um jogo, atingindo inclusive a minha condição de mulher. Por este facto, o meu filho, agora com 11 anos, foi agredido na escola por adultos.

Terceiro, o campeonato é uma longa maratona de jogos, em que nem sempre as coisas correm bem, nem sempre a sorte acompanha os audazes. Ele não sabe disso porque o que me parece é que nunca foi árbitro. É preciso saber criticar o trabalho do seu colega. Estou convicta de que se pode fazer muito mais, elevar-se o nível dos nossos analistas para a arbitragem. Dou nota cinco ao senhor Dionísio de Almeida pela sua neutralidade e imparcialidade. Os outros estão muito abaixo.

OPINIÃO DE MARXIMINA
Como humanosos árbitros erram


O problema do nosso futebol também está na arbitragem?
Não concordo. Existem as leis, os regulamentos, as recomendações sobre a aplicação correcta de cada regra. Fizemos muitas reuniões periódicas, cuidamos da nossa condição física e temos tido diversas trocas de experiência, o que nos permite termos uma maior e melhor uniformização de critérios de actuação em campo. Portanto, não existe razão para tal.
Por outro lado, devemos ser vistos também como ser humanos. Esta suspeição sobre a arbitragem acaba, na minha opinião, quando todos os agentes do desporto se preocuparem primeiro com a atitude dos seus jogadores em campo. Fazem o inverso, preocupando-se com a atitude do árbitro.

A atitude e a capacidade de tomar decisões elevam a postura do árbitro?
As decisões têm que ocorrer em simultâneo com o lance o mais rápido possível. São permitidos alguns segundos, mas se este tempo se prolonga, pode dar-se uma sensação de dúvida para uma boa arbitragem. É imprescindível uma decisão clara e rápida, mostrando que a sua decisão foi acertada e assim inibe qualquer tipo de reclamação. O futuro da arbitragem está assegurado com jovens de muita qualidade. Fiquem tranquilos.

Quais são os erros mais graves dos árbitros?

Em qualquer modalidade ou mesmo profissão há erros, mas os mais graves na arbitragem, na minha opinião, são aqueles que influenciam os resultados. Portanto, é preciso uma certa lucidez no julgamento das faltas. É preciso concentração para tomar decisões justas, correctas e oportunas.

Que medidas devem ser tomadas para o combate da corrupção no nosso futebol?
Suspeições e acusações são muitas. O difícil é provar. Fala-se muito e prova-se pouco, ou melhor, nada se prova. Em mil e uma insinuações, ninguém chega a provar nada. Pessoalmente nunca fui aliciada, talvez por ser mulher. O senhor jornalista sabe que os automobilistas não gostam de ser intersectados por uma agente, preferem sempre um agente.

Prefere sorteio ou nomeação?
Nada tenho contra nem a favor, particularmente não estou preocupada.

Um dérbi ou um clássico preocupa-a?
A preocupação fundamental é desempenhar um bom trabalho. O árbitro é uma pessoa responsável por fazer cumprir as regras, regulamentos e de intervir quando uma regra é violada ou algo incomum acontece.Uma mensagem para a Mulher…Que as mulheres tenham auto-confiança, nunca deixem de sonhar e de acreditar. A realização pessoal depende do seu empenho e da sua dedicação. As mães angolanas são o suporte de tudo o que acontece nas nossas vidas. Por isso, deixo um grande agradecimento e um abraço carregado de amor e carinho.