Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"O estado do futebol na província é desolador"

Sérgio Dias, em Malanje - 06 de Junho, 2010

Mário Machado, presidente da Associação Provincial de Futebol de Malanje

Fotografia: Eduardo da Cunha

Em termos gerais, como caracteriza o actual quadro do futebol em Malanje? O estado do futebol na nossa província, nesse preciso momento, é medíocre. Passamos por grandes dificuldades e não se regista o desenvolvimento que esperávamos. Penso que, cada ano que passa, o nosso futebol decai cada vez mais. Na minha óptica, esta situação prende-se, fundamentalmente, com o facto de não termos infra-estruturas desportivas apropriadas para tal. Malanje, há cerca de quatro anos, tinha três campos de futebol, mas, hoje, tem apenas um. Daí cremos que esta seja uma das situações que faça com que o "desporto-rei" esteja emperrado, aliado ao facto de não existir apoio da sociedade, dos empresários locais e do próprio governo, que tem a responsabilidade de massificar o futebol jovem.Estes factores justificam o fraco ascendente do futebol na província?Exactamente. Tudo isso agrava-se ainda mais pelo facto de a Associação Provincial de Futebol de Malanje se debater com grandes dificuldades, quer no capítulo financeiro quer de ordem organizativa. A descapitalização dos clubes é também outro agravante. São factores negativos, que justificam o fraco ascendente do futebol na província, assim como de outras modalidades. Que alternativas a associação traça para inverter o actual estado das coisas? Sem dinheiro nada se pode fazer. Já tentaram estabelecer parceria com algumas instituições privadas ou estatais?Não temos de procurar parcerias. Não compete ao órgão que dirijo as buscar, já que o governo é o principal parceiro da Associação Provincial de Futebol. Só há associação quando existem clubes e, em contrapartida, estes só existem quando existe, igualmente, uma associação. Isto deve ser uma política do Estado, pois, repito, sem dinheiro nada se pode fazer. O Estado é que tem de traçar uma estratégia em prol do desenvolvimento do futebol, pois esta modalidade e o desporto, de forma geral, cativam a juventude. A prática desportiva ajuda a livrar esta franja da sociedade de actos menos correctos. O Estado tem uma palavra a dizer no meio de tudo isso, pois as várias associações provinciais, quer de futebol quer de outras modalidades, se deparam nesse momento como imensas dificuldades no aspecto financeiro, de infra-estruturas, de organização, entre outras. Uma associação, como a de futebol, que não tem qualquer verba ou orçamento, só pode trabalhar com a boa vontade dos seus responsáveis. É isso o que estamos a fazer. Resumindo em poucas palavras, o que diria?O futebol malanjino está abandonado. Estamos muito mal; vamos de mal a pior e só uma mão milagrosa voltaria a colocar a modalidade no patamar que havia conquistado e onde merece estar. "Precisamos de um movimento futebolístico mais activo" O actual estado do futebol não belisca a imagem do país, sobretudo depois de Angola albergar, de forma exemplar, a Taça de África das Nações de Futebol neste ano?Realmente belisca a imagem do nosso desporto e do futebol, em particular, sobretudo pela recente organização exemplar da Taça de África das Nações Oranje Angola-2010. Verdade seja dita, ela não aconteceu em todas as províncias do país. Estamos a pouco mais de 400 quilómetros de Luanda e, se de facto tivéssemos um movimento mais activo na nossa província em termos de futebol, naturalmente poderíamos ser mais bem sucedidos. Em suma, precisamos de uma movimentação mais activa do futebol em MalanjeComo a província se associou à última festa do futebol africano?Trabalhamos em parceria com a coordenação do Movimento Nacional Espontâneo (MNE) a nível da província. Manifestamos o nosso interesse a este organismo para que, de facto, os malanjinos transmitissem o seu calor ao Campeonato Africano das Nações, organizando uma claque de apoiantes que se deslocou a província da Huíla, sede do Grupo D da competição, composto pelas selecções nacionais dos Camarões, da Tunísia, do Gabão e da Zâmbia. Já fui embaixador de Malanje em várias cimeiras desta prova, com realce para a realizada no Egipto e no Ghana, nas quais levei cartazes da província. Aliás, o que simboliza a nossa selecção é a palanca negra gigante, animal que existe exclusivamente em Malange. Que diz sobre o Girabairro?No  que toca a esta prova não temos tido problemas de maior. No ano transacto, a competição foi disputada por doze equipas. É que o Girabairro pode ser disputado em qualquer recinto, desde que hajam as mínimas condições para o efeito. Classe feminina de mal a pior O que diz sobre o futebol feminino na província?Há alguns anos, o futebol feminino dava ar da sua graça na nossa província. Em 2008, usamos algumas influências e conseguimos trazer a Malanje o Torneio Internacional da COSAFA. Participamos em vários campeonatos nacionais de futebol feminino, mas, lamentavelmente, não houve contrapartida em termos de apoio por parte das estruturas de direito. Enfim, o futebol feminino carece de apoio das estruturas de direito, pois, como se diz numa velha máxima, \"não se pode fazer omoletas sem ovos". É por essa razão que, em 2009, Malanje não organizou o campeonato provincial e nem participou no \"nacional\" feminino. A falta de campos na província também estorva o desenvolvimento do futebol feminino, na sede provincial, facto que levou a disputar a última edição do "provincial" em Cangandala. Explique-se melhor…Dada a onda de dificuldades com que se debate o organismo que dirijo, em muitos casos, a alternativa encontrada tem sido usar de algumas influências e patrocínios para a aquisição de material como bolas e outros equipamentos para levantar o moral da juventude, contactando este e aquele técnico para trabalhar com os escalões de formação, o sustentáculo dos seniores. Enfim, procuramos auxiliar esta e aquela equipa federada em termos administrativo, como o envio de documentos para Luanda. Resumidamente, estamos a trabalhar a volta de 20 por cento, quando deveríamos estar a pelo menos 50. Como vê, não temos alternativas porque o nosso maior parceiro é o Estado. Enquanto o Estado não nos estender a mão continuaremos nesta senda, até ver aonde a coisa pára. É a falta de apoio que impede a expansão do futebol feminino?Exactamente. A falta de apoios dificulta a expansão do futebol feminino, pois a questão não passa muito pelos dinheiros. Precisamos de transporte para as equipas e outras ajudas para a descoberta de talentos nos municípios, como Cangandala, onde há equipas fortes, isto para juntar o útil ao agradável. Não havendo ajuda, só nos restará parar com as actividades na classe.