Jornal dos Desportos

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Entrevistas

O canhoto do Escola do Zangado

Augusto Fernandes - 10 de Julho, 2012

Loureno Bento, 67 anos, tambm conhecido por Man Pai entre os familiares e amigos

Fotografia: Augusto Fernandes

Lourenço Bento, 67 anos, também conhecido por Man Pai entre os familiares e amigos, foi um grande jogador de futebol nas décadas de 1960 e 70, com uma técnica de fazer inveja a qualquer jogador nos dias de hoje.Imprevisível, com o seu pé esquerdo fabuloso, fazia fintas que deixavam atónitos os adversários e marcava muitos golos de pontapé de canto directo, os chamados golos olímpicos. Com grande poder de imaginação, o antigo camisola 11 do Escola do Zangado, do qual é co-fundador,  foi o inventor do famoso drible “adió”, que ficou na história. 

Contemporâneo de Joaquim Dinis, Pinduca, Mário Santiago, José Eduardo dos Santos, Firmino dias, Jacinto João, Azevedo, Mora, Quim Machado, Luís Cafrique, Oliveira Santos  e tantos outros, foi, em 1962, campeão distrital em juniores pelo Futebol Clube de Luanda e, em 1967, campeão de Angola pelo grupo Desportivo da Sadil. Alguns dos momentos mais altos da sua carreira foram marcados nos célebres torneios Cuca de 1968 a 1972.
 
Lourenço Bento- começou a jogar futebol muito cedo e, em 1953, com 8 anos de idade, já fazia parte dos melhores jogadores do seu bairro, entre eles o Joaquim Dinis, Mora (Muambule), Firmino Dias, Adonai (Mão Curta), Adão Gaspar (Jack Serna), Quim Machado, Luís Sarrabulho, Calabeto, Luís Canjica, os manos Zeca e Ananias Vasconcelos e tantos outros.  “Naquele tempo”, diz Lourenço Bento, “os jogadores mais cotados é que faziam a escolhas dos jogadores. A escolha era feita através do sistema de medição de pés. Cada um ficava num canto e vinham na direcção um do outro e quem pusesse o pé em cima é que escolhia primeiro e normalmente os líderes eram o Mora e o Quim Machado. Das duas equipas, formávamos uma, que jogava contra outros bairros”.

Por norma, “os trumunos eram contra o Bairro Operário, que contava com jogadores como Dionísio Rocha, André Duia, Minguito e outros. O Sambizanga, ali próximo ao Betão Zaire, com  Herculano, Naval, Aleixo, André Ventura, Zito e outros. No bairro Santos, destacava-se o Silvestre (Pelé), Artur, Cafumana, os Manos Lupi e companhia”, diz o nosso interlocutor. Aos 12 anos de idade, Lourenço Bento ingressa no clube mais famoso do Zangado, a então Académica, liderado pelo senhor Toneco Figueira, de cujo plantel já faziam parte jogadores como Ferreira Pinto, Santos Diabo Negro, Pai Lindo da Mamã Lola, Firmino Dias, Novato Pio, Baganha e Oliveira Santos. Além da Académica, havia também o Bangú Futebol Clube, liderado por Mora (irmão mais velho de Joaquim Dinis), do outro lado da estrada.

Em 1959, Lourenço Bento ingressa no Ginásio Futebol Clube do Sambizanga, que tinha como presidente o senhor Franco e tinha no plantel jogadores como Tomás, José Eduardo dos Santos, Pedro Van-Dúnem (Loy), Mário e Zeca Santiago e Brito Sozinho. “Em 1960, empreguei-me na Sical e, além de trabalhador, jogava pela equipa da firma nos jogos amistosos entre empresas. Em 1961, comecei a jogar no Futebol Clube de Luanda, na categoria de juniores, tendo ganho o primeiro campeonato distrital da categoria, com Pinduca, Azevedo (capitão), João Periquito, Marcelo e outros, e um segundo lugar em 1963.

Destes campeonatos, faziam parte equipas como o Ferroviário de Luanda - com Zezinho de Carvalho, Zarga e Mário Divelgle -, o Sporting Clube da Maianga - com Zé Fininho, Xisto Casa piano, Bomba e Juvenal -, o ASA - com Firmino Dias, Armindo, Isaías Capindiça e “muitos outros grandes jogadores daquela época”, recorda.Lourenço Bento diz que a 3 de Fevereiro de 1963 funda-se o então Académica Social Escola do Zangado, resultado da fusão entre o Académica do Zangado e o Bangú Futebol Clube, tornando-se assim no principal clube que representava o bairro Zangado nos jogos entre bairros. No Prenda, havia o Las Palmas, Unidos do Prenda, Académico, Sporting de Quicabo e o Futebol Clube de Ambaca. No Sambizanga, havia o Académica do Ambrizete, os Ases Futebol Clube - de Inguila, Justino Fernandes, Tubarão Pisa e companhia -, o  Benfica e Onze Bravos do Kinzau, Sporting do Musserra, Barreirense da Barra do Dande, Juba. No Bairro Operário, 11 Negros Futebol Clube, Benfica do Machado e Bangú Futebol Clube.

No Nelito Soares, o Benfica do Congo (B) de Cabi Daniel (irmão mais velho de Ndunguidi), pois o Benfica do Congo (A) era dos mais velhos, como João Francisco e Ti Lino (o pai dos manos Ndisso).No Bairro Popular, havia o Brazzaville Futebol Clube, hoje Perdidos na Bola - de Jacinto João, Ninito, Baio e  Gabi. No Rangel, havia o Santos Futebol Clube do Calumbunze - de Filó e Catete -, o Belenenses - de Ginga Zozi, Chimbica e Liquida -, o Oriental de Anduri - de Pedro Pimentel, Antoninho e Aleixo.

“Os jogos entre o Juba e o Escola eram como ver hoje um Barcelona-Real Madrid, devido à classe dos jogadores que representavam os dois emblemas”, afirma o antigo craque, com nostalgia.Em 1967, a Nocal realizou o seu primeiro e ultimo torneio em futebol, que foi conquistado pelo Escola do Zangado, tendo ganho na final aos Perdidos na Bola por 3-1 aos penáltis. Em 1968, a Cuca organiza o seu primeiro torneio, também vencido pela equipa de Lourenço Bento. Nos anos seguintes, o Grupo Desportivo do Cazenga venceu em 1969 e 1971, tendo o Sport de Calumbunze vencido a edição de 1970.

Em 1972, na última edição, o Escola voltou a vencer o torneio.A final de 1972, contra o Cazenga, foi memorável para Lourenço Bento. “Nesta final, o Cazenga tinha vantagem sobre nós e bastava-lhes o empate para vencerem o torneio. Ao contrário, nós tínhamos de vencer por três bolas de diferença se quiséssemos erguer o troféu. * Com João Francisco


TESTEMUNHA OCULAR...

Kituxi do Zangado

O cota José Fortunato, também conhecido por Kituxi do Zangado, do grupo cultural Ilundo, agora com 66 anos de idade, viu o Man Pai jogar muitas vezes e recorda esses tempos nostalgia.“O Lourenço Beto, nas fintas, era comparado ao Dinis. Era de facto um craque que, hoje, eu poderia comparar a um Messi ou Cristiano Ronaldo. Todos nós gostávamos de ver jogar o filho da Tia Constância. Quando ele punha em acção o ‘adió’, era o máximo.Quem levasse um ‘adió’, ficava envergonhado por muito tempo. O rapaz fazia vibrar as multidões. O homem escovava (fintava) feio.”Lourenço Bento pendurou as chuteiras em 1978, tendo o seu Escola do Zangado ficado paralisado cerca de 30 anos, por falta de patrocínios. 

ANTIGA ESTRELA
Responde


Jornal dos Desportos - O que tem a dizer sobre a renovação dos Palanca Negras?
Lourenço Bento - Demorou a ser feita, mas antes tarde do que nunca. Acho que este processo deve ser conduzido por um angolano que conheça bem o nosso futebol e a realidade do país. Pedro Neto devia continuar por mais quatro anos na FAF para dar bom seguimento ao processo que iniciou. Há que dar tempo para que se faça uma grande selecção. Não se deve exigir resultados numa primeira fase.

JD - Que diferenças existem entre o futebol praticado hoje e o do seu tempo?
LB - Gostaria que uma boa parte dos nossos jogadores tivessem, pelo menos, 50 por cento da qualidade técnica dos jogadores do meu tempo, especialmente na finalização, que é o grande calcanhar de Aquiles do nosso futebol.

JD - O Libolo terá pulmão para continuar líder do Girabola até ao fim?
LB - Muito dificilmente. Já estiveram a 11 pontos do 1º de Agosto e agora estão a sete. Faltam mais 45 pontos por discutir e de certeza que eles vão perder muitos pontos como as demais equipas. A ver vamos.

JD - O que se lhe oferece dizer com relação ao Petro de Luanda?
LB - Em minha opinião, o grande problema do Petro está no meio campo, se bem que o ataque também não está a convencer. Têm de rever bem a equipa e fazer mudanças significativas.

JD - Romeu Filemon esta a devolver a mística ao clube militar?

LB - Ele está no bom caminho. Vamos dar-lhe mais tempo, se calhar até ao fim da época.

JD - Quais foram os momentos que mais o marcaram como jogador?
LB - O positivo foi quando dei o show de bola e marquei o golo de calcanhar na final do torneio Cuca, em 1972, e o negativo a morte prematura do nosso guarda-redes André Ventura.

POR DENTRO...
Nome completo:
Lourenço Bento

Filiação: Bento Lourenço Madeira e Constância Marcelino Mateus

Naturalidade e data de nascimento: Luanda, aos 31.09.45

Estado Civil
: Divorciado

Filhos: Sete

Camisola: Habitualmente a número 11

Calçado: 42

Música preferida: Angolana e congolesa

Filme
: Faroeste

Perfume: Prada

Cor preferida: Branca

Bebida: Sumo

Prato preferido: Feijoada

Hooby: Ler e ouvir música

Homossexualismo: Prefiro não comentar

Clube: Escola do Zangado Jogadores que lhe marcara: Justino Fernandes e Nicola Beraldinelli

Religião: Católica