Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

O avanado tem de saber irritar o defesa

Augusto Fernandes - 30 de Julho, 2012

Tinha um grande sentido de oportunidade

Fotografia: Jornal dos Desportos

Actualmente com 59 anos, João Simão, também conhecido por Samangwana do Sambila, foi um ponta de lança temido. Tinha um grande sentido de oportunidade , era veloz e dono de um remate forte com os dois pés. Iniciou a sua vida futebolística no Santos Futebol Clube do bairro Santo Rosa e terminou no Vitória do Sambizanga. Formou um trio letal no Benfica de Luanda com Jesus e Alves. É contemporâneo de Luís Cão, Salviano, Praia, Santinho, Ginguma, Kiferro, Genito, Basílio, Lucas Kundunmuna Lourenço, Ndunguidi, Zeca, Gomes, Cafumana, Capemba, Ti Barros, Nekumbi, Ratola e outros. Actualmente é treinador das velhas guardas do Sambizanga e funcionário do Ministério da Indústria.

João Simão começou a jogar futebol muito cedo. Aos 13 anos já fazia parte dos Andorinhas Pretas, clube do bairro Santo Rosa, onde actualmente se encontra o prédio do Livro de São Paulo, com Armindo Augusto (Sá Morais), Nico, Fefá, Chininha, Jorge e outros. Aos 17 anos ingressou no Santos Futebol Clube, que disputava jogos entre equipas dobairro, das quais se destacavam o Juba e Académica do Ambrizete. Nestes “trumunus” davam nas vistas Ti Barros, Nekumbi, Mestre Careca, Maitá e outros. Entre as equipas, há ainda há destacar o Sporting da Musserra, Barreirense da Barra do Dande, Benfica do Kinzau, cujos craques eram António Rock, Fernando Mateus ou Cota Ratolas. O Juba era a equipa mais forte do Sambizanga com jogadores como Canga, Ginguma, Augusto Pedro, Zeca Evangelho, Beto Miau, Salviano.

No Santos, jogou com Cafumana, Capemba, Império, Bonducho, Man pó, Lito Zé e tantos outros. “No Rangel a equipa mais forte era o Escola do Zangado, com Dinis, Lourenço, Bento, Firmino Dias. No Bairro Popular, havia os Perdidos da Bola, com destaque para Ninito, Jacinto João, Dado, Pimenta. No Prenda, a equipa mais forte era o Las Palmas, com os Manos Kakas, Valente, sem esquecer o grande Cazenga com Maventa, Amarante,  Zaragateiro e companhia. O Cazenga, Juba, Escola do Zangado e o Kalumbunzi eram,as melhores equipas de bairro em Luanda”, diz  kota Simão. Em 1969, com o seu Santos, participa no célebre Torneio Cuca, organizado por Justino Fernandes. kota Simão diz que “o Torneio Cuca movimentava os melhores jogadores de Luanda bem com os de algumas províncias como Benguela e Huambo. A qualidade técnica dos jogadores era de fazer inveja aos actuais jogadores, mesmo jogando no pelado e sem as condições materiais que agora existem”.

Torneio Bucavu
Com o fim do Torneio Cuca e a movimentação política em 25 de Abril de 1974, houve uma certa paralisação do futebol, em termos de grandes organizações: “voltámos a fazer jogos entre bairros. Um indivíduo chamado Vadiago organizou um torneio denominado Bucavu no campo do Braguês, que teve a participação do Santos, do bairro Santo Rosa, Mambica e outras duas equipas”, disse João Simão. O torneio foi ganho pela sua equipa. No segundo torneio Bucavu e organizado por Kiferro, surgiu uma equipa com o objectivo de destronar o Santos, composta por jogadores como Ginguma, Augusto Pedro, Salviano, Santinho, Ferreira Pinto, Praia, Abreu, Luís Cão, Santo António. Ganharam o torneio. Desta equipa nasceu o Progresso do Sambizanga. Num jogo entre o Santos e a equipa que veio a ser o Progresso, houve um livre contra o Santos. “Quando o livre foi marcado, Ginguma que estava fora do campo entra sem a autorização do árbitro e marca o golo de cabeça. Nós não aceitámos. Deu uma grande confusão e eu arranquei as balizas pondo fim ao jogo”, recorda João Simão entre grandes gargalhadas.

Equipa do Benfica
Em 1976, João Simão foi convidado a jogar pelo Benfica de Luanda, onde encontrou jogadores como Alves, Gomes, Pepe António, Panzo, Salvador, Toni, ou Nandinho Caçador. Fez quatro épocas no “Provincial”. “ Os jogos contra o Progresso eram os mais fortes e gostava de ver a luta entre o Santo António e o Gomes. “Nós tínhamos um grande ataque composto por Jesus, com grande poder de finta, o Alves, um grande goleador e eu. Em 1980, houve uma fusão entre os jogadores do Benfica de Luanda e o Atlético de Luanda dando origem ao Petro Atlético de Luanda.

Do Benfica saíram o Jesus, eu e o Império, mas fiquei no Petro  pouco tempo”, conta. João Simão continua com as suas memórias: “Em 1980/81 ingressei no Progresso do Sambizanga, onde joguei três épocas, com o Luís Cão, Santo António, Praia, Santinho, Eduardo André, Salviano, Jaime, Ferreira Pinto, Abreu, Paulo Caçule. Neste período protagonizávamos o maior derby do país com o 1º de Agosto. O estádio dos Coqueiros ficava superlotado e as barrocas por baixo do Palácio da Cidade Alta também estavam cheias”.

A finta de Ndunguidi
No campo havia muita luta entre os avançados do Progresso e os grandes defesas do 1º de Agosto, com uma grande equipa em que eram destaques o Ângelo, Garcia, Lourenço, Ndongala, Manico, Amândio, Chimalanga,  Ndunguidi, Alves, Nsuka, Sabino e  Mateus César. “Num destes jogos, Ndunguidi pôs fim à carreira do Caçule, nosso defesa, com uma grande finta. O Caçule fracturou o joelho. Eu chutava forte com os dois pés e sabia irritar os defesas. Um ponta de lança tem saber irritar os defesas fazendo algumas malandrices para enervá-los e provocar um vermelho ”, disse João Simão.

Depois do Progresso do Sambizanga, João Simão representou o Desportivo da Chela (Benfica do Lubango) onde encontrou Basílio, Lucas Malé, Mateus Cesar, Pepe, Santiago Zé e Beto Amaro, e posteriormente Quim Sebas, Samuel, Carlitos, Tony. Jogou no Lubango duas épocas, na Primeira Divisão.
Depois João Simão representou o Vitória do Sambizanga, onde terminou oficialmente a sua carreira, em 1986. Actualmente João Simão vive no bairro Sambizanga, na Rua Kudissanga kwa Makamba, e é funcionário do Ministério da Indústria.

JOÃO SIMÃO RESPONDE:

Qual é a diferença entre o futebol actual e o do seu tempo?
JS- Não há comparação possível, embora hoje os jogadores tenham mais e melhores condições. O nível do futebol angolano está a decair
Qual é o motivo desta quebra de qualidade?
JS - Falta de futebol nos bairros. Hoje as crianças quase não jogam nos bairros, ou porque os espaços estão a ser ocupados com edifícios ou porque já não se incentiva a prática de futebol nos bairros. A falsificação das idades e o imediatismo são outros factores que contribuem para este mal do nosso futebol.
Pedro Neto é o homem certo para a Federação Angolana de Futebol ?
JS - Creio que sim. O homem é competente.
O Libolo tem forças para aguentar a passada até ao fim?
JS - Pelos vistos dificilmente o Libolo vai ser parado.
O Petro de Luanda ainda tem hipóteses de chegar ao título?
JS - - Dificilmente. Mas o Interclube tem muito para mostrar ao longo destas jornadas que faltam.

POR DENTRO

Nome completo: João Simão
Filiação: João Nguengué e
Formosa de Oliveira
Naturalidade e data de nascimento:Luanda, 3 de Outubro de 1953
Estado Civil: Viúvo
Filhos: 11
Camisola habitual: número 10
Calçado: 41
Filmes: acção
Cor: Azul
Filmes: Acção
Música: semba
Altura: 1,82 m
Calçado: 42
Prato preferido: calulu de peixe seco e fresco
Bebida: um bom vinho
Cor: branca
O que mais detesta: a intriga
Defeito: os outros que o digam Virtude: ser positivo, alegre
Religião: tocoísta
Clube do coração: ProgressoSonho: ter uma vida melhor e poder ver os meus bisnetos.