Jornal dos Desportos

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Entrevistas

O "eterno vice" da São Silvestre

João Francisco - On-line - 15 de Março, 2013

António João Andrade antigo fundista pós-Independência

Fotografia: Nuno Flash

António João Andrade, 57 anos, é um dos mais antigos “embaixadores” do Atletismo angolano após a Independência. Na São Silvestre de 1975 ficou em segundo lugar, atrás do moçambicano José Muhango, e em 1976 e 1977 ficou de novo em segundo lugar, atrás dos russos Vassily Ivaneko e Serguei Usipov, respectivamente.

Em 1978 não houve São Silvestre e Andrade voltou em 1979 a ser “medalha de prata”, atrás do juguslavo With. 
O atleta começou a baixar o seu palmarés em 1980, quando fica na terceira posição, atrás do angolano radicado em Portugal, Bernardo Manuel, numa das primeiras vitórias do etíope Guirma. Nesta edição, Mota Gomes, outro angolano da geração de António Andrade, ficou na quarta posição.  

Andrade era também um dos rostos mais visíveis no Atletismo, sempre que Angola se fazia representar em efemérides no continente, como aconteceu nas comemorações da Independência de São Tomé e Príncipe, de 12 de Julho de 1979, em que o fundista venceu a prova de 12,5 quilómetros entre Porto Alegre e o Estádio Nacional “12 de Julho”.

Nas comemorações da Independência de São Tomé e Príncipe, Angola fez-se representar por uma selecção de futebol, onde os rostos mais visíveis eram o guarda-redes Napoleão e o avançado Joaquim Dinis, acabado de chegar de Portugal. António Andrade recorda aquele dia como se fosse hoje. O antigo atleta foi o único “embaixador” do Atletismo angolano presente.

“Quando cheguei a São Tomé e Príncipe disse a todos que estava ali para ganhar e cumpri a promessa diante de 11 países da África Central que compunham a zona IV, de que Angola fazia parte. Mais tarde, as autoridades desportivas angolanas, na altura encabeçadas pelo ministro dos Desportos, Justino Fernandes, solicitaram ao Conselho Superior do Desporto em África a mudança, que se mantém até hoje, para a Zona VI (Austral)”, afirmou.

O fundista começou a carreira desportiva quando tinha 13 anos, no Clube Ferroviário, afecto ao Caminho-de-Ferro de Luanda, praticando o Futebol.
“O meu amigo Toni Ferreira, que foi também jogador do Benfica de Luanda, convidou-me para jogar futebol no Clube Ferroviário, onde cheguei a efectuar alguns jogos em 1969, quando ainda era juvenil. Mas foi no Atletismo que comecei a notabilizar-me naquele clube, como mini cadete”, disse.
António Andrade fez questão de sublinhar que começou a praticar Atletismo muito antes do tempo do primeiro presidente da Federação Angolana de Atletismo, Augusto Armindo Fortes, em 1976 e em cujo elenco também se destacava o vice-presidente Mário Torres, nos anos considerados dourados da modalidade, que se prolongou até 1985.

MEMÓRIAS
Conquista de dezenas de medalhas
nos Primeiros Jogos da África Central


António Andrade recorda que “nos primeiros jogos, que decorreram na segunda quinzena de Junho de 1980 em Brazzaville, de cuja delegação fiz parte, o seleccionador nacional foi o malogrado Matos Fernandes e o chefe da Missão angolana Rui Vieira Mingas, então Secretário de Estado de Educação Física e Desportos”.
“Fizeram ainda parte daquela famosa Selecção Nacional de Atletismo, Alfredo Melão, Mota Gomes, Orlando Bonifácio, Rubem Pedro “Chipopa”, Lisdália Rodrigues, Filomena Maurício, Gertrudes Sepúlveda ‘Gégé’, Rosa Neves, Bernardo João, João Arsénio, Hugo Vaz Ferreira (falecido), só para recordar alguns atletas de uma geração de ouro”, disse.
António Andrade disse que naquela competição, a delegação angolana de Atletismo conquistou 35 medalhas em várias especialidades. Alfredo Melão no salto em comprimento e triplo salto, Ruben Pedro (nos 100 e 200 metros), Mota Gomes (nos 400 e 800 metros) conquistaram o ouro. Outras medalhas foram obtidas por Alberto Paquete, Filomena Maurício, Filomena Silva (no lançamento de dardo), só para citar alguns medalhistas.

Vencedor
da maratona


Naqueles Jogos da África Central, António Andrade competiu na maratona e nos dez e cinco mil metros, tendo conquistado, respectivamente, as medalhas de ouro, prata e bronze. “Na maratona, aconteceu-me um incidente insólito: tive que parar por uma necessidade fisiológica. Retomei a prova e acabei por vencer, ultrapassando os adversários ao sprint na ponta final”, conta. 

Andrade influenciou decisivamente na carreira dos únicos angolanos a vencerem edições da São Silvestre de Luanda após a Independência, como os fundistas João N´Tyamba (duas edições) e Aurélio Mitty (uma), chegando mesmo a treinar os dois corredores e outros, como Delfim Pimentel, Artur Santiago, Isaías Ngola e Ernesto José. António Andrade participa regularmente em competições oficiais, embora nos últimos anos, mais por recreação.

TRAJECTÓRIA
Transferência
para o 1º de Agosto

Em 1978, António Andrade, devido aos imperativos do cumprimento do serviço militar obrigatório, transfere-se para o 1º de Agosto, agremiação que na altura estava sob a égide do CODENM (Comité Desportivo Nacional Militar), presidido pelo General António dos Santos França “Ndalu”. 
Naquela altura, o maratonista angolano participava em todas as competições do leste europeu, passando pelos Jogos do SKDA, realizados nos finais dos anos 70 e princípios de 80 em Moscovo, Sofia (Bulgária), Budapeste (Hungria), Varsóvia (Polónia), entre outros. Também participou em competições em Havana (Cuba).


PING PONG
“Naquele tempo era
 amor à camisola”


Jornal dos Desportos - O que é o Atletismo para si?
António Andrade – É um desporto que ajuda a melhorar a saúde. É praticamente o desporto-rei das modalidades individuais, a par da Ginástica.

Como era o Atletismo no seu tempo?
Há muitas diferenças em relação ao praticado agora. Havia mais adesão e aproximação da sociedade civil. Praticávamos a modalidade “por amor à camisola”. Actualmente, os praticantes têm muitos vícios. Se não estivermos atentos, os princípios que devem nortear um bom praticante vão degradar-se cada vez mais. No meu tempo, havia todas as especialidades do Atletismo, desde as corridas ao lançamento de dardo. Hoje, competição só existe na São Silvestre, que para nós era o corolário de uma época de actividades regulares em todas as especialidades da modalidade.

O que é necessário para o Atletismo regressar aos seus bons velhos tempos? 
É necessário que o Ministério da Juventude e Desportos (Minjud) deixe de interferir no desenvolvimento do Associativismo desportivo. O Executivo não pode impor as “regras do jogo”, tem apenas que controlar e orientar.

Por que diz isso?
Porque um alto funcionário do Ministério chegou a impedir a minha tomada de posse como primeiro vogal de Direção na lista da Federação Angolana de Atletismo, encabeçada por José Paim, em 1996, alegando comportamento “indecoroso”, sem motivo aparente da minha parte, quando tinha sido eleito democraticamente pelos associados.
Este é só um exemplo. Como o meu existem muitos. Tem havido ingerência directa de funcionários seniores do Minjud nas eleições das Associações desportivas. Temos alertado sempre que acontecem estas interferências. Isso não é novidade para ninguém.

Quais são as suas ambições no atletismo?
Ser presidente de uma associação desportiva.
Tem esperança de vir a ser presidente da FAA?
Quem sabe, antes de eu morrer.

O que faz actualmente?
Sou funcionário da Sonagalp (filial da Sonangol Distribuidora), onde exerço actividade administrativa. Sou igualmente, desde 1983, coordenador da Comissão de Moradores do edifício junto à esplanada Pinto’s. Sou o primeiro secretário do CAP nº 57 (Coqueiros) do MPLA.


PERFIL

Nome completo:
António João Andrade
Filiação: João Andrade e Joana Ribeiro Cassange
Naturalidade e data de nascimento: Cazenga (Luanda), aos 4 de Abril de 1959
Estado Civil: Solteiro
Filhos: Uma
Altura: 1,64 m
Peso: 56 kg
Cor preferida: Vermelho
Hobbies: Trabalhar no associativismo
Prato: Funge de Bombó com verduras e peixe frito
Perfume: Pierre Cardin
Bebida: Gasosa e sumos
O que mais teme na vida: A morte
Recorre à mentira: Não gosto
Clube do coração: Ferroviário de Angola