Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

O executivo não vai tolerar abusos de liderança nos clubes

Júlio Gaiano, no Lobito - 17 de Julho, 2010

Alberto Ngongo, Chefe de Repartição de Assuntos Sociais

Fotografia: Jesus Silva

Qual é a realidade da actividade desportiva no município do Lobito, mormente, o desporto federado e não federado? É por de mais sabido que o município do Lobito já foi considerado pelos “experts” da matéria como um dos maiores pólos do desporto nacional. E como não podia deixar de ser, assim está a ser feito a nível da estrutura do executivo e das demais áreas da sociedade sócio-cultural e desportiva do município o resgate da mística que se perdeu com o tempo. É um trabalho aturado e sério. Brevemente, estou certo que alcançaremos as metas traçadas. Asseguro-vos que estamos no bom caminho. O desporto no município do Lobito, em toda a sua vertente, está bem e com a certeza de que pode melhorar ainda mais nos próximos dois anos. Este é, de certeza, o ponto de vista da vossa actuação. A verdade, porém, é que continuamos a assistir ao crescente índice de desorganização nas direcções de alguns clubes com fortes tradições na cultura desportiva do município…Este é o vosso reparo e de outros críticos da praça local. Constatamos o contrário. Atenção! Não é lógico fazer das divergências uma questão de celeuma que chega ao ponto de descaracterizar a funcionalidade de uma direcção clubista. Eventualmente, podemos constatar num determinado clube reivindicações, em que os atletas saem a público para manifestar contra esse ou aquele dirigente (seja o presidente, director ou um outro responsável). Acredito que, este reparo esteja associado aos recentes acontecimentos que se deram na Académica do Lobito e que precipitou no afastamento “inoportuna” do seu presidente. Foi triste, reconheço, mas não é por aí que devemos assentar o nosso juízo, até porque, a massa associativa daquela agremiação desportiva tratou de repor a ordem na casa e elegeu, em Assembleia-geral extraordinária, uma nova direcção liderada pelo jurista José Bento Cangombe. O que lhe parece a actuação da nova direcção da Académica do Lobito, saída de uma eleição, que para muitos, foi injusta, a julgar pela forma como decorreu o pleito, no qual grande parte dos eleitores (cerca de 90 por cento) foram os próprios candidatos à liderança do grémio? Discordo categoricamente consigo. Ou seja, não tem nada de verdade que a nova direcção da Académica do Lobito é resultado de uma auto-eleição exercida pela maioria dos seus dirigentes. Na qualidade de representante do Ministério da Juventude e Desportos, presenciei o acto e pude testemunhar a afluência de sócios e de adeptos na Assembleia-geral. Se fosse verdade, o que acabas de frisar, teríamos impugnado o acto e dar como nulo o processo em si. A ausência do então presidente Paulo Rangel e do coordenador da Comissão de Gestão Toni Costa na aludida Assembleia-geral não lhe diz nada?Dizer ou não sobre isso ou aquilo não é o mais relevante numa altura em que se precisa de uma instituição forte com homens certos para os lugares certos. Agora, o que motivou a ausência dessas duas figuras do desporto da província caberá aos dirigentes e aos sócios analisarem e, em foro próprio, estudarem as formas para os manter no seu convívio. São pessoas com carismas próprias na vida desportiva tanto no município, na província, como no país. Por isso, podem ser úteis para os interesses do clube que tudo faz para se reerguer das causticidades. Da nossa parte caberá observar e agir ali, onde formos chamados, como sucedeu no passado. O contrário, considero pura intromissão em assuntos internos de uma instituição legal, como é caso da Académica do Lobito. "Paraquedistas" com dias contados O que se lhe oferece dizer sobre a gestão de clubes locais, cujas direcções estão em constante divergências com os sócios?Já esteve pior. Nos últimos tempos, as coisas estão a mudar para melhor. Ainda assim, temos notado com alguma preocupação que existem dirigentes com dificuldades de mudar. Ou seja, estão distraídos. Por isso, sem se darem por conta, perdem-se no tempo e no espaço. Continuam a incorrer em práticas que em nada os dignificam. Da parte do executivo, de que fazemos parte, não se vai tolerar mais este tipo de comportamento. Aos prevaricadores, ser-lhes-ão responsabilizados pela lei em vigor à luz da Lei Constitucional da República de Angola. Quer com isto dizer que para o executivo municipal os "paraquedistas" no desporto estão com os dias contados?Repito: o executivo não vai tolerar abusos de liderança nos clubes. O executivo compromete-se a apoiar os clubes e outras actividades de âmbito desportivo e, em contrapartida, exigirá resultados palpáveis para aquilo que nos foi solicitado. Isso implicará responsabilizar os homens pelos eventuais fracassos, o que vale dizer que o tempo dos paraquedistas no desporto está no fim. Ou seja, ninguém estará acima da lei. Quem não honrar os compromissos vai receber o devido tratamento que pode resultar em cadeia.Em conversa com alguns dirigentes desportivos do município, pude aperceber-me que os insucessos da maioria dos clubes estão ligados a inactividade dos sócios que se furtam do cumprimento dos seus programas. Não pagam as suas quotas e os apoios que os clubes recebem de empresas patrocinadores servem apenas para pagar salários com os atletas, técnicos e funcionários administrativos. Existe alguma concordância nesses argumentos?Assunto como este é por de mais conhecido. É um problema que a nível do executivo, nomeadamente, a Administração Municipal do Lobito, continua a ser debatido, instando as direcções dos clubes a criar fontes alternativas de forma que o clube não viva somente de (pequenos) apoios que recebem de empresas patrocinadoras. É claro que os clubes não têm apoios dos sócios, e como senão bastasse, estes exigem dos seus dirigentes transparência na gestão dos fundos financeiros. A este tipo de comportamento, poderia considerar como uma autêntica aberração se levarmos em linhas de conta o seu papel nos clubes. Mas, o grande problema é que existem clubes que, por força dos apoios que recebem de empresas e de outras entidades singulares, passaram a abdicar-se da acção dos sócios. Inclusive, conhecemos clubes que apenas admitem sócios, pessoas ligadas à empresa patrocinadora, o que é contra as regras do Associativismo no Desporto. E para o desagrado de todos, é que até os ditos sócios carecem de um cadastramento oficial de forma a saber-se o número real e quantos pagam as quotas. Por isso, considero esses argumentos como um falso problem e próprio de quem é se sente alheio no cargo que lhe foi confiado em Assembleia-geral. Neste caso, o senhor comunga com as afirmações, segundo as quais, existem mais adeptos que sócios em clubes lobitangas?Este é um fenómeno complicado e tanto quanto preocupante. Mas, não devemos ficar de braços cruzados e ver as coisas a acontecerem sem que movamos alguma palha para inverter o quadro. Os adeptos são bem-vindos; transmitem outra vivacidade ao clube, aos atletas e aos técnicos, sobretudo, em momentos de aflição. Esse apoio que transmitem é afectiva, o que não deixa de ser positivo. Contudo, mais do que isto, os apoios materiais devem merecer a primazia, já que os clubes têm compromissos com os atletas, técnicos e outros funcionários a si vinculados. Por isso, um dinheiro a mais para os seus cofres sempre será bem-vindo. A experiência diz-nos que, em matéria de gestão desportiva é preciso contar com os fundos próprios. E nisto, o contributo dos sócios deve ser efectivo e nunca ignorá-lo, pensando que os dinheiros recebidos de empresa patrocinadora são suficientes para as encomendas. É preciso capacitar e rentabilizar os quadros técnicos e administrativosAinda sobre o paraquedismo no desporto. Quais são os mecanismos que se está a ensaiar, a nível do executivo local, no sentido de se colocar homens certos em lugares certos no que o desporto diz respeito?O executivo local dá muita importância na vertente humana. A sua bandeira aposta na formação do homem. Em parceria com algumas federações desportivas e Comité Paralímpico, nos dois últimos anos, promovemos várias sessões de formação e capacitação de agentes desportivos ligadas a distintas áreas, com realce à área técnica e administrativa. O objectivo é dotar os nossos quadros de conhecimentos técnico-científicos sobre a matéria desportiva. Como já afirmei, a era de "aventureiros" e Paraquedistas acabou. Estamos na era da Globalização e logo nada de se remediar. É preciso trabalhar a sério e com a maior responsabilidade que se lhe impõe. E isto passa por se capacitar e rentabilizar os quadros técnicos e administrativos que o município possui. Muito se questiona sobre a durabilidade das infra-estruturas desportivas reparadas por altura do Campeonato Africano das Nações Orange-Angola’2010, que o país organizou em Janeiro passado, tudo por falta de alternativas para os seus respectivos usos. Falamos concretamente do estado das relvas dos seus respectivos campos que com o tempo podem vir a degradar-se.Esta preocupação pertence a todos os munícipes da urbe. O Executivo Central fez a sua parte, reparando aquilo que em matéria físico-estrutural estava degradado. Agora, cabe às direcções dos clubes beneficiados pelas referidas obras mantê-las conservadas e preservadas. Não fazendo isso, estaremos diante de um frustrar das reais intenções do Executivo angolano. É aqui que se começa provar o real papel dos dirigentes e da massa associativa. Saber gerir de forma a tirar o maior proveito naquilo que lhe foi dado a utilizar. Por aquilo que lhe tem sido informado, as infra-estruturas reparadas pelo Executivo Central estão a dar os rendimentos esperados?Sim. Aquando da entrega dos referidos empreendimentos, nomeadamente, os estádios do Buraco, Fragoso de Matos, Raimundo Ferrão e Quintalão da BAOC, baixaram-se recomendações às direcções dos clubes a si vinculados que se deveriam pugnar pela formação de novos talentos para o futebol. Inclusive, o executivo local disponibilizou-se para apoiar institucional e materialmente as respectivas iniciativas. E por aquilo que constatámos nas visitas de campo que efectuámos nas respectivas “oficinas”, algo nos diz que há trabalho, o que me leva a crer que dentro de dois anos (ou menos que isto) teremos os primeiros resultados."Projecto Despontar"reactiva acção nas comunas  No quadro de massificação do desporto de recreação no município do Lobito, a Direcção provincial da Juventude e Desportos indicou alguns locais para a construção de campos de 1º e 2º Graus. A informação foi avançada pelo Administrador municipal no ano passado. Já passaram vários meses e a prática prova o contrário. O que está na base da não materialização?O "Projecto Despontar" continua de pé; conheceu alguma interrupção na materialização fruto da crise financeira que o mercado mundial viveu, resultante da baixa do preço do barril do petróleo. O Ministério da Juventude e Desportos, principal mentor do programa, viu-se abraços a meios financeiros na altura da execução. Ultrapassada que está a situação, o programa poderá retomar nos próximos dias, faltando apenas alguns acertos inerentes à referida execução, até porque os locais já foram identificados. Quantos campos foram indicados para o município do Lobito?  Para o município do Lobito estão projectados a construção de dois campos em todas as comunas e algumas povoações; são campos que vão servir para massificar e promover o desporto nas respectivas localidades. Os campos do 1º Grau, para além de vedação, iluminação pública e água corrente, vão contar com balneários, vestiários e bancadas e respectivos camarotes, com a capacidade de acolher 2050 pessoas sentadas em cadeira corrente de cimento (em betão armado), enquanto o do 2º Grau vai merecer um outro tratamento secundário, como a vedação ao recinto e casa de banho público.  Está a dizer que os locais para a construção dos referidos campos estão localizados. A grande verdade é que todos os dias assistimos às ocupações de espaços para a construção de moradias, lojas e shopping. Pode mencionar alguns lugares seleccionados para as referidas construções? O programa do executivo visa proporcionar ao cidadão o bem-estar social, económico e de lazer. Quanto à preocupação que se levanta aqui, podem estar descansado que os locais estão salvaguardados e, em momento algum, permitiremos que sejam ocupados para qualquer tipo de construção. A título de exemplo, no Lobito, foram indicados os bairros do Alto Liro, aí bem juntinho da residência das Madres, e o 27 de Março. O mesmo cenário pode dizer-se com as comunas, onde para o efeito contamos com a colaboração directa das autoridades e populações locais. "Girabairro do Lobito é a mais bem organizada"Qual é a realidade do Girabairro praticado no Lobito?O Girabairro/Taça do Presidente no município do Lobito ganhou outra dimensão, ao contrário do que acontecia no passado, desde a sua implementação (em 1997). Com o surgimento da Paz, a coordenação municipal estendeu a sua prática para o interior do município, dando uma maior abrangência ao Girabairro municipal. O Girabairro fase municipal deixou de ser praticado no casco urbano, envolvendo os bairros da periferia e passou a ser praticado nas comunas do Biópio, do Egipto-praia e da Canjala. Com quantas equipas participam estas comunas na fase municipal?Inicialmente, isto é de 2003 a 2007, participavam com os respectivos mistos. Mas dado ao elevado número de equipas que competem nas respectivas comunas e em obediência a ordem de proporcionalidade acordou-se que a comuna da Canjala (92 km/Norte da sede-cidade), que organiza a fase comunal com 12 equipas, entrasse no municipal com duas equipas, enquanto as demais, designadamente, o Egipto-praia (90 km/ Norte) e Biopio (45 km /Este), ambas movimentam oito (8) equipas, respectivamente, participam com uma, o que totaliza 18 em representação das cinco circunscrições geográficas do município, nomeadamente, Lobito, Catumbela, Canjala, Biópio e Egipto-praia.   Falou de provas internas nas comunas do interior. O que tem a dizer sobre a 2ª divisão que o município organiza desde o lançamento do projecto?É sabido que antes de o Movimento Nacional Espontâneo instituir no país o projecto Girabairro/Taça do Presidente, a prática já existia no Lobito. As administrações zonais eram responsáveis pelas actividades do desporto de recreação nos bairros. Eram muitas equipas interessadas em participar. E como forma de se colocar ordem na organização da “casa”, a direcção da Juventude e Desportos local entendeu chamar para si a organização, onde o vencedor era gratificado com alguns prémios que iam de uma taça, um certificado de mérito e alguma quantia financeira. A competição ganhou outra dimensão e cariz. E como forma de se lhe dar uma outra emoção competitiva, achou-se por bem repartir a prova em duas divisões, nas quais, na primeira, constituída por 18 equipas, fizessem parte equipas organizadas do ponto de vista técnica, administrativa e financeira, enquanto as demais participassem da segunda divisão. É assim que podem observar que ao contrário das demais regiões do país, o Girabairro do Lobito é a mais bem organizada, prestigiando a competição, que tem na figura do Presidente da República a grande homenageada. A participação de equipas das povoações da Hanha do Norte e do Kulango na segunda divisão "municipal" está associada a problemas técnicas ou financeiras?O projecto Girabairro visa incluir todas as equipas dos bairros, quimbos e aldeias. O objectivo, para além de ocupar a juventude de práticas lícitas e de prospecção de novos valores, é levar o calor e a alegria aos populares em todos os cantos do país. E aqui não é diferente. A participação das equipas da Hanha do Norte (25 km/Norte) e do Kulango (40 km/Nordeste) está associada à falta de competição que se faz sentir nas respectivas localidades. Para dizer que tanto numa como na outra povoação, apenas, formamos duas equipas. Não conseguimos mais e, em concertação com as entidades locais, decidiu-se que as mesmas pudessem participar na 2ª divisão do Lobito, com os respectivos mistos.