Jornal dos Desportos

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Entrevistas

O homem dos trs ofcios no xadrez angolano

Joo Francisco -On-line - 15 de Abril, 2013

Ablio Ribeiro joga de forma activa, ajuza torneios

Fotografia: Jornal dos Desportos

O Especialista Nacional de Xadrez, Abílio Ribeiro, fez parte da antiga escola malangina de Xadrez, em que nos anos 80 todos os jogadores emergentes do famoso “internato” da Maxinde, encabeçado pelo padre basco Pirica, eram temidos pelos adversários.

Abílio Ribeiro, 46 anos, é da geração de xadrezistas como o Mestre Internacional (MI) Manuel Francisco, o primeiro angolano a atingir o título de MI e que foi mais de uma vez campeão nacional, os Mestres Armindo de Sousa, Aristóteles Ramos e Francisco Briffel, todos oriundos da Maxinde, que depois de representarem a província da Palanca Negra com sucesso, não deixaram os seus créditos por mãos alheias, mesmo depois de se transferirem para Luanda, onde muitos deles fixaram residência até agora.

Mas, de todos os xadrezistas malanginos famosos, que lidera(ra)m o “jogo-ciência” angolano - pois não é por acaso que a maior quota de Mestres angolanos está atribuída a Malange - Abílio Ribeiro parece ser o que mais províncias representou, se tivermos em conta que além de ter jogado pela sua província natal e Luanda, representa actualmente o Kwanza-Sul, onde além de ser jogador no activo é presidente da Associação Provincial de Xadrez.

Abílio Ribeiro foi eleito presidente para o quadriénio 2012-2016 e não consegue esconder a dificuldade que sente em conciliar a actividade competitiva com a gestão organizativa e administrativa numa província.

“De facto, é complicado porque podem confundir-se as tarefas. Como jogador tenho de estar filiado numa equipa para poder competir e como presidente da Associação Provincial tenho consciência que não posso fazer parte de equipas. Mas tenho sabido contornar e não confundo os papéis”, assegurou.


CARREIRA
“Comecei a jogar quando um professor
de Ciências Sociais introduziu o xadrez numa aula”


Abílio José Ribeiro começou a jogar xadrez na Escola Hoji Ya Henda de Malange pela mão de um professor de Ciências Sociais que numa aula introduziu “o jogo-ciência”, interessando muitos alunos.

“Aquele momento na Escola Hoji Ya Henda mexeu comigo e passei a ter contactos com o MI Armindo Sousa, que na altura tinha um jogo em casa, e como ele já jogava há bom tempo, eu apreciava atentamente as suas jogadas, até que fui ao Centro Social da Maxinde, que tinha já o xadrez como modalidade federada. Aí, com os Mestres Francisco Briffel e Manuel Mateus, assim como Demoniak Paulo Sodré, Camibafo, Aristóteles, entre outros, fomos desenvolvendo as técnicas e tácticas de jogo que nos proporcionaram o nível que ostentamos até hoje”, revelou.

Um dos momentos que mais marcaram a sua carreira desportiva aconteceu em 1988 na Olimpíada de Tessalónica (Grécia), onde teve contactos com os melhores jogadores do mundo.

“Conheci de perto xadrezistas que só conhecia e via através de revistas. Foi bom ter contacto com eles, como Garry Kasparov, Anatoly Karpov, Vishi Anand, Nigel Short, entre outros”, frisou.

Ribeiro teve igualmente responsabilidades ao longo da sua carreira em muitos dos melhores clubes do País que possuíam o xadrez como modalidade de eleição.

 “Neste mundo do xadrez já fui responsável dos melhores clubes da modalidade, como Constrói, Dínamos, Maxinde de Malange, Vila Clotilde, Nocal, Catermar Sumbe, Benfica, entre outros. Como dirigente federativo e associativo já passei por quase todos os cargos. Hoje só me resta exercer o cargo de presidente da Federação Angolana de Xadrez (FAX).

Abílio Ribeiro teve muitos títulos nacionais (em preliminares dos Campeonatos Nacionais absolutos vulgo zonais A e B) e algumas participações internacionais. O Mestre chegou a ser treinador da selecção feminina e de juniores. Como jogador, se o sistema de pontuação e classificações funcionasse já teria o título de Mestre Nacional (MN ) devido à sua força de jogo.

PING – PONG
Jornal dos Desportos - Além do xadrez que mais faz?
Abílio Ribeiro -
Trabalho em Turismo e prestação de serviços

JD - Como concilia a actividade desportiva com as outras actividades?
AR -
Consigo coordenar porque tanto no desporto como no serviço sou o coordenador e isso facilita-me desempenhar as duas tarefas.

JD - Ainda está a jogar xadrez no activo?
AR –
Agora sem grandes ambições, mas sim para consumo da competição interna. O xadrez requer muito tempo de preparação. Acredito que ainda me encontro nos 20 melhores jogadores do País.

JD - Como vê actualmente o xadrez no País?
AR –
Razoável. Podia estar melhor se todos fossem como o próprio jogo de xadrez, tudo dava certo. Acontece que os nossos dirigentes têm de aprender bastante sobre o jogo e aumentarem a população praticante, levando o xadrez às escolas.

JD- O que fazia para melhorar?
AR –
Como presidente da FAX tinha de corrigir muita coisa.

JD - Já alguma vez pensou em candidatar-se a presidente de alguma federação desportiva?
AR
- Ainda é cedo, há-de chegar esse dia, até porque as coisas começam a encaixar-se e as peças que estavam de fora já estão de novo a tomar as suas posições nos tabuleiros.

JD – Aceitava um convite para ser presidente da FAX?
AR
- Com um bom elenco aceitava de bom grado, até porque é o que mais gosto de fazer.

JD- Qual é o conselho que deixa aos xadrezistas?
AR
- O meu conselho é no sentido de que os xadrezistas sejam dedicados, tendo sempre o xadrez como referência.

JD- O que mais gostava que acontecesse ao xadrez angolano?
AR-
Gostava de ver Angola com muitos Grandes Mestres (GM). Este é um sonho que se pode tornar realidade, pois países como a Zâmbia, África do Sul e Zimbabwe admiravam a forma como os jogadores angolanos encaravam as competições internacionais. Hoje esses mesmos países deram um salto qualitativo maior que o nosso, porquanto ficámos impávidos e serenos a ver as coisas passar sem fazer nada (...)