Jornal dos Desportos

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Entrevistas

O "caixeiro viajante do futebol" descansa no funcionalismo pblico

Augusto Fernandes com, Joo Francisco - 30 de Janeiro, 2013

Jaime Walter Ferreira ou simplesmente Vado surgiu no Mundo do futebol atravs do Mister Cuca,

Fotografia: Jornal dos Desportos

Jaime Walter Ferreira ou simplesmente Vado surgiu no Mundo do futebol através do Mister Cuca, ex-treinador das camadas jovens do então Inter de Luanda (como se chamava o actual Interclube de Angola). Nos clubes por onde passou jogou com Abílio Amaral, Filipe Nzanza, Pedro, Nando, Stopirra, Mwanza Teka, Delgado e outros.

“Normalmente eu jogava no meu bairro e certa ocasião um individuo chamado Langa convidou-me a ir fazer os testes nos juvenis do Inter de Luanda, que na altura treinavam no campo do São Paulo, sob orientação do Mister Cuca. “Dei apenas dois toques na bola e o Mister ficou logo convencido de que eu estava apto a jogar no seu clube. Assim fiquei nos juvenis do clube da polícia”, disse Vado, quando abordado sobre a passagem pelo desporto rei. Quando chegou ao clube, por volta de 1992, encontrou Mário, Ernesto, Jony, Silas, Bondoso. Jogou apenas uma época como juvenis, porque devido ao seu bom talento, foi colocado nos juniores, logo no ano seguinte, mesmo tendo ainda idade para jogar em juvenis.

Tudo correu à perfeição até atingir os seniores. Infelizmente, na equipa principal, Vado não conseguiu impor-se e ficou parado cerca de uma época. Para não “enferrujar”, o jovem conta que decidiu ingressar numa equipa do seu bairro que disputava o torneio Girabairro que tinha como treinador o Julião Dias e como presidente o carismático Napoleão Brandão. Passagem pelo Cambondo de Malange. Com o passar do tempo e como o Napoleão Brandão foi contratado para treinar o Cambondo de Malange, Vado foi convidado pelo próprio treinador a fazer parte do plantel da equipa malangina, que tinha como “quartel general” Luanda, devido à instabilidade que se vivia nas provinciais do interior na altura, ou seja, disputava os seus jogos em Luanda.

No Cambondo de Malange, Vado, de entre outros, jogou com o Kivota, Costa, Alemão, Rodolfo, Gelson, Esquerdinho, Não Tiri e Gika, durante uma época. “A situação que se vivia não permitia fazermos os nossos jogos como visitados em Malange e ao longo do Girabola só fizemos um jogo em Malange, contra o Sonangol do Namibe. Mas foi muito bom para mim pois fomos muito bem recebidos pelo povo de Malange.” “Nunca me tinha passado pela cabeça que o público local tivesse tanto carinho pela equipa. Fiquei muito impressionado pela calorosa recepção de que fomos alvo”, justifica.


MUDANÇA DE CLUBE
Do 1º de Agosto aos 11 Bravos do Maquis


Depois do 1º de Agosto, Vado rumou para o Progresso do Sambizanga, na época treinado pelo técnico José Ferraz e depois Janguelito, na segunda época. Neste clube encontrou o Zico, Zé Augusto, Palito, Cacharamba, Mambaia, Mendes, Márito, Mingo e muitos outros, tendo representado o clube Sambila duas épocas.

“Naquela época o Progresso tinha grandes dificuldades do ponto de vista financeiro e organizativo. Creio que foi um dos momentos mais difíceis daquele grande clube do país. Graças a Deus, nos últimos anos tem uma direcção que aos poucos está a devolver a mística do clube e isto é bom para o futebol nacional.”Com o fim do contrato com o Progresso do Sambizanga, Vado foi tentar a sorte em Benguela, no Estrela Clube 1º de Maio, que tinha como treinador o Rui Rodrigues. Com o 1º de Maio, Vado ganhou uma Taça de Angola, a sua única grande conquista em termos de futebol até ao final da sua carreira. No 1º de Maio jogou apenas uma época e regressou ao Progresso do Sambizanga, tendo actuado também uma época.

Vado rumou depois para o leste do País, para representar os 11 Bravos do Maquis, que na altura era orientado tecnicamente por João Machado. No Maquis, Vado jogou com Nando, Mochi, Breco, Chora, Adão, Rogério e outros e apenas uma época. No leste teve o melhor salário. “O Bravos do Maquis tem um grande nível de organização. É dos clubes, se não mesmo o único clube que está sempre em dia com os jogadores em termos de salários e isto é motivador. Este ano e com as contratações que fizeram, a começar pelo treinador Zeca Amaral, o Maquis vai dar muito trabalho. Os chamados grandes que se cuidem”, sublinhou.

Vado, que pendurou as chuteiras aos 30 anos de idade em 2008, devido a uma lesão no tornozelo e porque também sentia muitas dores na coluna, reconheceu que durante toda a vida como futebolista o jogador que mais trabalho lhe deu foi o Betinho do Petro de Luanda. Actualmente, Vado vive no bairro Nelito Soares e é funcionário público.


MOMENTOS E AMBIÇÃO
“Fuga” para Portugal e regresso às origens


Depois da experiência no Cambondo, Vado regressa ao Inter de Luanda, por volta de 2001/2002, tendo jogado apenas uma época com jogadores como Zekinhas e Abílio Amaral.“Devo dizer que o Abílio Amaral, como o “capitão” de equipa principal do Inter de Luanda, foi um verdadeiro líder. Aprendi muito com ele, pois era um homem de trato fácil e de um elevado grau de disciplina.

A sua forma de ser impressionava-me muito e influiu de forma positiva na minha forma de estar em campo. Foi muito bom tê-lo como companheiro durante o pouco tempo que representei a equipa afecta ao Ministério do Interior”, reconheceu.No final da época 2001/2002, Vado abalou para Portugal, onde não conseguiu concretizar o seu sonho.“Saí do Inter “à francesa” e posto em Portugal não podia jogar porque estava vinculado ao clube. Como saí sem autorização não tive coragem de persuadir os dirigentes do clube a darem-me a desvinculação”, revelou.

O rapaz, desconsolado, regressou à Pátria. Apercebendo-se do seu regresso e como conhecia o seu potencial, Julião Dias levou-o ao 1º de Agosto para fazer os testes. Não teve problemas e conseguiu convencer o treinador Dusan Kondic, que na na altura era o “timoneiro” principal dos militares. Ao lado de jogadores como Stopirra, Delgado, Neto, Mwanza, Filipe, Pedro, Joãozinho e outros, Vado jogou seis meses apenas, mas teve bons momentos no clube do Rio Seco.“Uma das coisas que mais me impressionaram no 1º de Agosto foi o facto de terem um balneário muito coeso. Não havia ilhas (grupinhos que normalmente fazem muita tagarelice prejudicial) e isto torna um clube muito forte”, disse.


PERGUNTAS E RESPOSTAS


Jornal dos Desportos: Qual é a sua opinião sobre o nível do futebol praticado hoje e no seu tempo?
Vado:
Creio que não existe muita diferença. Hoje ganha-se mais em termos financeiros e há pouca preocupação em se apresentar qualidade. O mais importante é ganhar os jogos e pagar-se bem e isto é mau porque reflecte-se na selecção nacional.

O que acha que deve ser feito para melhorar a qualidade do nosso futebol?
 Acho que se deve oficializar o profissionalismo do futebol angolano. Clubes como 1ºAgosto, Petro de Luanda, Interclube, Maquis, Libolo, Recreativo da Caála, ou quase todas as equipas que disputam o Girabola, são praticamente profissionais. Se este aspecto for oficializado, os níveis de exigência vão aumentar.


POR DENTRO

Nome completo: Jaime Walter de Jesus Tavares Ferreira
Filiação: Humberto Tavares Ferreira e Conceição de Jesus
Local e data de Nascimento: Luanda, aos 12 de Agosto de 1978
Estado Civil: Casado
Filhos: Quatro
Altura: 1,75m
Peso: 80 kg
Calçado: 42
Camisola com que habitualmente jogou: Nº 6 ou 3
Hobby: Ver filmes, ouvir música e ler
Música preferida: Semba
Prato: Uma boa feijoada
Bebida: Cerveja
O que mais teme na vida: A morte
Sobre a mentira: Não, porque não ganho nada mentindo
Defeito: Acho que sou teimoso