Jornal dos Desportos

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Entrevistas

O futebol actual no vai bem

Valdia Kambata - 29 de Dezembro, 2010

Vinda a Angola mudou a vida de Zandu

Fotografia: Nuno Flash

Como vê o nosso futebol nos dias que correm?
Não está bem, pois falta muita verdade. Há o problema das idades, dos árbitros, a falta de dinheiro, etc. O futebol necessita de atenção dos nossos dirigentes. É preciso fazer muita coisa, pois não podemos continuar a viver de aparências. Como é que uma selecção não tem dinheiro para realizar jogos? Naquele tempo, o país estava em guerra, mas prestava-se muita atenção ao desporto.

O que deve ser feito?
Penso que nos devemos sentar e reflectir sobre aquilo que o nosso futebol é hoje.

A competitividade baixou?
Muito! Hoje, existem poucos talentos e, quando aparecem, vêm logo com a mania das grandezas. Só pensam em dinheiro.

A qualidade também já não é a mesma?
Naquele tempo, o futebol tinha qualidade. Quando fossem jogos em que interviessem o 1º de Maio, 1º de Agosto, Progresso, Petro de Luanda, era uma loucura. Havia grande procura de bilhetes, pois os jogos eram fortes. Cada equipa tinha o seu líder em campo, que era, de facto, uma referência.

Joga futebol nas velhas-guardas, aos fins-de-semana?
Com certeza! Quando é preciso, a gente está sempre a bater uma bolinha aos domingos. É bom demais. Não nos podemos esquecer dos amigos e companheiros.

O que faz actualmente?
Actualmente, estou sem trabalho. Algum tempo atrás, tinha uma escola de futebol. Lá, criamos muitos bons jogadores. Era um projecto de captação de talentos, mas, por falta de dinheiro, fechamo-lo. Agora, eu e algumas pessoas estamos empenhadas em abrir uma equipa de futebol na província do Uíge.

E como vão as coisas?
Nesta fase, estamos a criar as condições de trabalho e a procurar patrocinadores para o projecto caminhar firme. Se tudo correr como o previsto, daqui a mais algum tempo, teremos uma nova equipa no Uíge.

Qual é o seu maior desejo na modalidade?
Treinar uma equipa angolana.

Tem curso de treinador?
Não, mas sei muita coisa, que fui aprendendo ao longo da minha carreira como jogador e que posso adaptar na equipa que for treinar. O meu sonho é realizar um curso de treinador, mas a falta de verbas condiciona essa pretensão.

Já recebeu convite para orientar uma equipa?
Nunca. Caso receba, estarei disposto a dar o meu contributo.

Futebol era o
sonho de criança


Sempre desejou ser futeblista? Essa pretensão não interferiu nos estudos e noutras ocupações?
Ser futebolista foi o meu sonho de criança. Todas as brincadeiras envolviam a bola e ela andava comigo para todo o lado, inclusive na escola, o que, às vezes, levava os professores a ralhar comigo. Apesar de tudo girar à volta da bola, sempre tive em mente que era necessário estudar. Sabia que se não tirasse boas notas, os meus pais tiravam-me a bola. Fui tirando boas notas e, ao mesmo tempo, no futebol, os resultados eram bons. Felizmente, podia escolher entre o futebol e os estudos, pois ambos me davam garantias de um bom futuro.

Representou o Progresso, 1º de Maio e a Cuca. Qual deles mais contribuiu para o que é hoje?
Obviamente, o 1º de Maio, porquanto tudo o que sou como jogador e na vida, devo àquele clube e às pessoas que comigo trabalharam. Foi um clube que sempre me apoiou e deu-me condições, fazendo-me acreditar que podia atingir o profissionalismo e fazer do futebol o meu futuro. Comecei a dar os primeiros passos no Progresso, mas foi no 1º de Maio onde vivi os melhores momentos. As grandes pessoas fazem os clubes serem grandes. Toda a gente tinha a sensação de que, se não fossem as lesões, o destino teria sido outro. Relativamente ao Progresso, foi pena o pouco tempo que passei por lá, pois tinha um bom grupo de trabalho, jogadores e equipa técnica.

Como se definia a sua posição em campo?
Devido à minha caracteristica e às diferentes posições que ocupava em campo, as pessoas questionavam-se qual era a minha posição verdadeira. Mesmo os treinadores que tive, tinham opiniões divergentes, pois uns gostavam de mim mais adiantado e outros como médio. Pessoalmente, e talvez por ser a minha posição desde pequeno, gosto de ser médio ofensivo. Reconheço que os melhores momentos foram passados nessa posição e que agora, no futebol, todos os sistemas obrigam os médios a serem ofensivos e defensivos ao mesmo tempo.

Não jogávamos para ficar ricos
 mas amávamos a modalidade

Fale-nos do seu percurso no futebol.
Comecei a jogar no Congo Democrático, até ser convidado a vir para Angola. Aqui, comecei no Progresso do Sambizanga e depois representei o 1º de Maio de Benguela, onde fiquei oito anos como titular indiscutível. Depois de representar a equipa de Benguela, fui convidado para reforçar o Grupo Desportivo da Cuca que tinha acabado de subir à I Divisão. Foi na Cuca onde terminei a carreira.

Quem lhe convidou a vir para Angola?
Vim a convite da UNTA (União Nacional dos Trabalhadores Angolanos).

Que benefícios teve durante a sua carreira?
Naquela altura, não se jogava para ficar rico, mas porque amávamos a modalidade. Saíamos de casa porque gostávamos do clube e de alegrar o povo. Por isso, haviam bons jogadores. Jogavam sem grandes compromissos financeiros. Muitos de nós, além do futebol, trabalhavamos em empresas públicas, outros tantos eram militares.

Quer dizer que pouco ou nada ganhou?…
Ganhei uma casa, em Benguela, fruto da ligação que tinha com o 1º de Maio, e dinheiro para sustentar a minha família. Face às circunstâncias da vida, fui obrigado a vendê-la. A par disso, ganhei bons amigos. Graças a eles, tenho superado muitos problemas. Naquele tempo, não se pagava como hoje. Os miúdos de 16, 17 anos estão a ganhar muito dinheiro.


Recorde algumas estrelas daquele tempo…
Vici, Jesus, Lufemba, Ndungidi, Fusso, André, Maluka… fica difícil enumerar, pois são muitos.

Atingiu o profissionalismo?
Não. Houve várias situações que fizeram com que não fossemos para o estrangeiro: o nosso campeonato era bom e vivíamos um período em que não era permitido jogar no estrangeiro.

Mas outros conseguiram…
O primeiro da minha geração foi o Vata e depois o Lufemba. O único que conseguiu jogar muito e singrar foi mesmo o Vata.

Sem grandes contratos, como se motivavam?
Era o amor pelo futebol e pela equipa. Ganhávamos pouco, mas tínhamos de ser fiéis à equipa.

Quais foram os momentos mais importantes da sua carreira?
Foi o jogo que fizemos na Argelia, a 19 de Abril de 1985. Era decisivo para a qualificação ao Mundial de 1986, no México. Jogamos muito, fizemos tudo para ir ao Mexico, mas o árbitro fez de tudo para a Argelia ganhar.

Que títulos conquistou?
Ganhei dois campeonatos pelo 1º de Maio de Benguela, em 1983 e 1985, duas Taças de Angola e uma Super-taça.

Fale dos seus treinadores…
Naquela altura, existiam poucos treinadores angolanos. Aplaudo o João Machado, que nos levou às competições africanas. Outros treinadores que respeito, por tudo o que fizerem pelo futebol angolano, são o Chico Ventura e o Joka Santinho.

Havia muito entusiasmo nas competições?
Sim. Para ter uma noção, os campos de futebol estavam sempre cheios. Em cada equipa, havia grandes craques.