Jornal dos Desportos

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Entrevistas

O Libolo no uma equipa de estrelas

Pedro Augusto - 03 de Outubro, 2010

Mariano Barreto reconhece que eliminao das Afrotaas foi um atropelo

Fotografia: Jornal dos Desportos

“Temos uma equipa
de atletas humildes”

Como está a equipa do Recreativo do Libolo nessa fase crucial do Girabola?
O Recreativo do Libolo começou a competição com os objectivos claros. Ao contrário de muita gente, dissemos que iríamos entrar para esse campeonato com o objectivo de fazer melhor que no ano passado, mas fomos mal interpretados. Começaram logo a dizer que o Libolo queria ser campeão.

É legítimo que as pessoas assim pensem, porquanto o Libolo foi o segundo classificado no Girabola passado. Então, o que seria "fazer melhor"?
Quando dissemos que queríamos fazer melhor do que no ano passado, estávamos a falar numa perspectiva normal de desenvolvimento. O Libolo foi-me apresentado como projecto de 5/6 anos, com objectivo de ser um clube bem organizado e que se afirmasse em Angola e em África. Aliás, foi por isso que vim. No ano que cheguei, conseguimos com muito trabalho e também com alguma felicidade terminar o Girabola em segundo lugar e fomos eliminados da Taça aos penalties. Seis meses depois, começou o presente Girabola e tínhamos previsto reforçar a equipa em vários aspectos. Contactámos e indicámos alguns jogadores que ajudariam tornar a estrutura do Recreativo do Libolo mais consistente do que havia terminado o Girabola de 2009. Iniciaram-se as conversações com jogadores que pensávamos ser fundamentais para o actual plano de cinco anos.

Quem são esses jogadores e por que razão não conseguiu contratá-los?
Hoje, posso dizer quem são os jogadores que pretendíamos. Indicámos o Kaly, o Love, o Kikas, o Job e o Avex, entre alguns nacionais. Quando fui de férias, tinha a convicção de que as negociações estariam bem encaminhadas para que no início de 2010, em Janeiro, a sua entrada para os quadros do Libolo fosse um dado adquirido. Infelizmente, por motivos que me ultrapassam, esses jogadores não vieram, porque escolheram outros caminhos. Temos de aceitar, porque a vontade dos jogadores é sempre soberana. Só que na altura em que isso aconteceu, não encontrámos alternativas para o valor desses jogadores.

E qual foi o passo seguinte?
Tivemos de procurar alternativas e parte do nosso objectivo foi condicionado com a mudança de rumo que esses jogadores tiveram. Procurámos outros e formámos o actual plantel do Recreativo do Libolo. Fomos buscar o Quinzinho ao FC Bravos do Maquis, o Enoque e o Chinho ao Santos FC, o Giovani, na Segunda Divisão B de Portugal. O Osvaldo era um jogador que praticamente não jogava há dois anos, mas era um talento africano, e o Gil Martins ao ASA. Todos esses jogadores acabaram por vir de equipas que ficaram claramente abaixo do Libolo no ano passado. Ao mesmo tempo, fomos recuperar dois jogadores que tinham sido figuras no futebol angolano: o Edson Nobre, que tinha feito uma excelente carreira no Paços de Ferreira, e o Zé Kalanga, que tinha sido uma das grande figuras da Liga Portuguesa ao serviço do Boavista e transferido para o Dínamo de Bucareste.

A contratação desses jogadores foi de encontro as vossas expectativas?
Acontece que os dois jogadores vinham de experiências muito duras; vinham de longas paragens e, ao contrário do que esperava, o tempo de adaptação ao futebol angolano e ao país foi maior do que pensávamos, mas trabalharam muito. A colaboração dos dois no início do campeonato foi baixa, o que não esperávamos.


"Libolo não é uma equipa de estrelas"

Mesmo com as limitações financeiras e de plantel, chegar ao título pode ser possível…
De uma coisa ninguém nos poderá levar a mal. Sabemos das nossas limitações; sabemos também que o Interclube tem mais soluções; tem o Minguito, um dos melhores jogadores de Angola, o Pedro Henriques, um avançado que qualquer treinador gostaria de ter; o Tsherry, um excelente guarda-redes, o Messi, um jogador fantástico no meio-campo, o Zé Augusto, um centro-campista de selecção e de grande valia. Sabemos que devemos ter a nossa humildade e reconhecer. Não tendo as mesmas armas não significa que não acreditemos no nosso valor. Aliás, é por acreditar no nosso valor e na humildade que constituímos uma equipa que ultrapassa as dificuldades no presente Girabola.
 
Mas o Libolo é uma equipa capaz…
As pessoas tentam criar uma certa poeira à volta do Libolo, dando a entender que somos uma equipa de estrelas. Não! O Interclube, o 1º de Agosto e o Petro de Luanda são as que têm equipas de estrelas. Temos uma equipa de atletas humildes, que estão a crescer, trabalham muito e reconhecem a importância de trabalhar muito para atingir um nível desejado. É isso que fazem todos os dias. E fruto do trabalho, do desafio constante a si colocados e das exigências do treinador para que cada dia seja melhor que o anterior, fez com que o Libolo surja como uma equipa ameaçadora nos lugares da frente. 

Pelos vistos está a colocar o favoritismo ao Interclube…
Não coloco o favoritismo ao Interclube, ao 1º de Agosto ou ao Petro de Luanda. Basta ver os jornais e ouvir as rádios, toda a gente fala com razão que são essas as equipas candidatas. Só, agora, falam do Recreativo do Libolo, não pelas suas individualidades, mas pelos resultados que tem conseguido. Isso confirma o que tenho dito. Não estou a dizer que somos uns coitadinhos, mas sabemos dos nossos problemas. Há equipas que pelo seu potencial e grandeza como clube, não podemos compará-las com o Libolo. O Interclube, por exemplo, é um clube nacional, é da Polícia Nacional em que todos contribuem para o bem-estar e para a saúde financeira; o Libolo não tem sócios que contribuem para isso. O Petro de Luanda tem por trás uma grande imagem, uma empresa que dá o suporte; é o campeão crónico, o clube com o maior número de títulos. Portanto, não podemos comparar-nos ao Petro de Luanda. O 1º de Agosto é o clube das Força Armadas Angolanas e tem adeptos por toda Angola. O Libolo, quando vai jogar fora, não tem lá ninguém a estimulá-la. Curiosamente, 70 por cento das vitórias do Libolo conqusitaram-se fora de casa.

 "Temos de respeitar
o poderio do Interclube"


O Recreativo do Libolo começou o Girabola marcado pelo afastamento das competições africanas. Como foi gerir um plantel, atendendo que o objectivo era chegar à fase de grupos da Liga dos Campeões e fazer um excelente Campeonato?
Muito difícil. A equipa começou o Girabola marcado pela saída das competições africanas, através de um golo que foi difícil de gerir. Tínhamos feito um jogo fantástico no Rwanda, porém, em Calulo, não conseguimos segurar o extraordinário resultado do jogo da primeira-mão. Isso abalou-nos bastante, porque tínhamos organizado a entrada do Libolo nas competições africanas com todos os jogadores acima referidos, mas tivemos de o adaptar com outros jogadores. O Zé Kalanga e o Edson não puderam jogar a primeira-mão, porque não estavam legalizados para a competição, No segundo jogo, saímos da competição através de um lance infeliz, um remate quase do meio do campo.

Como conseguiram contornar a situação?
Tenho de admitir que levou algum tempo a recompor-nos, mas nunca deixámos de acreditar que éramos capazes. E de uma forma serena, com o apoio do presidente Rui Campos, resolvemos os problemas. O Libolo tem as suas particularidades; é uma equipa que vive em estágio permanente ao contrário das outras equipas. Os jogadores de manhã, à tarde e à noite convivem sempre com as mesmas caras. Isso, naturalmente, também foi uma experiência, um desafio fantástico.

Com base no que acaba de dizer, hoje, qual é a realidade da equipa?
Chego lá. O Recreativo é uma equipa que vive em estágio permanente, é uma equipa que foi construída ao longo do tempo. No ano passado, entraram oito jogadores. A maior parte dos grandes candidatos ao título, Petro de Luanda, 1º de Agosto, para não falar da surpreendente Caála, manteve os seus jogadores; são atletas de grande valor e reforçaram-se com jogadores mais novos e não em quantidade como nos reforçamos.

Quer dizer que o Libolo pode ser colocado em terceiro plano, ante a potencialidade dos principais candidatos (Interclube, Caála e 1º de Agosto)?
Somos racionais. Enquanto treinador do Recreativo do Libolo, temos de respeitar o poderio do Interclube, do Petro de Luanda e do 1º de Agosto, porque o Libolo é uma equipa em formação; tem três anos de Girabola e está a fazer uma coisa extraordinária em Angola; é uma equipa provinciana com limitações de várias ordens, principalmente, financeira. Não temos a capacidade financeira do Petro de Luanda, do Interclube e do 1º de Agosto. É uma realidade clara. O nosso orçamento é baixo. Se a nossa média salarial fosse elevada, os jogadores contactados teriam vindo ao Libolo, mas as contrapartidas exigidas não podíamos satisfazer. Isso demonstra que a nossa capacidade financeira não é grande como fazem circular.

"Não estou
arrependido"


Porque razão não aceitou a troca se o Love é um dos jogadores que fazia parte dos vossos planos para a presente época e quem é o atleta que serviria de moeda de troca?
O Love é o melhor avançado, a par do Diop e do Baptiste. São do alto nível, fabulosos, que resolvem os jogos, mas não aceitámos por um motivo simples: tínhamos contratado o Zé Kalanga, através de um empréstimo, e não fazia muito sentido, depois de todo o trabalho, que tivemos, ser trocado. O Zé Kalanga esforçou-se para voltar a ser o jogador que era. Enquanto treinador do Libolo, notei que não seria um bom negócio, porque o carinho que tínhamos criado, as relações que temos com o Zé Kalanga, não fazia sentido dispensá-lo, depois do sacrifico que fez para chegar ao nível que chegou. Apesar de reconhecer que o Love é um jogador que, se calhar, me resolveria os problemas, porque só tenho o Rasca, decidi também apostar no Zé Kalanga e não estou arrependido. Se pudesse ficar com o Zé Kalanga e o Love, tinha ficado, mas o 1º de Agosto só me cederia o Love por troca com o Zé Kalanga.

"Recusei trocar
Zé Kalanga por Love"

Será que isso faz com que a vossa equipa parta em desvantagem em relação às outras?
Tivemos quatro jogadores na selecção de Angola. A maioria dos jogadores do 1º de Agosto, o Petro de Luanda e o Interclube é seleccionável. Fomos a única que no defeso não contratou jogadores, porque não tínhamos capacidade financeira. O empresário de dois jogadores que reforçaram o Interclube havia nos oferecidos, mas não tínhamos a compensação financeira. O Diop e o Baptiste são jogadores de grande valia, dos melhores que existem em Angola; são jogadores cobiçados na Europa. As contratações desses atletas eram de tal ordem que quase punha em causa a saúde financeira do nosso clube, além de que iria causar grandes problemas a nível do leque salarial da equipa em que não existe discrepância.

Está a dizer que existe bom ambiente no balneário, porque os atletas ganham quase o mesmo?
Não tenhas dúvidas que os jogadores do Libolo têm uma folha salarial muito baixa e equilibrada, por isso, se aceitássemos o Diop e o Baptiste causaríamos uma disparidade salarial. Falei com o presidente e não aceitámos a oferta do empresário Gambôa, porque estavam em divergências com o Interclube. Também não fizemos, porque temos uma conduta ética e deontológica que nos impede interferir em negociações, quando um determinado clube (no caso o Interclube) está a dialogar com o atleta. Prevaleceu o respeito e não devíamos participar no negócio. Não estamos arrependidos. Desportivamente, ficámos fracos, mas o grupo continua homogéneo.

Continua homogénea, mesmo sem Love que representaria o Libolo nessa fase do campeonato por empréstimo do 1º de Agosto…
Verdade. O Love foi-nos oferecido antes de ir para o Petro de Luanda. Era um jogador que estava em cima da mesa de negociações por troca com um jogador do Libolo. Não aceitei.