Jornal dos Desportos

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Entrevistas

O homem que vive da Vela

Joo Francisco - 10 de Janeiro, 2013

A par do dirigismo desportivo Jos Augusto Juna Director Geral da TURA (Transportes Urbanos de Angola)

Fotografia: Jornal dos Desportos

Augusto José Junça, ou simplesmente Nguxi, como é conhecido entre os ilhéus, de 68 anos de idade, há mais de 20 à frente da Federação Angolana de Vela, define-se como “um peixe na água” que não pode viver fora do habitat marinho. Esteve na origem das associações desportivas dos desportos aquáticos. Junça começou a actividade em 1968, com um curso de mergulho e depois como professor na mesma especialidade em 1972, na Piscina de Alvalade. Mas praticou muitos outros desportos.  Junça praticou Natação, Voleibol, Hóquei em Patins, Andebol, Caça Submarina e Mergulho. Mas foi no ambiente destas duas últimas que se notabilizou e que lhe fizeram crescer o bichinho para os desportos aquáticos.

Ele próprio conta: “Foi a passear à beira-mar que fiquei gago. Tinha fugido de casa, fiquei até muito tarde. Com medo de ir a casa passei pela residência de um amigo, que sabia que era filho do chefe da Alfândega. Na brincadeira atirámo-nos ao mar. Quando saímos da água, quase perdi a fala e comecei a gaguejar”. “A partir daí, começou a existir uma química entre mim e a água, ao ponto de me ser difícil viver onde não existe mar. Fiz Natação aos 12/13 anos. Passei para a Vela na BUFE (Porto Naútico da Mocidade Portuguesa) na altura localizada na Ilha de Luanda”, contou ainda.
Da BUFE, José Junça passou para o Clube Nun’Álvares.

José Junça entrou para o dirigismo desportivo nos anos 70, depois de ler um anúncio no então jornal “a Província de Angola”, antecessor do actual Jornal de Angola.  O anúncio convocava todos os ex-praticantes de mergulho ou outros desportos náuticos para fazerem parte da reunião. “Apareci após os debates. Quiseram logo nomear-me presidente. A princípio rejeitei, sugerindo que se criasse primeiro uma Comissão Dinamizadora para a constituição de uma Associação pluridesportiva, que englobasse a Vela e o Remo”, recordou. “Criada a Comissão Dinamizadora, onde além de mim, estavam ainda o actual Cónego Apolónio, os engenheiros Mário Fontes, Diamantino Leitão e Raúl Araújo (todos do remo). Estes últimos quiseram separar-se, aconteceu a separação. O Remo afundou-se e a Vela progrediu paulatinamente”, lembra ainda.

COMPETIÇÕES
Primeiras participações em mundiais e Jogos Olímpicos


Em 1993 Angola participou no Campeonato do Mundo realizado no Brasil, onde obteve o 16º lugar entre 26 participantes. Três anos depois, em 1996, a Vela participa pela primeira vez nos Jogos Olímpicos na modalidade de Vaurien 470. Existe igualmente Vaurien 420 e Finn, duas das mais de 50 classes da modalidade praticadas no mundo.  A Vaurien, a par da Optimist, são duas das classes da Vela mais praticadas em Angola. A embarcação de Vaurien, que em francês significa “Não vale nada”, foi construída pelo francês Jean Jacques Herboulote e tem as referências 420 e 470 devido às suas dimensões (comprimento).

Nos anos dourados da modalidade, a Federação Angolana de Vela (FAV), para medir o seu grau de desenvolvimento, chegou a realizar um torneio Internacional em Luanda na classe de Vaurien, para o qual convidou o campeão mundial, de nacionalidade italiana, Marco Fassenda, que apesar de ter ganho algumas provas classificou-se na quinta posição, que serviu para concluir que a modalidade estava no bom caminho, em função da réplica dada pelos velejadores.

“Os nossos miúdos mostraram o que realmente valem, dando uma surra ao Marco Fassenda e Angola venceu a prova”, desabafou de forma característica o kota Nguxi. José Junça fez parte das Comissões Executivas do Comité Olímpico Angolano (COA) nas Olimpíadas (2000-2004) e (2004-2008). No mandato cessante (2008-2012) é representante da Federação Angolana de Vela no COA.

PERGUNTAS E RESPOSTAS
O que é para si a Vela?

É fundamentalmente uma modalidade de conjunto, incluindo as provas individuais. Um desporto relaxante em que os atletas têm que conhecer a táctica e a estratégia. Também se difunde a camaradagem, particularmente quando se está em competições de regatas de embarcações de Cruzeiro.

Existem muitas classes na Vela?
Há mais de 50 classes reconhecidas pela Federação Internacional de Vela. Nós em Angola começámos com os Lusitos (embarcações para os miúdos iniciados) que foram depois substituídas pela classe Optimist, com 35 metros. Já tivemos também as classes Moth (embarcações para juvenis). Existem ainda as classes Sharpie, Finn e Snaipe. Temos ainda a classe dos Cruzeiros (regatas ao longo do mar), só para citar algumas.

A Vela tem tradição em Angola?
Com certeza. Fundamentalmente através dos pescadores artesanais, vulgo Dongos. Como desporto, já tivemos nomes sonantes. Ressalto Orlando Sena Rodrigues, Paulo Santos, Dilermano Palhais e tantos outros que foram campeões de Angola, ainda província ultramarina de Portugal e ibéricos na classe de Snipe. Angola organizou um Campeonato do Mundo em 1968.

As suas actuais funções no Desporto Náutico são mais abrangentes?
Neste momento vou ligar-me principalmente à área técnica, porque com mais de 20 anos em vice-presidências e presidências de Direcção, acho que chegou a altura de dar lugar à nova geração.

Englobar os desportos náuticos numa só Federação foi boa ideia?
A ideia foi proposta por mim. Na altura propus que não só os desportos náuticos deviam figurar neste modelo. Também outras modalidades, como as de combate, as lutas amadoras, o xadrez, porque nós não tínhamos dirigentes desportivos suficientes para ter tantas Federações nacionais desportivas.

POR DENTRO
Nome completo: José Augusto Junça
Filiação: António dos Santos Junça e Maria de Lourdes Mendes da Silva Junça
Data e Local de Nascimento: Aos 25 de Dezembro de 1944 em Moçâmedes (actual Namibe)
Filhos: Dois
Altura: 1,68 m
Peso: 89 kg
Calçado: 41
Cor: Verde
Hobbies: Leitura e praticar Vela e outros desportos
Filmes: Vejo de vez em quando variados
Música: Angolana e Clássica
Prato preferido: Arroz de pato
Bebida: Água na falta de cerveja
Religião: Apostólica romana. Não praticante