Jornal dos Desportos

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Entrevistas

O futebol vai de mal a pior

Manuel Neto - 13 de Novembro, 2012

Albano aponta a escassez de verbas na base da má prestação dos leões do norte

Fotografia: Jornal dos Desportos

O treinador do Sporting de Cabinda, Albano César, fala, em entrevista ao Jornal dos Desportos, sobre o propósito da sua contratação, futuro da equipa e sobre os motivos que estiveram na base da despromoção da equipa. O técnico pede aos dirigentes mais respeito pelos treinadores desta modalidade, para o bem do desenvolvimento do futebol angolano. O mau estado do futebol cabindense também mereceu reparo por parte do treinador. 

Jornal dos Desportos - Que balanço faz da prestação da sua equipa no Girabola?

Albano César - Faço um balanço negativo, porque geralmente quando não se atingem os objectivos traçados por uma determinada equipa não temos outra conclusão que não seja ser negativa. Fomos chamados à última hora par tentar salvar a equipa que na altura corria risco de despromoção, mas, infelizmente, não foi possível, por vários motivos. Na altura tínhamos 14 pontos, fruto de 12 jogos e embora tivéssemos posto ao serviço da equipa todo o nosso saber, não foi possível atingirmos o objectivo para o qual fui chamado. Mas devo dizer que estamos satisfeitos pelo sentimento do dever cumprido.

O que faltou de concreto?
 Faltou de tudo um pouco, com particular realce para a componente financeira. Repare que, apesar dos problemas por que passava o grupo, nos primeiros jogos que realizámos fomos fantásticos, fazendo resultados positivos. Infelizmente, a dada altura fomos forçados a parar, por problemas financeiros, o que quase se estendeu a uma grande greve e assim perdemos o ritmo que trazíamos e foi muito difícil reencontrarmo-nos para os objectivos pretendidos. Em suma, a componente financeira foi a causa principal do descalabro da equipa no Girabola.

E as condições de trabalho que encontrou foram as mais aceitáveis?
Penso que foram as mínimas, mas é certo que precisamos de melhorar muita coisa. Basta ver que trabalhávamos no campo adjacente ao estádio do Tchazi e as suas condições são deficitárias, desde buracos e outras deficiências que dificultam a prática de um bom futebol. Mesmo assim, tivemos de fazer das tripas coração para o cumprimento das nossas obrigações mas a dada altura tivemos que mudar para Buco Zau a 135 quilómetros da província e não foi coisa fácil. Também é bom recordar que nos dias de hoje não é fácil encontrarmos uma equipa com grandes condições de trabalho. Mas é extremamente importante que se inverta esse quadro para o bem do clube.

MELHORIAS
“A direcção pretende apenas
rejuvenescimento da equipa”


Vai continuar a dirigir o Sporting de Cabinda?
Provavelmente sim, porque quando fui contratado, além de compromisso de salvar a equipa falámos igualmente de um projecto de continuidade que passa pelo rejuvenescimento da equipa para um melhor desempenho do grupo num futuro próximo.

Que objectivo vai defender à frente deste clube?
A equipa do Sporting todos os anos tem problemas de ordem financeira, que têm atrapalhado o rendimento normal nas competições que se propõe seguir. Notou-se que uma das questões que tem afectado cada vez mais os parcos recursos do clube tem sido o gasto com as aquisições de atletas provenientes de outros clubes, desde a inscrição de um lote extenso, que acaba por acarretar grandes despesas com alimentação, estágio e viagens que fazemos. Fazemos mais viagens do que muitas equipas, ao longo de uma época fazemos 15 a 17 viagens. Por isso, para evitar grandes gastos, a direcção propõe apenas o rejuvenescimento da equipa ao invés de fazermos grandes contratações”.

Na próxima época pensam lutar, ou não, pelo regresso ao Girabola?
A direcção tem duas propostas em carteira. A primeira passa por um rejuvenescimento da equipa para que num horizonte temporal de dois ou três anos possamos pensar no regresso ao Girabola. A segunda passa por lutar pelo regresso a esta mesma competição já a breve trecho, mas isso, caso se melhorem as condições financeiras com a angariação de mais patrocínios, sobretudo do Governo Provincial, uma vez que o da Chevron não tem sido suficiente para suprirmos as nossas necessidades.

Rejuvenescimento significa abdicar de todo o plantel da época passada?

Não é isso, mas vamos dispensar quase 50 por cento do plantel anterior, porque outros vão sair por preferirem outras equipas, outros por termo do contrato e outros ainda por dispensa do clube. São políticas por que qualquer equipa pode optar, caso ache serem as melhores para os destinos do grupo, e penso ser esse o caminho certo que a direcção encontrou para a dignidade e os objectivos pretendidos pelo clube.

Pode avançar nomes de alguns dos futuros dispensados?
Penso ser muito prematuro, uma vez que estamos numa fase que se resume ao estudo do pagamento das dívidas com jogadores e a equipa técnica e penso que quando sanarmos essa componente, então vamos estar em melhores condições para adiantarmos alguns nomes.

APOSTAR
Eu pago todas
minhas formações”


O que sugere para os técnicos do nosso futebol?
É imprescindível que se dê formação constantemente aos técnicos, sobretudo aos angolanos, para sirvam condignamente os interesses das instituições onde forem chamados. Só assim podemos falar verdadeiramente de desenvolvimento desportivo. Mas, infelizmente, nem nos clubes às vezes se consegue uma formação. Pela importância que tem a formação para o nosso desempenho, não vejo outra saída para os técnicos conseguirem Às vezes com a aposta dos clubes. Eu pago as minhas formações, anualmente vou a Portugal para me actualizar, de forma a ficar cada vez mais actualizado. Já pensou quantos não têm esta facilidade.

 Que apelo faz aos órgãos de direito?
O meu apelo vai para a Federação Angolana de Futebol, no sentido de criar mais políticas de abertura para formação dos técnicos, que podem ser com Portugal ou Espanha, países que pertencem ao grupo da UEFA, autorizados a formar técnicos do 2º,3º e 4º níveis. Mas, além disso, podem estabelecer políticas para que se crie um órgão em África para esse efeito, ou ainda encetarem contactos para que oradores da UEFA venham ao país com o objectivo de formarem, porque no país existem muitos técnicos com essa necessidade.

HUMILHAÇÃO
“As chicotadas fazem
desrespeitar os técnicos”


O que diz sobre as chicotadas psicológicas que ultimamente têm sido frequentes no futebol nacional?
 Penso que as chicotadas psicológicas ou os afastamentos dos técnicos que ultimamente têm acontecido no nosso futebol, têm sido anormais e acabam por ser um grande desrespeito pelos técnicos angolanos. Noto que os nossos dirigentes têm sido exagerados na tomada de decisões, porque antes de as tomarem não analisam as causas de determinados maus resultados das equipas ao pormenor.Devem analisar se têm um plantel à altura da prova, se há boas condições financeiras, entre outros aspectos. Mas mesmo não tendo tudo isso, acabam por imputar o fracasso ao técnico. Não é assim, deve haver mais calma e sermos o mais pacientes possíveis. O mais grave ainda é que, mesmo com péssimas condições organizacionais e financeiras, numa época chegam a correr com dois ou mais técnicos.

Está a querer dizer que eles têm sido drásticos nas tomadas de decisões?
Sim, porque muitos deles, ao invés de se preocuparem com o melhoramento das condições do clube, ficam apenas atentos aos resultados positivos, esquecendo o fraco investimento que têm e quando surgem os maus resultados procuram sempre um culpado que acaba por ser o técnico. Em suma, tem sido uma forma de se salvarem para não esconderem a sua incapacidade. Por isso, peço mais respeito.

ENTREVISTA-Albano César
“Futebol vai
de mal a pior”


Que avaliação faz da situação global do futebol em Cabinda?
Sendo mais pragmático, o futebol em Cabinda vai de mal a pior. Acho que se deve trabalhar muito para se inverter este quadro.

Que elementos tem para fundamentar essa posição pessoal?
A minha apreciação começa a partir da formação até à alta competição. Tenho acompanhado alguns jogos deste escalão e os últimos foram os da Taça Palanquinha que terminou há dias. Vi que existe muito talento nesta parcela do território e com um futuro promissor, mas é certo que devemos saber aproveita-los.

Que benefícios resultaram em concreto da Tala Palanquinha?
Com a realização deste torneio, emocionou-se bastante os garotos e agora pergunto onde está o projecto de continuidade uma vez ser uma componente importante para o desenvolvimento de qualquer desporto. Isso não aconteceu. Quando se termina uma prova desta maneira, mata-se um projecto e, consequentemente, adia-se também o futuro deste desporto que é o futebol, não apenas na província mas também no país.

Qual é o rumo certo a seguir?
Em primeiro lugar, quando se faz qualquer programa com crianças, devemos sempre pensar o que vamos fazer, com quem, onde e os objectivos a atingir. Em suma, devemos pensar sempre em fases contínuas sem descurar a componente técnica, um elemento fundamental para o desenvolvimento de qualquer projecto desportivo. Nada adianta ter talentos e não ter ninguém que faça um bom acompanhamento deles, pessoa que passo transmitir os ensinamentos necessários. Por vezes notamos garotos com talento mas treinados por pessoas impróprias, como um antigo jogador sem ter uma formação para o efeito. Isso em nada abona a favor do desenvolvimento desportivo.

QUALIDADES
“Falhas de formação também
se notam nos atletas da selecção”

Como treinador de seniores, algum dia já notou debilidades de formação em alguns atletas nessa fase?

Sim, ultimamente tem sido frequente, a ponto de nos tirar o sono. Chegam mesmo a pôr em causa o nosso projecto, uma vez que existem elementos com problemas de base, como a recepção, a qualidade de passe, cabeceamento e até mesmo execução da velocidade em jogo. Há dias em que ficamos tristes com eles mas, por vezes, temos de ser condescendente, porque no fundo o culpado foi do formador. Falhas de formação também se notam em atletas da selecção. Dificilmente conseguimos fazer um grupo compacto, porque a deficiência vem desde a formação. Por isso, apelo para uma maior atenção dos escalões de base caso queiramos desenvolver o nosso futebol. No fundo, a formação é a base do sucesso de um jogador, em particular, e de uma equipa em geral. José Mourinho já não forma Ronaldo nos seniores e tão pouco Guardiola formou Messi. São atletas que já levam aos seus clubes o sucesso.

CABINDA
De infra-estruturas
a província está bem”


Como está a província em termos de infra-estruturas desportivas?
Nesse capítulo devo dizer que a província está no bom caminho, com a construção do Estádio do Tchazi e a recuperação de outras infra-estruturas na fase da realização do CAN que decorreu no país. De infra-estruturas Cabinda está muito mal. É certo que devemos ter mais atenção com eles, sobretudo na sua preservação. Repare que o Tchazi, uma obra que custou muito ao Estado, hoje e encontra-se em tão mau estado de conservação que nos obrigou a deixa de jogar lá.

Acha suficiente?
Acho que se pode investir mais nesta área, mas também se deve ter uma maior atenção na manutenção, porque não adianta erguermos infra-estruturas e não sabermos dar-lhes o seu real valor.

INCUMPRIMENTO
“Existem dirigentes
 a ignorar promessas”


Que apreciação faz dos dirigentes angolanos?
A maior parte deles estão muito distanciados dos técnicos. Por isso, peço que estejam mais próximo da equipa técnica de forma a viverem juntos os problemas que possam enfermar o curso normal do projecto, porque no nosso Girabola existem casos em que o próprio técnico usa o seu dinheiro para suprir certas dificuldades eminentes, susceptíveis de prejudicar o seu trabalho.

Por que razão isso acontece?
Porque ao longo do seu trabalho o técnico vai identificado os males que podem pôr em perigo os objectivos traçados e comunica logo, mas, infelizmente, existem dirigentes que ignoram promessas ou levam tempo a resolver, quando deve ser imediato. Devem atacar logo, para não propiciar um clima negativo. Portanto, o técnico, vendo o perigo, não tem outra hipótese que não seja a de procurar uma alternativa e, por vezes, a mais certa tem sido tirar do seu bolso para afastar o mal. Existem dirigentes que nem vão aos jogos ou aos treinos, limitam-se apenas a escutar resultados e partem logo para as críticas, chegando a ser os primeiros agitadores para o afastamento dos técnicos.