Jornal dos Desportos

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Entrevistas

O meu fim não é no Progresso

Avelino Umba - 03 de Dezembro, 2011

António João Seabra , membro da equipa técnica dos juniores

Fotografia: José Soares

Pode falar-nos do seu dia-a-dia à frente da formação dos novos jogadores?
Sou técnico de futebol, ao serviço do Progresso Sambizanga, a dar o meu contributo no escalão júnior, ao lado do professor Janquelito, uma pessoa já conceituada nas lides futebolísticas em Angola. Estou num grande clube e espero que o nosso trabalho se traduza naquilo que perspectivamos, que é fazer sair da nossa escola grandes jogadores. Temos conseguido produzir bons valores para a equipa principal.

 O que o motivou a estar no Progresso?
Deve-se, acima de tudo, ao amor à profissão e ao clube. Por intermédio do director do clube, António Gomes “Tony Estraga”, deram-me uma grande oportunidade de poder trabalhar com os jovens de forma a criar grandes jogadores para a equipa principal.

Qual é a sua meta no clube?
Estou a procurar a impor-me no clube, pois, no desporto, as coisas não são estáticas. Mas, se não conseguir no Progresso, pode ser num outro clube que esteja interessado no meu trabalho. Todo o ser humano quer atingir grandes patamares. Apesar do Progresso ser o clube de Angola em que comecei a dar os primeiros passos como treinador, não significa que o meu fim seja lá.

Há quanto tempo trabalha com o escalão júnior do Progresso?
Estou a dois anos a trabalhar com os juniores de Progresso desde o meu regresso de Portugal.

“Estou no clube por amor”

Tem contrato com o Progresso até quando?
Não tenho contrato firmado com o clube, pois em Angola não existem contratos para treinadores de juniores. Trabalho como um funcionário normal sem contrato. Estar no Progresso não implica um contrato, mas sim estar ligado ao clube, de maneira que vou aumentando os meus conhecimentos nas vestes de treinador.

Disse que está há dois anos no Progresso após a sua chegada de Portugal. Trabalhou lá nalgum clube?
Trabalhei em Portugal como treinador estagiário de juniores, numa equipa denominada ADO, entre Dezembro 2006 e Março de 2007. De 2007 a 2008, fui treinador juvenil do Núcleo do Sintra e, de 2009 a 2010, treinador de juniores do Sporting Alta de Lisboa.

 Como caracteriza o futebol jovem em Angola?
Para lhe ser sincero, matéria e qualidade humana há muita. Só falta serem bem lapidadas, pois os clubes precisam de investir muito mais e com maior brevidade possível na rapaziada, assim como nas infra-estruturas e material para os atletas, o que tem sido muitas vezes esquecido pelos dirigentes de determinados clubes.

Para si, o que é ser treinador dos escalões jovens?
Ser treinador dos escalões jovens é o mesmo que ser um pai exemplar. Os clubes devem investir no treinador, de forma que ele tenha qualidades. É necessário ter motivação e ser capaz de estabelecer uma boa relação com os jogadores, conhecer os métodos e os meios mais adequados para o seu desenvolvimento. Treinar jovens não é o mesmo que orientar adultos. Devem merecer uma especial atenção. Isso não acontece em Angola, onde poucos clubes pagam o razoável aos técnicos.

Considera importante que os técnicos das equipas de formação sejam pessoas com habilitação técnica e académica para tal?
É indispensável que todas as equipas possuam um treinador com formação para exercer o cargo. Esse é o primeiro passo para a construção de uma boa equipa e da forma mais correcta. É também importante que este treinador tenha paixão pela formação, para se poder entregar a esse projecto. Treinar jovens não é o mesmo que treinar seniores. Na verdade, estamos limitados a acções de formação, mas há sempre formas de nos actualizarmos com todos os meios de que dispomos e transpor para o campo toda essa aprendizagem, para que não fiquemos apenas com os diplomas arrumados na gaveta.

“Os dirigentes não reconhecem
as capacidades dos treinadores”

A sua metodologia de treino tem sido bem aceite pelos atletas?
Acredito que sim. Na verdade, cada um de nós tem a sua metodologia. Procuro que, em cada exercício, exista um conteúdo bem definido, de acordo com o modelo de jogo e o mais perto possível daquilo que é a realidade da competição. Preocupo-me sempre em explicar cada exercício aos jogadores, não apenas do ponto de vista da execução, mas, sobretudo, visando o seu conteúdo táctico.

Explique-nos de modo simples esse aspecto...
Os educadores ou treinadores dos escalões de formação têm de ser pessoas qualificadas, habilitadas a treinar jovens, com noção sobre as suas características e os métodos mais adequados para o seu desenvolvimento. Pessoas que gostem e saibam lidar com os jovens e que sejam reconhecidos e recompensados pelo desempenho das suas funções. Porém, a realidade do futebol angolano é que os dirigentes não reconhecem as capacidades dos treinadores que trabalham nos escalões de formação, por mais competentes que sejam.
Quais são os fundamentos para que os jovens jogadores possam ter êxitos profissionais no futuro?
Cada vez mais competições, porque é algo inerente ao desporto de alto rendimento. Isso não se confina aos profissionais que têm o quotidiano regrado a partir da actividade física. Para os jovens, sobretudo os que vêem o desporto como hipótese de mudar de vida, trabalho árduo e vitórias são coisas fundamentais para o crescimento.

O que se deve fazer para que algumas crianças vivam o futebol como forma de mudança no seu quotidiano e oportunidade para mudarem a rotina das suas vidas?
É necessário um grande espírito de sacrifício tanto no seio familiar, como no meio de colegas de equipa. Os pais devem fazer tudo ao seu alcance, sobretudo no dispêndio de tempo, para acompanhar os filhos aos treinos e os jogos, de forma a garantir a assiduidade e a pontualidade dos seus filhos.

Quais os principais objectivos dos treinadores dos escalões de formação?
Os treinadores dos escalões de formação têm como principal objectivo contribuir para uma formação adequada dos jovens, incentivando sempre o desejo e o gosto pela vitória, pois o desejo de vencer é ambição de qualquer ser humano.

Que comentário pode fazer sobre o Girabola?
Está bastante competitivo, mas não podemos ter um bom campeonato se não apostarmos na formação dos jovens. São eles os garantes da continuidade. O campeonato tem estado a decorrer bem, mas não tem um jogador com 17, 18 anos a impor-se em determinada equipa. É uma situação que tem de ser invertida, pois, isso mostra que não se tem investido na base, a aposta é sempre feita em jogadores estrangeiros. Mas, duma fora geral, o Campeonato Nacional tem vindo a ganhar bom ritmo competitivo.

PERFIL …
Nome: António João Seabra 
Data de Nascimento: 14/10/1975
Naturalidade: Maianga/ Luanda
Nacionalidade: Angolana
Estado civil: Solteiro
Filhos: 2 filhos
Altura: 1.68 cm
Peso: 65 Kgs
Tabaco: Não faço uso 
Bebida: Agua e sumos, uma vez a outra uma cerveja
Número de calçado: 41
Música: Kizomba
Prato preferido: Bitoque
Cor preferida: Azul
Religião: Protestante
Calor ou cacimbo? Cacimbo
Esplanada ou discoteca? Esplanada  
Boleia ou volante: Volante