Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"O futebol precisa de continuidade"

Augusto Panzo - 31 de Dezembro, 2013

Nzuzi André aguarda por uma prestação melhor no regresso do Uíge na alta competição nacional

Fotografia: José Soares

Jornal dos Desportos - Depois de um ano cinzento, o trabalho que está a ser desenvolvido nos clubes e o nível que os jogadores apresentam nas competições nacionais dão garantia de um futuro airoso da modalidade nos próximos anos?
Nzuzi André-Penso que chegou o momento de reflectirmos sobre o futebol jovem em Angola. Estou há mais de dez anos dentro da FAF e conheço todos os cantos da federação. Trabalhei com treinadores competentes, como o caso dos professores Oliveira Gonçalves, Dinis, Kilamba, Mabi de Almeida, Miller Gomes, e um pouco com Mário Calado. Todos eles são homens competentes no que se refere a conhecimentos sobre o futebol jovem.

Isto quer dizer que apesar da fase menos boa que a modalidade enfrenta estamos no bom caminho faltando apenas definir-se as prioridades?
Nzuzi André-Nesse capítulo posso dizer que estamos no bom caminho, mas o grande problema é a continuidade. Se a memória não me falha, antes da vinda do professor Gustavo Ferrín para treinar os Palancas Negras, havia dito que o esqueleto-base dos Palancas Negras era formado por jogadores da Selecção Sub-20 e muita gente duvidou. Mas a prova disso ficou demonstrada num dos últimos jogos da era Ferrín, disputado na cidade do Lubango, diante da similar da Libéria. Dos sete jogadores Sub-20 convocados, cinco foram titulares e saíram-se muito bem.

O que faltou para não alcançarmos bons resultados nas competições em que a selecção de honras esteve comprometida?
Nzuzi André-Temos muitas potencialidades, mas é preciso trabalharmos mais e depositar confiança naqueles que trabalham com os escalões de formação. Viram essa realidade no trabalho que fizemos na Taça Cosafa, onde apesar de não termos chegado à final demonstramos um futebol vistoso que mobilizou muitos adeptos locais, chegando inclusive a vaticinar-se que a final da competição podia ser entre Angola e a África do Sul.

O que faltou para não atingirmos a final?
Felizmente, não faltou apoio. Sob a orientação do Presidente da República, a direcção da Academia de Futebol de Angola  colocou à nossa disposição o seu campo de futebol  para a realização dos nossos treinos de preparação visando a nossa participação na Taça Cosafa. Foi graças a este apoio que conseguimos disputar dois jogos amistosos, com o Porto e o Atlético de Madrid. O professor Tony e o director Luís tudo fizeram para nos oferecer as condições para uma boa participação no referido torneio e por isso merecem um agradecimento.

RESGATE DA MÍSTICA
Nzuzi André quer apoio de todos


JD-Apesar de poucos acreditarem no escalão de formação, podemos concluir que existem os diamantes mas precisam apenas de ser lapidados?

Nzuzi André-Exactamente, o país está cheio de diamantes que precisam de uma lapidação. Em todos os cantos de Angola e do estrangeiro há muitos talentos angolanos, mas precisam de um bom trabalho e um bom acompanhamento. Se usarmos um pouco mais a cabeça, com esses craques hoje desconhecidos, e se forem bem acompanhados, Angola pode fazer melhor em 2014.

Como técnico deste escalão, o que tem a dizer sobre o processo de captação de talentos a nível nacional e no exterior do país?
Nzuzi André-Falei numa das minhas entrevistas concedidas no Lesoto que vamos fazer tudo por tudo e com a garantia de Pedro Neto para passarmos por todas as províncias e alguns países estrangeiros com o propósito de captarmos alguns talentos. Vamos ter a oportunidade de observar e avaliar esses talentos durante os campeonatos nacionais de juniores e juvenis a terem lugar em Janeiro nas províncias do Huambo e de Benguela.

-De que forma vai ser processado este trabalho, aliás o campeonato vai ser disputado apenas num período de quinze ou vinte dias e nem todos os bons jogadores vão estar a competir.
Nzuzi André-Sob orientação de Pedro Neto, presidente da FAF, foram baixadas instruções ao departamento das selecções nacionais, e o director-técnico para os escalões de formação já traçou o programa. No encontro que tivemos, foi-nos solicitado que entregássemos os nossos programas de treino e na base disso é que vamos procurar trabalhar e pesquisar os atletas.

Em termos de condições que garantias receberam do dirigente máximo da federação para o sucesso desse trabalho?
Nzuzi André-Com todas as condições que nos forem postas à disposição somos capazes de fazer um bom trabalho. O futuro do futebol angolano passa pela união de todos. Fortes, magros, iletrados ou intelectuais, todos devem dar o seu apoio em prol do desenvolvimento da modalidade. Temos grandes treinadores, grandes dirigentes desportivos, mas é preciso acima de tudo a união. Às vezes pecamos, fazendo críticas não construtivas, o que faz com que percamos o caminho e o rumo certo das selecções jovens.

ENTREVISTA  Nzuzi André
"Estou feliz com o União"




Jornal dos Desportos-O União Sport Clube do Uíge alcançou um feito que orgulha a todos aqueles que se identificam com a província, que comentários tem a fazer sobre esta proeza?
Nzuzi André-Como natural do Uíge, a subida ao Girabola da equipa do União constitui uma mais valia para a região e para nós os naturais daquela província.
É motivo para grande satisfação, porque a província ficou mais de 25 anos fora do campeonato da Primeira Divisão. Neste contexto, falo abertamente que a direcção pode contar com a nossa ajuda.
Estamos dispostos a apoiar a equipa em todos os aspectos, desde moral, material e financeiro.

Pela experiência que tem das exigências da alta competição, em que a componente financeira joga um papel preponderante, que estratégia propõe para que se encontre o antídoto certo, visando a superação desta componente?

Nzuzi André-Acho que todo o mundo vinculado a esse clube tem de contribuir, tal como disse antes.
A nossa província ficou mais de 20 anos sem participar no Girabola, mas graças a Deus conseguimos quebrar este jejum em 2013, daí que  apelo para que todos estejam unidos em torno deste clube, contribuindo com 100, 200, 500 ou mil kwanzas cada.

Por mais boa vontade que haja, os valores de que fez menção não cobrem as necessidades da equipa no campeonato nacional, com salários, prémios de jogos, transporte, alojamento e os contratos...
Sem dúvidas, estes têm a maior responsabilidade neste capítulo. Aliás, para uma melhor coordenação, aconselho-os a abraçarem a sugestão do governador Paulo Pombolo, que me deixou bastante admirado pela sua entrega ao desenvolvimento do desporto da província.
Sinceramente, nunca pensei que o país tivesse um dirigente com essa vontade política de apoiar a causa futebolística da área da sua jurisdição. Para mim isso tem sido uma raridade. Ficou bem patente que o governador Paulo Pombolo mostrou ser um homem de futebol, motivo pelo qual deixo uma palavra de apreço.

Com base na observação que faz de Paulo Pombolo, podemos depreender que se lhe for solicitado apoio está disponível para tal e vai transmitir da a sua experiência nestas andanças?
Nzuzi André-Exactamente. A qualquer momento que ele precisar do nosso apoio estaremos disponíveis. Vamos ajudar no crescimento futebolístico da província, não apenas nas equipas seniores, mas também nos escalões de formação, que constituem o viveiro para o futuro de qualquer agremiação desportiva.

Neste capítulo, o professor tem já algum projecto elaborado para o desenvolvimento da modalidade na província do Uíge?
Nzuzi André-Sim. Tenho já comigo um projecto elaborado, visando dar corpo à missão de elevação dos escalões de formação nas diversas equipas da província. Se o senhor governador mostrar algum interesse nele e achá-lo proveitoso, então vamos trabalhar neste aspecto".

TAÇA COSAFA
Treinador reconhece fracasso


Jornal dos Desportos-O futebol angolano teve um ano de fracassos nas diversas frentes em que esteve inserido, no seu ponto de vista e como homem ligado a federação, o que esteve na base deste insucesso nas três frente em que os Palancas negras estiveram engajados?
Nzuzi André-Reconheço que houve um fracasso, mas vou cingir-me apenas a falar da selecção que dirijo e competiu no torneio da Cosafa. Infelizmente, não conseguimos conquistar o troféu, um dos objectivos que nos levou ao Lesoto. Apesar desse fracasso, estou tranquilo, na medida em que os meus pupilos demonstraram ter grande capacidade competitiva e isso ficou patente ao longo da competição. Podíamos ter feito melhor, se iniciássemos a preparação com alguma antecedência.

Tratando-se de uma prova regular e inserida no programa das competições da FAF, o que esteve na base do começo tardio da preparação?
Nzuzi André-Tivemos apenas duas semanas de trabalho, período que considero muito curto, porque há jogadores que não conseguem enquadrar-se no esquema do jogo nesse espaço de tempo. É bem verdade que muita gente não gosta de ouvir essa realidade, mas não podemos escamotear, porque o factor tempo teve influência negativa, visto que começámos a trabalhar muito próximo da data do arranque do torneio.

Ainda não respondeu à nossa questão, o que está na base do atraso no começo dos trabalhos?
Veja por exemplo que há jogadores que vêm dos seus clubes, mas postos na selecção ainda são obrigados a aprender o ABC, não porque na sua equipa ele não faz isso. Nada disso, precisam primeiro de se ambientarem com os colegas e depois enquadrar-se no modelo de jogo que se pretende e esses passos levam o seu tempo. Então sou de opinião que para passarmos a ter selecções fortes nos escalões de formação necessitamos de mais tempo de trabalho.

O tempo tem sido um factor crucial nas eliminatórias em que as nossas selecções nacionais participam, o que é que está a ser feito para ultrapassar este mal?
Nzuzi André-Repare que fomos eliminados pelo Egipto no jogo qualificativo para o Mundial da categoria. Desde aquela eliminatória, deixamos de trabalhar e só voltamos a juntar-nos na véspera da Taça Cosafa quando faltavam apenas duas semanas. Para uma selecção que quer voltar a conquistar um título internacional, as coisas não podem funcionar desta forma. Temos de alterar esta forma de trabalhar se quisermos que 2014 seja diferente de 2013. Aliás, houve um pronunciamento feito pelo presidente da FAF que dizia que devemos aprender com os erros.

EM 2014
"Os desafios são maiores"


No seu ponto de vista, o que vai ser o ano de 2014 para o futebol angolano?
Nzuzi André-Um ano de desafios. Ao invés de nos entretermos a apontar o dedo ao presidente da FAF, temos todos de esforçar-nos um pouco mais e darmos o nosso melhor para que 2014 venha a ser melhor que 2013.

A nível da selecção que dirige, o que já foi feito para inverter o quadro, ou seja, competir ao mais alto nível nas competições em que estiver engajado?
Só se consegue ter uma selecção de alto nível, comparada aos combinados nacionais do Gana, Camarões ou Nigéria, começando a trabalhar com alguma antecedência. Pelo menos com dois meses antes, pois isso permite aos jogadores conhecerem-se melhor, criar o entrosamento necessário e ultrapassar algumas debilidades com mais facilidade.

Mas isso é a condição indispensável, existem outras componentes que não podem ser descuradas para se ter uma selecção forte?
Nzuzi André-É verdade, há toda a necessidade de realizarmos jogos amistosos para avaliarmos os níveis competitivos dos nossos atletas frente a adversários mais fortes, pois isso permite dar mais rodagem competitiva aos jogadores. Eles ficam mais maduros defrontando adversários de renome.

Que passos estão a ser dados para no futuro se materializarem as exigências da alta competição?
 Nzuzi André-Uma selecção não pode ir a uma competição séria com apenas um jogo de preparação. Isso não nos leva a lado nenhum, porque é nos jogos de preparação que os treinadores conseguem corrigir os erros que cometem e ver se o modelo de jogo que pretendemos implementar se encaixa ou não nas características dos nossos atletas. Agora, limitando-se apenas a treinar, acho muito difícil um jogador atingir os níveis que pretendemos, por isso precisamos de inverter esse quadro.

FORMAÇÃO DO PLANTEL
Técnico aconselha atletas de referência


Sem interferir no trabalho que está a ser feito para a formação do plantel, que conselho deixa à equipa técnica do União Sport do Uíge para competir em 2014 ?
Nzuzi André-NA-A princípio, toda a atenção começa no processo de recrutamento e selecção dos jogadores. Não deve haver a chamada "cunha" nesse processo, pois o essencial é escolher os melhores do momento e aqueles que podem dar garantia da permanência do União do Uíge na Primeira Divisão.

Mas este processo não parece ser fácil, se atendermos ao tempo que falta para o inicio da competição.
Nzuzi André-Em função daquilo que pude ver, não é realmente fácil. Apareceram mais de uma centena de jogadores nos testes e, caso não se tenha muita calma, incorre-se no erro da equipa técnica fazer uma escolha precipitada.

Fala disso por experiência ?
Sim, porque isso me aconteceu no 1.º de Agosto, onde fui dispensado logo à primeira, e quando deram conta do erro cometido, já era tarde, porque eu já estava a jogar pelo 1º de Maio de Benguela, onde, ao que me parece, tive uma boa carreira".

O que propõe então nessa vertente?
Nzuzi André-Que a direcção do União Sport Clube tenha um bom grupo de "olheiros", muito fortes.

Tem algum nome a apontar ?
Nzuzi André-Claro. Sem medo de errar, posso apontar nomes  como o do Vicy que, apesar de ser dos Construtores do Uíge, pode dar algum apoio nesse aspecto.