Jornal dos Desportos

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Entrevistas

O Desporto a minha vida

Marcelino Cames-Angop - 09 de Dezembro, 2015

Isabel Major quer a liberdade da mulher na escolha da modalidade desportiva

Fotografia: Jos Cola

Mestre em Psicologia do Desporto é defensora da implementação da prática do desporto na primeira classe, para melhorar o desempenho académico dos alunos A antiga capitã da selecção nacional sénior feminina de basquetebol valoriza a formação contínua para o crescimento desportivo.

Angola celebra 40 anos de existência como país independente. Que avaliação se lhe oferece fazer?
Herdamos um país que não soubemos gerir no passado. Estamos a aprender à medida que ocupamos cargos e desempenhamos as funções. É como um pai e uma mãe. É verdade que aprendemos com os nossos pais, mas só aprendemos de facto a ser pais, quando temos de educar uma criança. E é isto que temos feito ao longo dos 40 anos. Estamos a dar passos, cometemos alguns erros, aprendemos com esses erros e corrigimo-los.
Somos independentes. Construímos muitas coisas, para além das estruturas físicas. Angola hoje é respeitada a nível internacional por causa das posições que toma. Nunca me comparo a quem esteja pior que nós. Comparo-me sempre a quem está melhor. É este desafio que nos permite construir mais e melhor.Paris continua a ser a cidade de sonho para muita gente, mas a minha cidade de sonho é Luanda. Quero que seja também uma cidade de sonho para muita gente, onde as pessoas digam: “quero ir visitar Luanda”.

Que representa para si o desporto?

Entrei no desporto por acaso. E por acaso, fiquei no desporto até hoje. O desporto é uma parte importante da minha vida e que faço com prazer. É saúde e chega a ser em parte, a família. As vivências que temos, marcam a nossa vida, fazemos amigos, colegas de trabalho e mesmo família. No fundo, o desporto é a minha vida. Fiz e tenho feito amizades no desporto como Nelson Ferreira, Manuela Oliveira, Odília Lopes, Joana Adriana, Didi Sebastião, António da Luz, uma pessoa com quem trabalho até hoje, Paulo Jorge, Victorino Cunha, Tony Sofrimento. São muitas pessoas. Corro o risco de esquecê-las. Melhor é ficar por aqui.

Quais são os desafios que se colocam à mulher enquanto desportista?
A mulher é dona de casa, é profissional, é mãe, é conselheira. Para que tenha todo este espaço implica uma compreensão dentro da família. O desporto é uma actividade realizada não só durante os dias úteis da semana laboral, como também aos fins-de-semana. Se não houver este espaço dentro da família, é muito difícil que a mulher consiga singrar em termos desportivos, não só como atleta, mas também como dirigente ou treinadora.

A emancipação da mulher implica a compreensão dentro da família...

Não é a mulher que não é emancipada. O homem precisa de emancipação. Desculpem os homens que vão ter acesso à entrevista. Eles dependem muito do trabalho que a mulher realiza dentro da família. E, por causa disso, a ascensão da mulher na sociedade, muitas vezes é limitada, não por falta de capacidade, mas pela necessidade de desempenhar tantos papéis dentro da família. Em resumo: O excesso de papéis dentro da família limita a ascensão da mulher dentro da sociedade, quer na área desportiva, quer noutra área social.

Pode decifrar o seu pensamento?
Às vezes, mesmo com um marido em casa, ela tem de desempenhar o papel de pai e mãe. É um desafio grande para a mulher. Muito mais, é um desafio para o homem, que lhe exige ser mais companheiro e mais participativo nas actividades a desenvolver pela família.

40 anos depois, a prática do desporto ainda é tabu dentro das famílias? 

Quando a modalidade é aparentemente um pouco mais feminina, as pessoas aceitam-na, mas quando se trata de futebol, já há algum tabu em relação a isso. É importante que se deixe a mulher escolher qual  o desporto que quer praticar, assim como o homem tem a liberdade de escolher. Os pais, os namorados, os maridos e também um pouco a sociedade devem adoptar outra visão sobre a liberdade da mulher na prática do desporto.

Uma palavra de apreço aos angolanos....

O nosso povo é muito generoso. Quero um povo mais ambicioso, mais exigente consigo próprio e com os outros também. Quero que o meu povo (eu digo mesmo, meu povo, porque é assim como me sinto) exija mais dos professores, exija mais das instituições, reclame os seus direitos de forma correcta. Em Angola, temos boas leis e quero que exija que sejam aplicadas e que cumpra com os seus deveres e seus direitos,. Que seja cidadão.

Que implicações tem o desporto com a reabilitação e construção de infra-estruturas sociais?

A construção de estradas é importante, porque permite a deslocação de pessoas. Estrada é comunicação. Por outro lado, temos a cidade de Luanda cheia de prédios. Já temos alguma habitação social. Quero ver cada pessoa no sítio onde se sinta bem. Não importa de onde vim. O importante é aonde vou.

DESPORTO ESCOLAR DEVE COMEÇAR NA BASE

A valorização do professor de Educação Física é fundamental na formação...

Antes de outros nos valorizarem, temos de ser nós próprios de valorizarmo-nos. Posso ter só uma bola de basquetebol ou uma bola de futebol. Sabemos que temos muitos problemas de material desportivo, mas a forma e a minha entrega na aula de educação física tem de ser positiva. Quando vou dar aulas, tenho de estar equipada o melhor possível, tenho de ser pontual e profissional de modo a preparar a minha aula para dar aos alunos aquilo que precisam. Tenho de me preocupar com a minha formação contínua. Esta é a primeira valorização. Depois de fazer o meu trabalho de casa,  vou exigir que os outros me valorizem. Falo também a nível do Ministério da Educação e do Ministério da Juventude e Desportos, que devem valorizar o professor de modo que possa dar a aula nas melhores condições possíveis. É preciso que o espaço onde vi dar a aula, seja o melhor (para o professor e os alunos); que tenha o material necessário para trabalhar e seja valorizado na remuneração pelo trabalho bem feito.

Que avaliação faz do desporto escolar em Angola?

Existe o desporto escolar, mas ainda não é o desporto como queremos. Apesar da sua organização ser a possível, nas escolas há desporto escolar. Os alunos têm aulas de educação física e ouvimos falar da realização e organização de Jogos Nacionais Escolares. Quero mais. Quero desporto nas escolas do I nível; quero que o aluno possa fazer desporto na primeira classe.
Hoje, não temos ainda o número de profissionais necessários para cobrir também as escolas primárias, mas é importante. Hoje, há cada vez menos espaços públicos para a prática desportiva. Não há condições para a realização de jogos pré-desportivos. É importante que a criança na escola primária também tenha acesso às actividades desportivas que vão melhorar, não só o desempenho como um possível desportista no futuro, mas também o seu desempenho académico, uma função que considero fundamental. O desporto melhora a saúde e os níveis de concentração do aluno em qualquer nível de escolaridade.

"Jogos da África Central
é o maior feito em Angola"


Quais são os maiores feitos do desporto nacional em 40 anos de liberdade?

Embora seja algo transversal aquilo que fazemos internamente e o que é feito internacionalmente, os maiores feitos são os resultados alcançados nos últimos anos que permitiram a Angola chegar de forma constante aos Jogos Olímpicos e Paralímpicos, campeonatos mundiais. Falo de conquistas de campeonatos africanos.Angola organizou os Jogos da África Central em 1981. É o maior evento desportivo que o país albergou até hoje, embora já tenha organizado outros campeonatos. Essa foi uma competição multidesportiva que envolveu milhares de pessoas, quer na organização, quer na participação de países.

Quando fala de conquista  refere-se ao basquetebol masculino, andebol feminino e desporto adaptado?

Sim, essencialmente essas modalidades. Temos também o hóquei em patins que tem participado regularmente em campeonatos mundiais, o basquetebol feminino já começou a dar alguns passos e tem participado em algumas competições mundiais, temos a vela, a pesca desportiva, o remo e a canoagem e mesmo o xadrez, que ao longo do tempo também participam em competições mundiais, embora de forma intermitente.

Os resultados obtidos no basquetebol masculino e andebol feminino (11 títulos africanos) justificam o trabalho realizado internamente em Angola?
Justificam, mas é preciso melhorar. A África é a primeira etapa. A segunda é conseguirmos resultados em Campeonatos do Mundo cada vez melhores. E isso implica maior nível organizativo e desenvolvimento desportivo superior do que temos hoje. Se calhar, aí começaríamos por falar já dos desafios que o desporto angolano tem hoje. Por um lado, implica que trabalhemos com mais profissionalismo. Não me referi necessariamente a profissionais a trabalhar de forma integral para o desporto, mas quando trabalhamos como voluntários. Temos de ser responsáveis, íntegros e entregarmo-nos ao trabalho, tal como um profissional. Por outro lado, temos de fazer muita formação.
Admite a existência de fragilidade no desporto nacional...
Quando me refiro que precisamos de formar mais, organizar mais e trabalhar mais, estou a dizer que temos algumas fragilidades. Quero parafrasear o técnico Victorino Cunha: "Precisamos trabalhar mais e melhor”. E para isso, precisamos de formar, entregarmo-nos ao trabalho com mais responsabilidade e profissionalismo.

"Temos muitos problemas no futebol"
Como vê o futebol nacional?

Este ano, o futebol fez duas coisas importantes. Promoveu um curso de treinadores e um seminário. A formação é outro desafio para o futebol. No fundo, é o desafio para o desporto em geral. O futebol é festa. Quando se fala de futebol, todas as pessoas  mostram-se  interessadas. Mas temos de ser realistas, quando falamos de futebol. E nesse realismo também englobo a imprensa que coloca a selecção nos píncaros, quando ganha. Quando perde, coloca-a  abaixo de zero. Isso não é bom.Temos muitos problemas no futebol. Temos problemas na formação dos atletas e não temos os melhores treinadores. Isso estende-se também noutras modalidades. Embora estejamos a construir várias infra-estruturas desportivas, não temos um quadro de instalações que satisfaça as necessidades do nosso desporto. Tudo isso cria dificuldades para termos um futebol melhor. Se por um lado, o desporto é festa, por outro é ciência.  E, se é ciência, temos de começar a trabalhar o nosso futebol como ciência.

Qual é a sua opinião em relação ao jovem angolano?
As pessoas dizem que o jovem angolano está perdido. Eu digo: não! Nesse momento, temos alguns problemas sociais. O jovem angolano não aceita a velha frase “faça o que eu digo e não faças o que eu faço”. Ele quer exemplos e o exemplo não vem da boca, vem das atitudes, vem dos actos e estamos com uma sociedade ainda desestruturada em termos de educação.Saímos há pouco tempo da guerra, apesar de gozarmos alguns anos de paz. Em momento de guerra, perdem-se valores.  E esses só são retomados com exemplos e não com palavras. São as nossas atitudes que fazem a mudança. Podemos falar muito, mas o que os nossos filhos aprendem é aquilo que praticamos; falamos muito dos jovens, mas quem educa esses jovens somos nós. Então, algum exemplo nós não estamos a dar. Temos de ser mais verdadeiros e íntegros nas nossas atitudes. Isso é o que vai fazer com que os nossos jovens mudem.

Diante deste quadro, qual é a sua expectativa?
Esta frase não é minha: “Que cada um de nós seja a mudança que quer ver na nossa sociedade”. Que haja paz, mas que venha de dentro e não uma paz exterior. É preciso pacificar os nossos corações e só os pacificamos quando considerarmos como irmãos todos à nossa volta. Quero ver uma Angola cada vez mais em paz e desenvolvida e que esse desenvolvimento envolva o povo angolano.

PERFIL
Nome: Isabel Generosa da Silva Major Neto
Nascimento: 12 de Dezembro de 1962
Estado Civil: Solteira
Naturalidade: Luanda
Nacionalidade: Angolana
Línguas: Português, francês, alemão, inglês (em estudo)
Formação académica e profissional
Frequência do 4º ano do curso de Desporto e Educação Física, opção Desporto de Rendimento - Basquetebol (Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, FADE-UP – Portugal);
Mestrado em Psicologia do Desporto (Escola Superior Alemã de Cultura Física - Deutsch Hochschule für Körperkultur - DHfK, em Leipzig - Alemanha).
Curso Médio de Educação Física (Instituto Normal de Educação Física)
Educação profissional
Curso para Dirigentes Desportivos da Solidariedade Olímpica
Curso de Treinadores Estagiários de Basquetebol
Experiência profissional
2010-Coordenadora do Secretariado da Comissão Executiva Preparatória da Participação de Angola nas Competições Internacionais;
2008-Vice-presidente para o Futebol Feminino da Associação Provincial de Futebol de Luanda;
2012/14-Secretária geral da Federação Angolana de Basquetebol
2010-Coordenadora de Transportes da Missão Desportiva Angolana aos IV Jogos da Zona VI SADC, na Swazilândia
2010-Chefe de Delegação do Ténis aos Jogos da CPLP - Maputo -Moçambique
2009/10-Coordenadora Adjunta da Comissão de Gestão da Federação Angolana de Ténis
2004/05-Treinadora Adjunta de Basquetebol de Juniores Masculinos do Académico Futebol Clube  Porto -Portugal
2004-Agente Informativa durante o Campeonato Europeu 2004, no Metro do Porto -Portugal
2003/04-Treinadora Adjunta de Basquetebol de Cadetes Masculinos do Académico Futebol Clube Porto -Portugal