Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"O estado do andebol lastimvel no Bi"

Jos Chaves - 31 de Outubro, 2009

Afonso Tiago Tchingui apela coordenao do desporto de alto rendimento e de lazer

Fotografia: Jornal dos Desportos

Como caracteriza o estado actual do andebol na província do Bié?
O estado do andebol é lastimável. É necessário que os órgãos de direito na província tomem medidas para alterar o actual quadro, apostar sério na massificação para recuperar o tempo perdido.

Que medidas concretas se devem adoptar para se tirar a modalidade do estado “lastimável”?
Primeiro: é preciso criar as condições humanas, porque sem esta matéria não é possível concretizar os objectivos que se pretendem atingir. A inserção do andebol nas escolas é outro passo a seguir; a reactivação da modalidade nos principais clubes da região é, sem sombra de dúvidas, um passo que deve ser dado nos próximos dias.

Quais são as principais dificuldades que atravessa o andebol no Bié?
A falta de material desportivo e de meios financeiros têm sido a principal dificuldade dos clubes. É necessário investir sério no desporto, em particular, na modalidade de andebol. Os apoios não podem ser limitados à vertente material, é preciso alimentação, saúde, entre outros.

Qualquer investimento exige retorno. Que política se deve adoptar para o crescimento do andebol no Bié?
O mundo actual está a desenvolver-se numa grande escala e o desporto é uma das áreas que também não foge à regra; investindo no desporto pode se ganhar bastante, não só no lado financeiro, mas também humano. O nosso país sofreu bastante com a guerra fratricida e o desporto é um veículo para se recuperar os valores morais da sociedade. Por este motivo, o Estado e a Sociedade Civil, em geral, devem participar activamente no desenvolvimento do andebol.

A falta de investimentos é o único obstáculo ao crescimento do andebol na província?
Não. Há outro pormenor a que muitas pessoas não dão importância que se resume na formação de monitores e de treinadores. É preciso investir no homem para se desenvolver qualquer actividade.
Quantos técnicos existem na cidade do Kuito para ensinar o ABC do andebol?
Este é uma das grandes dificuldades que vive o andebol local. Actualmente, o Bié dispõe de três técnicos que têm estado a fazer das “tripas coração”. Os três técnicos fazem assessoria técnica a todos os atletas.

O que está a ser feito para inverter esse quadro?
Depois do ‘clinic’ de actualização que os monitores beneficiaram, vamos propor à Federação Angolana de Andebol para que promova uma acção formativa de treinadores e de árbitros. Acredito que os membros da federação acataram a nossa preocupação.

Qual é a perspectiva do andebol bieno?
Se apostarmos na massificação, dando apoio aos clubes e aos núcleos, o andebol vai recuperar o seu lugar que outrora já havia granjeado. É urgente criar as bases sólidas para a projectar, porque a província tem muita matéria humana e algumas infra-estruturas; é preciso trabalhar essa matéria.

À margem do evento, realizou-se um ‘clinic’, conforme afirmou. Que benefícios teve a província?
Algo muito bem pensado e planeado pela Federação Angolana de Andebol. Numa só sentada, foram refrescados os treinadores existentes e capacitaram novos treinadores, principalmente, da nossa província. Os monitores dos diferentes municípios, que participaram na acção de formação, vão poder massificar a modalidade no interior da província. Temos a plena e total confiança no Governo da Província do Bié que deve ajudar no processo de desenvolvimento do andebol, fazendo com que a região tenha outra imagem no futuro.

Quando é que os agentes desportivos levam o andebol ao interior da província?
Até ao fim do ano corrente, vamos ter vários núcleos nos diferentes municípios. Devo afirmar que o município do Andulo já possui um núcleo que pertence ao Instituto Médio Agrário. A Associação Provincial de Andebol está empenhada em expandi-la em todos os cantos da província. É de salientar que a Federação também está interessada nesse projecto.

Existem talentos que podem despontar para os grandes clubes do país?
Acredito que sim. A província tem muitos valores. Agora, é preciso trabalhar para os descobrir, porque se encontram espalhados nessa zona do país.

A nível pessoal, que projectos tem em carteira?
(Risos). Tenho um projecto que se circunscreve na abertura de uma escola de andebol para crianças com idades compreendida entre oito e dez anos; quero contribuir para a reactivação da modalidade no Kuito. De momento, estou à procura de apoios para levar avante o projecto. Vou continuar a trabalhar para desenvolver a modalidade na província. Apesar das grandes dificuldades, estou disposto a levar o barco a um bom porto. Acredito em melhores dias.

Pelo quadro descrito, é necessário muito trabalho para se tirar o andebol do marasmo em que se encontra?
É preciso coordenar (desporto de alta competição e desporto de lazer) e dar prioridade à massificação nas escolas do primeiro e segundo ciclos, nos clubes existentes no Kuito e noutros municípios da província, a partir dos oito anos de idade. A construção de campos para a prática de andebol é imprescindível.

Como estão servidos de infra-estruturas desportivas?
Na cidade do Kuito, estamos bem servidos. Temos o pavilhão gimnodesportivo do Sporting (reabilitado e equipado com material de última geração), o Governo provincial cedeu dois campos polivalentes localizado no PUNIV “Ndunduma” do Kuito à Associação de Andebol. O Clube Vitória Atlético também ganhou, recentemente, um campo polivalente. Noutras localidades, o Governo tem reabilitado alguns campos.

Apostar no desporto
faculta a adesão dos jovens

Vinte e três anos depois da província do Bié ter albergado os últimos campeonatos nacionais na categoria de juniores, em ambos os sexos, que sensação teve?
Foi uma sensação indescritível, quase que não contive as lágrimas. A província do Bié, durante toda a década de 80, acolheu os campeonatos nacionais de diferentes modalidades. O regresso de um campeonato nacional foi um grande evento, que veio contribuir para desanuviar as mentes desse povo que tanto gosta de desporto; de um povo que, num passado recente, esteve privado desse maravilhoso fenómeno. As provas estão registadas em diferentes imagens. O pavilhão gimnodesportivo do Sporting do Bié sempre esteve lotado durante a realização dos jogos; pessoas de todas as faixas etárias acorriam ao recinto; foi maravilhoso.

Que benefícios trouxe à província a realização dos campeonatos nacionais no passado mês de Setembro?
Trouxe grandes e muitos benefícios, sobretudo, na cidade do Kuito, mormente, o despertar da modalidade no seio da juventude e não só; a formação de técnicos de andebol de vários municípios da província; beneficiou os empresários do ramo hoteleiro, turístico e cultural, bem como algumas infra-estruturas foram recuperadas. Foi uma mais-valia para a província do Bié.

No ano passado, o Bié albergou os IV Jogos Nacionais Escolares. Que proveito teve o andebol?
Posso afirmar que do ponto de vista de matéria humana e de infra-estruturas, o andebol ganhou bastante. Agora, é necessário inserir esses jovens nos clubes para darem continuidade ao projecto. A província do Bié tem alguma tradição nessa modalidade.
O Misto do Bié participou, recentemente, do campeonato nacional realizado na cidade do Kuito. Que avaliação faz da sua prestação?
A participação foi razoável de acordo com as condições impostas na preparação da equipa até ao certame; é um campeonato de alta competição e fizemos o possível.

A equipa apresentou-se com bastantes problemas físicos. Quanto tempo de preparação teve o conjunto?
A equipa treina apenas há sete meses. Com este tempo de trabalho não é possível competir em pé de igualdade com as restantes equipas, porque têm maior carga de treino e maior rodagem competitiva; não é possível alcançar objectivos, quando não existe condições de trabalho, designadamente, campos em condições, bolas, equipamentos, alimentação e outros; nada se pode exigir dos jogadores senão a sua boa vontade em participar. As condições à nossa disposição existem graças ao Victor Essuvi Quessongo, presidente da Associação Provincial de Andebol do Bié.

Que factores concretos contribuíram para o fracasso do Misto do Bié na competição?
Previa uma preparação com condições mínimas que uma equipa pode ter para um campeonato de alto rendimento. Infelizmente, não a tivemos.

No aspecto técnico, quais foram as principais debilidades apresentada?
A defesa e o contra-ataque claudicaram. Se quisermos melhorar a nossa performance nos próximos tempos, preciso de trabalhar muito nesses dois aspectos.

Durante a vossa preparação, tiveram jogos de controlo para verificar o nível de competitividade da equipa?
Não. Esse foi também um dos grandes “handicaps”. Apenas realizámos alguns jogos com equipas amadoras. A falta de competição na região foi fundamental na prestação da equipa.

Quantos atletas compõem o Misto do Bié?
A equipa é composta por 23 atletas.

Depois de dez anos sem participar nas competições de índole nacional, Bié aparece a competir no maior escalão. De onde vêm esses atletas?
Alguns jogadores já competiram nos campeonatos nacionais de juvenis e os restantes têm apenas experiência dos jogos escolares. Os jogos escolares são um contributo para o desenvolvimento do desporto.
Qual é o estado anímico e psicológico da equipa depois de terem alcançado o último lugar do campeonato nacional?
A equipa técnica e os jogadores já previam esse lugar, em função das condições de trabalho que nos foram impostas; sabíamos de antemão o tipo de competição que havíamos de encarar.

A equipa vai ser extinta ou vai continuar a trabalhar?
A rapaziada está moralizada e gosta de praticar o andebol. A equipa técnica e os jogadores, todos juntos, vão continuar a trabalhar, apesar do grande sacrifício que temos de fazer.

O Misto de Bié tem apoio das autoridades desportivas locais?
Não tem. Não é que não existe, mas diríamos por falta de coordenação ou de prioridade a escolher. Quando assim acontece, existem graves consequências, sobretudo, no desporto de alta competição. Esperamos que o órgão de tutela melhore para o bem do desporto na nossa província. O desporto é uma área em que se deve apostar para permitir a adesão da juventude a esse fenómeno, retirando-a da má conduta.

Quais são os próximos passos?
Massificar o andebol a todos os níveis (masculinos e femininos) para termos frutos dentro de cinco ou seis anos. A equipa sénior manter-se-á com muito trabalho de base e prevemos intercâmbio provinciais para endurecer a sua habilidade. Caso haja melhoria das condições de trabalho que permitam aos atletas um aturado treino, arrancaremos imediatamente a labuta. O nosso objectivo é que no próximo compromisso a nossa participação seja melhor do que a da estreia.