Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"O Campeonato ser muito difcil mas o Gabo vai tentar a sorte"

Manuel Rosa - 16 de Outubro, 2009

Embaixador da Repblica dO gabo

Fotografia: Paulo Mulaza

O Gabão apurou-se para a fase final da Taça de África das Nações de Futebol-Orange Angola -2010, pela primeira vez. Acha que é também um potencial candidato ao título?
O meu país nunca esteve em nenhuma fase final de um Campeonato de África das Nações. A selecção gabonesa tem um bom futebol. Em provas anteriores de qualificação foi eliminado por equipas que também jogam muito bem. É verdade que estar no CAN é a pretensão de qualquer selecção. Entretanto, temos que reconhecer que nele estarão grandes equipas e são estas que têm esta pretensão de conquistar o título. Ainda assim, é também intenção do meu país lutar pela conquista do título e acredito que vamos tudo fazer para tal.

Na sua óptica, quais os prováveis potenciais candidatos?
Penso que os Camarões, Angola e Egipto são selecções que possuem um nível de futebol bastante evoluído e podem conquistar o título. Por isso, temos que ter muita precaução quando defrontarmos equipas com este nível de futebol.

O facto de o vosso país ter alguns jogadores a actuarem fora do país é uma mais-valia para a vossa selecção?
Temos jogadores em alguns países, nomeadamente em França, na Turquia e nos Emirados Árabes Unidos. Penso que teremos uma boa selecção que poderá apresentar-se bem no CAN. O futebol é como quem faz uma história e as pessoas podem pensar que hão-de ganhar até ao fim. Entretanto o nível do futebol aumenta à medida que se joga e vai crescendo até se atingirem os objectivos. Tenho a esperança de que o Gabão vai jogar bem, vai fazer uma boa campanha.

Que selecções podem criar algumas dificuldades à vossa?
Há pouco citei alguns países como os Camarões, Angola, Egipto e outros que podem dificultar a vida à selecção do Gabão.

Qual o empenho do seu Governo em prol da participação da vossa selecção?
Tem sido muito difícil, mas temos estado a apoiar Angola no contexto da cooperação entre os dois países. Através desta, nós estamos aqui como embaixador do Gabão e temos tido encontros com o Ministério das Relações Exteriores e feito a análise dos problemas que afectam os nossos países. Temos estado a ver o problema do alojamento durante a chegada das selecções e dos adeptos que virão a Angola.
O alojamento cá, em Luanda, é caro e pode criar alguns problemas. É também preocupante a questão da obtenção de vistos, pelo que, existindo facilidades e condições para as equipas e adeptos haverá muita gente a vir a Angola. Satisfaz-nos ver cá, em Angola, muita gente que venha conhecer a vivência e a cultura dos angolanos, como Angola se desenvolve, como está a se reconstruir, assim como saborear os seus pratos. Será uma razão para que muita gente possa vir a Angola. Por este facto, o Governo deve facilitar a entrada de estrangeiros para que possam saber como o país se está a desenvolver.

O vosso Governo vai criar alguns incentivos materiais e financeiros para o êxito da selecção? 
Não só os futebolistas. Mas todos os gaboneses que vão participar ou estarão presentes nesta competição vão beneficiar de apoios. Nós sabemos que alguns países têm uma reserva de fundos para apoiar a sua selecção nacional, de tal modo que, o nosso Governo também tudo fará para criar as condições que facilitem a selecção a realizar uma prova irrepreensível.

O facto de Angola ser o país organizador é visto já como vencedor?
Angola vai jogar no seu terreno, diante do seu público, nos seus recintos desportivos, por isso, tem vantagens acrescidas em conquistar a taça. Para além de todo o favoritismo que recai sobre Angola, as outras selecções também vêm com a mesma força, dinamismo e determinação para vencer. Entretanto acredito que Angola tem mais probabilidades de vencer esta competição.

Quer com isso dizer que faz fé a máxima segundo a qual quem organiza, vence?
Apenas devo dizer que Angola é favorita, embora possam surgir algumas situações imprevisíveis que façam com que o país perca a taça, pois que, além do favoritismo que se lhe atribui Angola deve ter em conta o potencial técnico-desportivo das selecções dos outros países que estarão na prova. Virão muitas selecções fortes. Isto remete-nos a dizer que Angola deve preparar-se bem se quiser ganhar a taça. Se assim não for, vai encontrar muitas dificuldades.  

"Cristãos terão papel
fundamental"


Reverendo Padre Tomás Maimba, de 32 anos de idade, é um jovem "servo de Deus" colocado na Diocese do Uíje, que assume a sua paixão pelo futebol, que ele acompanha de perto. De facto, nota-se, nas conversas, que é um conhecedor do desporto nacional. Ama os Palancas Negras e promete um apoio moral sem reservas na Taça de África das Nações Angola-Orange 2010. No âmbito desta grande festa que Angola está a preparar cuidadosamente, e com muita responsabilidade, “JD” ouviu este jovem sacerdote católico que, sobre a prova que o país vai acolher, desbobina um discurso frontal e muito realista.

Dentro de alguns dias, Angola será palco de uma grande festa a nível continental… É normal que os cristãos se empenhem para esta aposta?
 Sem dúvidas… Os cristãos angolanos devem ter um papel importantíssimo na Taça de África das Nações Angola Orange-2010. Isto é muito normal, porque a fé cristã é compatível com grandes manifestações culturais. E o desporto, sendo um fenómeno cultural, tem uma relação com a fé cristã. Por isso, não há qualquer problema para o crente participar, activamente, e à sua maneira, neste grande compromisso futebolístico que vai envolver todos os angolanos. Mas atenção: o cristão vai encarar a prova antes de mais como um cidadão, um patriota, pois tudo parte neste prisma: o homem como um ser cultural. O facto de ser cristão não lhe dá qualquer “privilégio” em relação aos demais compatriotas, pelo que deve saber que estaremos perante um facto cultural.
 
Mas o cristão pode orar, pedindo a ajuda de Deus para que Angola conquiste a Taça?
 Nem pensar! Será um erro crasso se os cristãos rezarem nesta perspectiva, pedindo a Deus para que os Palancas Negras saiam vitoriosos do evento. Pessoalmente, condeno esta ideia, que não é muito ortodoxa, pois fazer este tipo de pedidos não é uma atitude correcta. Neste sentido, podemos até questionar que papel Deus vai desempenhar neste contexto. É bom que os cristãos reconheçam esta verdade: Deus não tem nada a ver com a Taça Orange-2010, pois não vai pensar somente nos angolanos, já que o mesmo Deus é também “camaronês”, ghanês, tunisino, etc… Temos de ter cuidado com os pensamentos e com a linguagem: nada de pedir a Deus a vitória dos Palancas Negras, já que o sucesso de cada equipa vai depender dos valores individuais que tem, do seu sistema de jogo, da visão dos treinadores, da organização, e de outras coisas situadas no plano humano. Deus apenas poderá ajudar os jogadores a alcançarem o que merecerão, já que Ele é bom e, ao mesmo tempo, justo. Daí, mais uma razão para encarar a Taça Orange 2010 principalmente como um fenómeno cultural e não religioso, embora Deus “marque” também a sua presença na competição, através dos fiéis.
 
E como prevê a participação dos Palancas Negras?
 Pessoalmente sou optimista quanto à campanha da equipa de todos nós, que actuará em casa. Também é de frisar que ainda é cedo avançar com os prognósticos, pois apenas os primeiros jogos da competição permitirão uma leitura adequada e objectiva sobre a projecção do onze angolano. Se entrar com o pé direito, vai muito longe. Contudo, analisando muito bem a sua preparação e o seu incentivo, não hesito em prever a presença dos Palancas Negras numa das fases mais adiantadas. Mas uma coisa é certíssima: Angola vai passar para a fase seguinte, pelo que não ficará logo na primeira fase. Não passa pela minha cabeção ver a selecção afastada já na etapa inicial, pois a turma de Manuel José tem muitas hipóteses para escrever a sua história: basta qualificar-se para os quartos de final e para chegar à final…

 O povo angolano ganhará com a Taça Orange-2010?
 Directa ou indirectamente, todo o povo angolano, de Cabinda ao Cunene, vai beneficiar de qualquer coisa, pois o país vai ganhar muito, sobretudo com as novas infra-estruturas. Porém, com toda a sinceridade, isto não basta! Porque outras províncias não vão sentir no “coração” as vantagens que a competição vai trazer ao país. Peguemos o exemplo do Uíje: materialmente não ganhará nada. Mas, moralmente, o povo uijense vai sentir algo de especial, pois faz parte deste universo que já está a “ferver” com a competição. As expectativas são enormes, haverá emoções, alegria, festa, etc. E Uíje também participará e sentirá…