Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

O meu sentimento de frustrao

Augusto Panzo - 19 de Novembro, 2017

Hlder Teixeira agastado com assdios aos atletas formados nos clubes pobres pelos financeiramente fortes

Fotografia: Vigas da Purificao

O treinador Hélder Teixeira, que assumiu o comando técnico da equipa do Santa Rita de Cássia FC na segunda volta do Girabola Zap de 2017, em substituição do português Sérgio Traguil, veio a terreiro esclarecer as razões que estiveram na base do fracasso do projecto que assumiu, cujo realce vai para a questão de incapacidade financeira.

Em entrevista que concedeu ao Jornal dos Desportos, Hélder Teixeira enalteceu o esforço levado a cabo pelo presidente de direcção daquele clube, Nzolani Pedro, que se traduziu numa autêntica luta de sobrevivência.

"O projecto Santa Rita de Cássia FC fracassou por vários factores. Em primeiro lugar não se pode fazer omeletas sem ovos. Quero com isso dizer que houve uma série de dificuldades financeiras, que levaram realmente a equipa a claudicar. O Santa Rita de Cássia FC tinha de início um patrocinador, que é a Crisgunza, que a meio da primeira volta, por razões que não sei, nem me dizem respeito, acabou por desistir", disse o antigo treinador do representante do Uíge no recém-terminado Girabola Zap.

Hélder Teixeira acrescentou que, a partir do momento em que este patrocinador "largou o barco", o clube do santuário passou a viver momentos de dissabores, pois, isso obrigou o presidente do clube a fazer muitos exercícios, com vista a salvar a equipa.

"Depois da desistência da Crisgunza, o presidente Nzolani Pedro ficou com grandes dificuldades financeiras  para dar cobro às necessidades inerentes ao campeonato.  Sendo assim, condicionou e de que maneira o desenvolvimento, bem como a sua permanência no Girabola", salientou o técnico.

Sem rodeios, nem delongas, Hélder Teixeira confessou a sua frustração, pelo facto de não ter alcançado os objectivos traçados para com o Santa Rita de Cássia FC.

"Naturalmente que o meu estado é de frustração, porque um treinador quando não alcança os seus objectivos traçados não lhe resta mais nada, senão a frustração. E quando achamos que podemos fazer mais e melhor, mas estamos de braços atados, não se tem dinheiro nos clubes, aparecem uma série de complicações para o desenvolvimento dos projectos", disse.

O treinador criticou a forma como os dinheiros são distribuídos aos clubes no nosso país, pois, na sua óptica existem clubes mais beneficiados em detrimentos de outros, apesar de não citados nomes.

"Infelizmente os dinheiros para os clubes em Angola não estão a ser distribuídos de forma equitativa, porque há uns que recebem mais que os outros. E para aqueles que tem pouco dinheiro aparece uma série de outras situações que acabam por contribuir para o mau desempenho das equipas", ressaltou.

Hélder Teixeira lamenta o facto de o presidente do Santa Rita de Cássia FC, Nzolani Pedro, ter ficado sozinho após a Crisgunza ter retirado o patrocínio. Por isso considera o responsável dos "católicos" um "grande herói", pois mesmo com as dificuldades a equipa não perdeu qualquer jogo por falta de comparência.

"O Nzolani Pedro (presidente do clube) foi um herói pela situação financeira que a equipa atravessa. Muitas das vezes ele tirava dinheiro do seu bolso para acautelar certos problemas depois da desistência do patrocinador. Ainda assim, a equipa, mesmo viajando de autocarro, não perdeu jogos por falta de comparência.  Confesso que cheguei a pensar que não chegaríamos ao fim do  campeonato, pois as dificuldades eram imensas", referiu.


REVELAÇÃO
Técnico quer orientar
equipa estável

Hélder Teixeira revelou que, com os resultados que vem tendo nas equipas por onde passa, tidos como positivos, o que falta aos treinadores da sua geração é segurarem em equipas que tenha saúde financeira estável. 

"Acho que, em função dos resultados que tenho vindo a demonstrar nas equipas que oriento, o que me falta e à nossa geração de treinadores são as oportunidades de trabalhar com equipas que, financeiramente estejam em condições aceitáveis, do estatuto de um Petro de Luanda ou de um 1º de Agosto. Agarrar numa equipa média alta do nosso futebol, para que eu realmente possa mostrar todo o meu potencial, que é o ponto que me falta na minha carreira", afirmou.

Hélder Teixeira confessou ter sido abordado pelo presidente do Santa Rita de Cássia FC, Pedro Nzolani, no sentido do técnico continuar à frente da equipa. Mas em função da sua ambição, a ideia é mesmo de abraçar um desafio maior.
"Fui contactado pelo senhor presidente Nzolani Pedro, no sentido de ver se posso continuar no comando do Santa Rita na Segunda Divisão, para lutar pelo regresso à fina flor do futebol nacional. Mas como na vida tudo é possível, a minha intenção é pegar um projecto mais ambicioso", explicou o ex-treinador da formação do Uíge.

Ainda em relação a isso, o Jornal dos Desportos indagou-o dos possíveis contactos mantidos, ao que este respondeu existirem já alguns, mas que preferiu ocultar de momento, para não despertar a caça.

"Tenho já alguns contactos adiantados com certos clubes (não especificou se da primeira ou segunda divisão), mas infelizmente não posso ainda adiantar muita coisa, com o propósito de não espantar a caça. Tudo ainda está envolto em segredo. Quando chegar o momento exacto, digo alguma coisa a respeito", adiantou.   
                           

NOVA GERAÇÃO DE TREINADORES
Hélder defende melhores oportunidades


O antigo treinador do Santa Rita de Cássia FC, Hélder Teixeira, é proveniente de uma escola inglesa, onde fez a sua formação como treinador de futebol em companhia de David Dias e Paulo Saraiva. Por isso é de opinião que se dê melhores oportunidades a essa nova geração de treinadores.

"Eu faço parte da nova geração de treinadores no país, da qual pertencem também os colegas David Dias e o Paulo Saraiva, que se formaram na mesma escola onde fiz a minha formação, isto, na Inglaterra. Como se sabe, sem menosprezo para os outros, somos um leque de treinadores com um potencial muito grande, mas que requeremos melhores oportunidades, para desenvolvermos todo o nosso potencial", solicitou. Sobre os respectivos rendimentos, em termos de produtividade das equipas orientadas por estes treinadores da nova geração, o nosso entrevistado disse haver demonstração de bons resultados.

"Essa nova geração tem vindo a mostrar alguns resultados positivos. Se reparar, nós pegámos equipas com sérios problemas financeiros, o que na minha óptica, talvez seja a causa fundamental de termos alguns insucessos. Mas posso aqui citar alguns exemplos positivos com relação a minha própria pessoa. Quando peguei o Recreativo da Caála por exemplo, resgatei essa equipa, tirando-a da posição incómoda em que se encontrava com nove pontos, e coloquei-a numa posição privilegiada, que permitiu a sua permanência no Girabola daquele ano. Isso não foi um mero acaso, mas sim, fruto de um bom trabalho feito", ressaltou.

O técnico disse ainda que o seu bom empenho como treinador da nova geração não fica por aí, porque teve igualmente uma experiência semelhante no Estrela Clube 1º de Maio de Benguela.

"E esse exemplo não é suficiente. Quando abracei o compromisso com o 1º de Maio de Benguela, posso dizer que também tive um bom resultado, ao conseguir a permanência daquela equipa no campeonato. Agora foi a vez do Santa Rita que, apesar de baixar de divisão, encontrei-a numa situação pontual muito negativa, com sete pontos, mas acabámos o Girabola com 23 pontos. Tudo isso não é coisa de pouco trabalho. Mesmo com uma equipa numa condição financeira difícil, conseguimos fazer o que pudemos na segunda volta", fez notar.                               


“Deve-se criar
políticas que
salvem o futebol”


Hélder Teixeira reconheceu haver uma ascensão no futebol angolano, mas na sua opinião, esse crescimento tem que ser acompanhado de uma política que ajude a salvar a modalidade e não aquela que prejudique essa previsão.

"O futebol angolano vive momento de ascensão, mas defendo que devem ser criadas políticas que o salvem. Políticas que permitam que seja distribuído o dinheiro aos clubes, de uma forma equitativa para todos eles, sem olhar para este ou aquele. Se essa divisão não for equitativa, porque pode não ser possível, mas que seja feita de forma aproximada, como por exemplo, se para o clube mais cotado o seu orçamento for de 40  milhões de kwanzas, os outros podem ficar nos 38 milhões", aclarou.
 
Para Hélder Teixeira, isso iria permitir que as equipas entrassem para o campeonato quase em pé de igualdade, pois, ninguém poderia apresentar desculpas esfarrapadas com relação às finanças.

"Se isso fosse feito desta forma acho que nenhuma equipa estaria em desvantagem diante da outra. Mas se isso não se fizer assim, acho que será muito difícil haver equilíbrio, porque nós, treinadores das equipas pouco cotadas teríamos sempre as mesmas dificuldades", admitiu.            


LAMENTAÇÃO
“Nós formamos e os tubarões levam”


O treinador Hélder Teixeira recordou um factor que os tem deixado triste, que é de forjar jogadores talentosos, mas que, por dificuldades financeiras das respectivas equipas vêem-se despojados dos mesmos, em detrimento dos clubes considerados "tubarões", que acabam por levar esses atletas a troco de nada, movimentos esses que muitas vezes acabam por prejudicar certos projectos.

"É muito triste o que muitas das vezes acontece connosco nas equipas financeiramente débeis. Nós nos esforçamos a preparar os jogadores, forjar talentos, mas por incapacidade financeira acabámos por ver esse esforço esfumar-se, porque os chamados tubarões, aqueles clubes financeiramente bem dotados, chegam e levam esses jogadores para os seus clubes", lamentou.

Na óptica do treinador, este tipo de comportamento só acontece porque não existem medidas acautelatória nesse sentido, o que acaba por deitar abaixo projectos que à vezes vêm sendo edificados pelos técnicos.

"Isso muitas das vezes deixa-nos de mãos atadas, porque nós formámos o atleta a contar com um determinado projecto de evolução da equipa, mas acabámos por ficar sem solução por este facto e continuámos sempre na luta, a remar contra a maré", afirmou.

A elucidação feita pelo JD de que o mercado futebolístico passa por isso, Hélder Teixeira concordou que sim, mas que tudo isto ocorre em função da disparidade de salários que se verificam entre uns clubes e outros.

"Sei que o mercado de futebol passa por isso, mas a realidade é que, isso só acontece devido às diferenças que se registam no capítulo de salários nos clubes. Conforme disse antes por exemplo, eu treino determinada equipa onde um jogador recebe um ordenado de cem mil kwanzas e ele é um craque. Nessa sua condição de craque aparece um clube como o Petro, Interclube ou 1º de Agosto, que o alicia com quinhentos mil. É claro que ele não vai olhar atrás na proposta e vai avançar. É aí que reside o nosso prejuízo", rematou.