Jornal dos Desportos

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Entrevistas

O mais notvel craque de futebol dos que nasceram depois de 1975

Augusto Panzo - 11 de Novembro, 2010

Akw pelos grandes feitos que produziu ao longo da carreira

Fotografia: Jornal dos Desportos

Seria elevar demais a fasquia, se for considerado o futebolista mais notável que nasceu em Angola depois da independência proclamada a 11 de Novembro de 1975?
Não gosto muito falar de mim, nem dos meus feitos. Aliás, nem é ético. Por isso, se assim me consideram, é bom saber, porque a escolha é da maioria e feita em função da minha prestação durante a carreira futebolística.

Qual foi o feito futebolístico de maior relevância nesses trinta e cinco anos de liberdade?
Sem margens para dúvida e, particularizando o futebol, o maior feito conseguido por Angola ao longo desse período foi a participação no Campeonato do Mundo da Alemanha, em 2006. Foi o momento mais alto do nosso futebol, porque, após longos anos de guerra e pouco tempo de paz, conseguimos inscrever ao mais alto nível o nome do nosso futebol, com uma participação brilhante.

Terá sido esse o único feito de relevo que Angola conseguiu ao longo dos trinta e cinco anos?
Não. Esse foi o principal. Não posso descurar das outras vitórias como as conquistas da Taça Cosafa as participações nos Campeonatos Africanos das Nações de 1996, 1998 e 2008, para além do torneio organizado em Janeiro do ano corrente no país. Orgulho-me também da vitória conquistada pela Selecção Nacional de Sub-20 no CAN da categoria, em 2001, na Etiópia, assim como a participação da mesma no Campeonato do Mundo na Argentina.

Como se sentiu, após marcar o golo de qualificação de Angola para Alemanha 2006?
Não consigo descrevê-lo no seu todo, porque é o golo que mudou a nossa história; um golo que nos deu a qualificação para o Campeonato do Mundo, por sinal o primeiro da história futebolística de Angola. Tive a sensação de missão cumprida, porque era importante ganharmos aquele jogo. É evidente que se espera sempre golos dos avançados. Felizmente, com uma jogada brilhante de Zeca Langa, após várias tabelas com outros jogadores, fez o cruzamento crucial e limitei-me a fazer o movimento normal de um ponta-de-lança que resultou no golo que carimbou o nosso passaporte Alemanha. Fico feliz, não apenas por ter feito o golo, mas também pelo facto de saber que o grupo cumpriu com o grande objectivo: estar presentes no Campeonato do Mundo.

Em função do nível do nosso futebol, estamos no caminho certo após trinta e cinco anos de independência?
Não diria que estamos no caminho certo. Já houve fases em que pensávamos estar no caminho certo. É claro que, para quem ganha o campeonato africano de Sub-20; vai várias vezes a fases finais dos Campeonatos africanos com a Selecção “A”; apura-se para um Campeonato do Mundo e organiza um CAN, numa altura em que o país dava novos passos, é normal as pessoas pensarem estar num nível mais elevado, de progresso e que haveríamos de dar um passo gigante. Infelizmente, as coisas não têm corrido conforme esperávamos.

Como caracteriza o momento que vive o futebol angolano?
O futebol está num momento conturbado; o nosso futebol está a atravessar uma fase menos boa; estamos a viver uma crise dentro do nosso futebol. Todos os amantes do futebol, seja dirigente, agente desportivo, legislador ou mesmo jogador, em conjunto, devemos parar e procurar as verdadeiras razões que fazem com que o nível do nosso futebol decresça a cada dia.

O que se deve fazer para reverter o quadro sombrio?
Temos de dar maior atenção à camada jovem, à formação, para que os jovens venham a ser os pilares das nossas selecções e Angola volte a dar alegria ao seu povo. Hoje, há sempre críticas, as pessoas não saem satisfeitas dos estádios mesmo com vitórias da selecção nacional. Então é tempo de pararmos de criticar e fazer alguma coisa. Todos devemos estar unidos por uma causa comum, para se encontrar melhoria e dar o passo para frente. É o que todos queremos.

Quando fala em paragem para uma reflexão, a que se refere concretamente?
Refiro-me concretamente a uma paragem que nos possibilite rever e discutir aquilo que não está bem. Por exemplo, as nossas selecções jovens são sempre eliminadas nas primeiras fases das competições em que estão inseridas. Depois de uma participação no Mundial da Alemanha, em que fiz parte, a selecção “A” nem conseguiu passar para a fase de grupos para participar no primeiro Mundial organizado no continente africano; só participou no CAN’2010, porque fomos os organizadores. O contrário, também corria o risco de não participar. Isso acaba por ser negativo para o nosso futebol.

Quanto aos clubes, será que tudo vai a preceito nas Afrotaças?
Quando me refiro às selecções nacionais, também falo sobre os clubes. Infelizmente, já não temos tido as brilhantes campanhas iguais as que se faziam no passado. Os nossos são eliminados nas primeiras eliminatórias quer a nível da Liga dos Campeões africanos, quer a nível da Taça Nelson Mandela. É a razão da paragem a que me refiro; para reflectirmos e trabalharmos em prol do nosso futebol.

Faltam pessoas
sérias no futebol
angolano


Qual foi para si o momento mais feliz durante a sua carreira futebolística?  
Vivi vários momentos felizes na minha vida, mas sem margens para dúvida, o jogo de 8 de Outubro de 2005 marcou-me bastante. Acredito que também tenha marcado todo o povo angolano. O golo marcado em Kigali e apurou-nos para Alemanha´2006 ficará marcado para toda a vida; é um feito inscrito na história do nosso país e terá sido o ponto mais alto da minha carreira.

O que tem faltado ao futebol angolano para que ganhe maior expressividade?
Faltam pessoas sérias no nosso futebol, porque há algumas que só querem ganhar dinheiro. Há aquelas que se dedicam de corpo e alma, mas não podem fazer mais, porque outro grupo entra para ganhar dinheiro. E quando isso acontece, torna tudo complicado. Enquanto uns remam para frente, outros fazem o contrário, dificultando a marcha. É necessário fazer um novo investimento em pessoas sérias. Temos de beber dos exemplos dos outros povos, como Portugal, Espanha, África do Sul, onde os dirigentes das federações são pessoas que foram jogadores e que sabem lidar com a modalidade; têm de ser pessoas que andaram no futebol e que sabem muito sobre esse desporto. Infelizmente, as coisas não funcionam assim no país.

Refere-se directamente às pessoas que dirigem a Federação Angolana de Futebol (FAF)?
Efectivamente. Se olharmos bem para a nossa federação, infelizmente, vamos notar que há um grande vazio em termo de ex-praticantes da modalidade. Não quero dizer com isso que todos tinham de estar na federação. Os ex-praticantes poderiam estar lá dentro a passar a experiência e com uma maior formação. A FAF tem capacidade de pegar em três, quatro ou cinco antigos praticantes de futebol e mandá-los formar em várias universidades no estrangeiro; seriam mais-valias para o futebol nacional, porque primeiro está o homem e só depois os resultados.

É a receita para que o futebol ressurja no continente?
É isso que tem faltado. A FAF está divorciada daqueles que foram estrelas da modalidade no passado. Se houver a união, à semelhança do que se passa no andebol e no basquetebol, poderemos dar um passo maior. Nas federações e nas associações de andebol e basquetebol, estão inseridas pessoas que são ex-praticantes. O futebol também tem de seguir essa dinâmica, porque somos o espelho das nossas crianças; temos de estar com o futebol.

Fala como porta-voz dos ex-futebolistas?
Em conversa com algumas pessoas amigas, que foram grandes jogadores, mas se sentem divorciadas do futebol, porque dizem que os responsáveis federativos não lhes têm dado ouvidos, nem sequer saber da sua existência, é notável a insatisfação. A realidade e a verdade caminham para o sentido contrário. Essas pessoas deviam ser vozes autorizadas para emitir opiniões quer com os seleccionadores, quer com os jogadores, auscultando-os sobre o que há. Seriam autorizados a fazer sondagens, para que sejam úteis ao nosso futebol.

Amigo dos antigos craques

Qual é o grau de relacionamento que mantém com as outras estrelas como Ndungidi, Jesus, Abel e outras lendas do futebol depois da independência?
Felizmente, a minha relação é muito boa. Encontro-me várias vezes com o Jesus, porque a minha equipa ‘Amigos do Akwá’ joga durante a semana no campo “Manuel Berenguel”, onde a equipa da Rádio Nacional de Angola, de que faz parte, faz os seus jogos. Quanto ao Ndungidi, não conversamos muito. É uma pessoa que admiro e falamos sempre que nos encontramos. É do conhecimento geral que Ndungidi é de poucas falas e temos de respeitar a sua maneira de estar. O Garcia, antigo capitão dos Palancas Negras, é um dos meus melhores amigos. Sempre que vou a Benguela, brincamos e me trata bem. Aliás, conhece-me desde criança, porque quando comecei a dar os primeiros saltos, me acompanhou; foi das primeiras pessoas que esteve nas negociações entre o Sporting de Portugal e o Akwá. Por essa e outras razões, mantenho relações excelentes.

Nas conversas entre os capitães não há insubordinação?
Nas nossas brincadeiras, considero-me o capitão dos capitães. O Garcia refuta, alegando que o cargo lhe pertence por ter sido um dos primeiros capitães da selecção nacional, após independência nacional. Falo do Garcia, como também falaria do Sarmento, André Nzuzi, o meu compadre, Abel Campos, com quem tive o privilégio de jogar na equipa do Alverca, de Paulo Tomás, de Paulão, com quem travo uma grande amizade, o Luizinho, que também faz parte da equipa dos Amigos do Akwá. Mantenho boas relações com a maioria dos ex-jogadores, mesmo com aqueles que não vi jogar como os “cotas” Dinis, João Machado, Inguila e outros.