Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"O nosso atletismo está doente"

Mário Eugénio - 22 de Agosto, 2017

António Andrade antigo fundista está desapontado com o momento actual do atletismo no país

Fotografia: Contreiras Pipa |Edições Novembro

O senhor é tido como uma referência do atletismo nacional. Apesar disso e após algumas tentativas não conseguiu até agora lograr a ambição de chegar à presidência da Federação Angolana de Atletismo. O que lhe tem faltado?
Antes de mais quero agradecer a oportunidade que me concedem para falar um pouco sobre o nosso atletsismo. Indo directo à pergunta que me faz, tenho a dizer que lamentavelmente no nosso país os pleitos eleitorais nas associações desportivas têm sido movidos mais pelo dinheiro do que pela capacidade que as pessoas têm para desenvolver esta ou aquela modalidade. Todo mundo sabe que António Andrade é um antigo professor de Educação Física, que formou vários atleas no país, alguns de renome como são os casos de João Ntyamba, Aurélio Mity, Delfim Pimentel entre outros. A minha missão sempre foi a aposta no homem, porque é ele que gera o desenvolvimento, mas a verdade é que sem dinheiro nunca fui capaz de convencer que era capaz de mudar o paradigma do atletismo no nosso país.

Citou dois nomes de peso do atletismo angolano que passaram pelas suas mãos enquanto formador: João Ntyamba e Aurélio Mity. Quer com isso dizer que se chegasse à presidência teríamos muito mais referências na modalidade?
Como educador e antigo atleta a minha aposta foi sempre a formação do homem, como já me referi. Infelizmente aqui não se olha muito para a consciência e capacidade das pessoas; a força intelectual e aquilo que um indivíduo é capaz de fazer para construir o futuro do país e o homem novo. A premissa aqui é o dinheiro e quem demonstra possuir capacidade financeira tem meio caminho andado para ganhar as eleições. Os projectos não contam muito, e isso impediu-me até aqui de chegar à presidência da federação. Deixa-me dizer que nunca foi uma ambição só minha ser presidente da federação de atletismo. Sempre tive o convite de pessoas ligadas à modalidade e o apoio de uma ou outra associação.

Tem se dito que a esperança é a última a morrer. Chegados aqui, ainda mantém vivo este sonho de ser presidente da FAA? Ainda se sente com forças para correr atrás deste objectivo?
Não devemos olhar para idade mas sim para a capacidade das pessoas. Eu não descarto esta hipótese. Dou como exemplo o Lulas da Silva, antigo presidente da República do Brasil. Tentou várias vezes até que um dia chegou ao poder. Continuo a sentir que vários associados e agentes ligados ao atletismo acreditam em mim, nas minhas ideias, sentem que posso trazer algo de novo e de bom para o atletsimo nacional. Aliás, deixa-me dizer que nesta última eleição no atletismo só não tive êxito porque a minha lista foi invalidada pela comissão eleitotal.

O que aconteceu de concreto? Quer se explicar melhor?
Eu fui atleta, chefe de departamento e director de recursos humanos do 1º de Agosto econtava com o apoio deste clube para subescrever a minha lista. Infelizmentee não obstante ter entregue um programa de acção com cabeça, tronco e membros, o clube preferiu apoiar uma outra lista cujo programa não superava o meu. Lamentavelmente, quer o 1º de Agosto, quer o Interclube optaram por subescrever uma outra lista, em virtude de haver lá pessoas que são militares e que exerceram uma certa influência. O António Andrade apesar de não ser político nem governante também presta serviços úteis à sociedade, num organismo como uma associação de moradores, onde é respeitado e visto com bons olhos por tudo aquilo que tem feito. A minha lista foi subescrita pelo Ferroviário de Luanda e na altura este clube ainda não tinha realizado as eleições. A comissão eleitoral apegou-se nisso e excluiu a nossa candidatura.

Podemos concluir que foi um acto puramente legal a exclusão da sua lista?

Sim, a comissão eleitoral agiu conforme mas também nós já vínhamos alertando a Direcção Nacional dos Desportos, na pessoa do senhor director nacional, para que em tempo oportuno fizesse chegar aos clubes o calendário para o cumprimento da lei em termos de realização dos pleitos eleitorais. A lei fala num prazo de 120 dias, mas muitos dos clubes receberam essa directiva quando faltava pouco menos de um mês e isso fez com que muitos não cumprissem a lei. Ou seja, foi o próprio Ministério da Juventude e Desportos que levou muitos clubes, associações e federações a não realizarem as eleições a tempo e hora.

A renovação de mandatos nos mais variados organismos (clubes, associações, federações) esteve envolta de alguma polémica e contestação, havendo casos em que as próprias comissões eleitorias pareciam não dominar a nova legislação desportiva. Na sua óptica o que aconteceu de facto?
Eu penso que todos estes problemas que surgiram em muitos dos pleitos tiveram como culpado o Ministério da Juventude e Desportos. Temos na verdade uma nova legislação mas poucas pessoas a dominam, porque não foi feito um trabalho sério de divulgação das novas leis. Parece ter havido jogos de interesses para beneficiar uns e prejudicar outros, porque na verdade o ministério imiscuiu-se em muitos casos quando não devia fazê-lo. As comissões eleitorais são independentes e têm competência para ultrapassar as questões que surgirem no decorrer do processo. Mas o que vimos em muitos casos é o ministério orientar para uma ou outra medida, que acabou por prejudicar o candidato A ou B. Não quero com isso dizer que fui prejudicado por essa interferência, mas isso de uma ou de outra forma acabou por prejudicar, em alguns casos, as eleições no desporto. 

Já disse que mantém a ideia de que pode um dia chegar à presidência da federação. Caso este sonho fosse concretizado a curto prazo, quais são as grandes ideias que António Andrade tem para o atletismo nacional?
Nós temos espelhado tudo isso no nosso programa de acção, que os associados e agentes da modalidade tiveram a oportunidade de consultar e estudar. Recebemos muitos elogios mas infelizmente em função do que ocorreu não tivemos a oportunidade de concorrer para convencer o eleitorado. Mas de um modo geral temos como grandes ideias, organizar toda parte administrativa e técnica da federação, para controlar o número de atletas, as marcas nas diferentes disciplinas, a calendarização de todas as provas nacionais entre outras acções que estão alí bem espelhadas. Um outro passo importante seria uma parceria com o Ministério da Educação para levar o atletismo nas escolas, de modo a massificá-lo e a partir daí começarmos a fazer uma selecção criteriosa de atletas para alta competição nas várias disciplinas do atletismo. Prevemos também uma cooperação mais estreita com o Ministério da Juventude e Desportos, na qualidade de órgão reitor da política desportiva nacional, para em conjunto definirmos uma série de projectos que poderiam levar o país a conquistar medalhas nas várias competições internacionais, quer sejam regionais, quer mundiais. O atletismo é a modalidade rainha dos Jogos Olímpicos e é importante termos metas para esta competição a médio e longo prazos.

“O ministério precisa melhorias”
Voltando a questão das eleições. Por aquilo que disse ficamos com a ideia de que não vê com bons olhos a actuação do Minjud...

Há coisas que já não deviam ter acontecido. O senhor ministro dos Desportos é um quadro muito antigo na casa mas parece desconhecer muitas questões, desculpa que o diga e eu assumo aquilo que falo. Não o acho a altura do cargo. Penso que no país temos pessoas mais capazes e que podem assumir este ministério, como é o caso do senhor professor doutor Bernardo Manuel, foi director dos desportos em Portugal, tem colaborado com o 1º de Agosto, tem uma vasta experiência e conhece perfeitamente a nossa realidade desportiva. O senhor Albino da Conceição foi director nacional, depois secretário de Estado e agora é ministro mas não se lhe conhece obra feita. Não conheço nada que tenha feito de substancial para o desporto. Temos agentes desportivos que estariam melhor no cargo, como são os casos de Gustavo da Conceição, presidente do COA, ou até o Pedro Godinho, presidente da federação de andebol.

Não acha que pelo percurso feito dentro do próprio ministério, Albino da Conceição merecia esta oportunidade que lhe foi dada de chegar ao topo da hierarquia daquele departamento ministerial?
Na minha opinião, e não é só minha mas de muitos outros desportistas, acho que ele não seria a pessoa mais indicada. Aliás, desde a altura que era director nacional e depois passou a secretário de Estado muitos já não o aprovavam para estas funções. Nesta altura posso afirmar que o Ministério da Juventude e Desportos vai mal e e precisa de mudanças.

MOMENTO ACTUAL
“O atletismo está doente”


Voltando ao atletismo, como o vê hoje comparando-o com um passado recente?
O atletismo está doente. Eu na qualidade de antigo praticante e referência do passado do nosso atletismo nunca fui convidado a visitar as novas instalações da federação; as pessoas quando chegam à federação esquecem-se daqueles que foram os pioneiros e os percursores da modalidade. Eu não peço nenhum tipo de apoio à federação, mas acho que merecia um tratamento mais condigno, mais respeitoso por parte daqueles que até agora geriram a modalidade. Tal como acontece em algumas federações, poderíamos servir como conselheiros.

Na sua óptica o atletismo está doente por falta de atenção que não é prestada a si e a outros agentes da modalidade?
Eu digo que o atletismo está doente porque não há actividade quase nenhuma, à excepção de uma ou outra prova e depois a corrida de fim de ano. Não há políticas para que mais clubes apostem no atletismo e se expanda a modalidade. Em Luanda, tirando o 1º de Agosto, o Interclube e talvez o Petro não há mais clubes que apostam no atletismo. Em termos provinciais temos a Huila mas no resto do país quase que a modalidade não se faz sentir. No passado tínhamos mais clubes, mais atletas, mais provas, mais pistas, enfim, o atletismo tinha muito mais força e espaço do que vemos hoje. O atletismo deve ser praticado nas escolas, nos bairros, é aí onde se descobrem os talentos para serem depois trabalhados nos clubes. A federação parece não ter políticas, pois não vemos nada se não a morte da própria modalidade. Numa só palavra poderia dizer que o atletismo hoje se resume à corrida de fim de ano São Silvestre.

Como corrigir esta realidade para retirar a modalidade desta letargia?
Deve haver maior rigor no trabalho, haver maior incentivo para a prática da modalidade, a escolha de pessoas certas na altura da constituição de listas daqueles que se vão candidatar para as associações ou a federação, pois temos verificado que muitas pessoas não têm nada a ver com o atletismo e depois de eleitas não sabem o que fazer. Isso é muito grave e é o que tem estado a acontecer. Penso que o ministério devia apertar um pouco mais a legislação para evitar que toda e qualquer pessoa chegue a dirigente desportivo.

O país tem estado a enfrentar há coisa de três anos uma crise económica e financeira que atingiu todos os sectores. Não acha que de algum modo isso tem dificultado o desempenho dos gestores desportivos?
A crise existe mas não podemos nos apegar a ela para justificar tudo. O estado continua a apoiar o desporto, mesmo com a crise, mas vemos que a gestão nem sempre é bem feita. O próprio Ministério da Juventude e Desportos nunca vi a prestar contas, como fazem outras instituições públicas e privadas nos jornais. Eu louvo a iniciativa do antigo PCA do BPC, Paixão Júnior, do PCA do BIC, do BCI e de outras instituições que regularmente mostram as suas contas para que todo mundo saiba como estão a ser geridas as suas empresas.  Por que o ministério e as federações não fazem o mesmo se utilizam fundos públicos?

Nos últimos oito anos a federação esteve sob gestão de Carlos Rosa que perdeu a presidência nas últimas eleições para Bernardo João. O que pode destacar da gestão do anterior elenco?
Carlos Rosa não trouxe nada de novo para o atletismo. Não fosse algum compadrio do ministério talvez ele não chegasse à presidência da federação. Mesmo sabendo que já não tinha nada a oferecer queria a todo o custo continuar na federação, mas os associados deram-lhe uma boa resposta com a eleição de um novo presidente. Mesmo assim ele ainda pretendeu continuar por via da federação internacional (IAAF), onde ainda assinava alguns documentos mesmo depois da tomada de posse do actual elenco. Também me foi informado que pretendendo dificultar o novo presidente, escreveu uma carta à Sonangol a pedir que cessasse os apoios à federação. Acha que isso mesmo é atitude de um dirigente?

DEPOIS de  NTYAMBA E COMPANHIA
“Dificilmente vão surgir
novas referências”


João Ntyamba, Aurélio Mity, Guilhermina Cruz, Ana Isabel, só para citar estes, foram algumas das grandes referências do nosso atletismo num passado recente. Por que razão custa agora aparecer outros nomes de destaque?
O surgimento de alguns destes nomes e outros que não foram citados é fruto de um trabalho profundo de António Andrade, que teve visão, consultou o general Ndalu, na altura chefe do Estado Maior General e presidente do Codemn, e com o apoio do nosso responsável na altura, o malogrado Ângelo Silva, a quem eu expliquei que não tinha condições de trabalhar com estes atletas no país, sugeri o envio deles para o exterior. Os frutos começaram a surgir graças a este apoio do general Ndalu e do Doutor Rui Mingas, antigo responsável da Secretaria de Estado da Educação Física e Desportos que muito fez pelo desporto neste país. Creio que foi o melhor momento do desenvolvimento do desporto nacional.

Acha que os clubes têm estado a trabalhar para que tenhamos nos próximos tempos mais Ntyambas, Mitys, Isabeis, guilherminas...
Não vejo muita evolução nem um trabalho de profundidade nos clubes. Aqueles clubes que já citei, os maiores do país, têm feito alguma coisa mas dificilmente vamos voltar a ter grandes nomes nesta modalidade. Louvo o trabalho do presidente do 1º de Agosto, general Carlos Hendrick, que tem mostrado uma grande competência e amor ao desporto e espero que mais dirigentes sigam o exemplo, fazendo uma maior aposta no atletismo e não apenas nas modalidades tradicionais como o futebol, andebol e basquetebol. Se o trabalho dos clubes melhorar e haver uma maior aposta é possível que surjam novas referências.  Os nossos recintos desportivos são colocados à disposição de igrejas para cultos religiosos, para actividades culturais, actividades estas que acabam por dar cabo delas. Apesar de gerarem muitas receitas para os cofres do ministério, os nossos atletas são obrigados a pagar para poderem treinar. Assim não vamos lá.

Em virtude da crise financeira que assola o país, a última edição da São Silvestre foi disputada apenas por atletas nacionais, retirando algum prestígio à prova. Acredita no regresso dos estrangeiros ainda este ano?
Tenho dúvidas porque já ouvi um membro da federação a dizer que este ano a corrida São Silvestre vai ser realizada novamente só com atletas nacionais. Falta pouco tempo para fecharmos o ano e acho que a federação já devia fazer um comunicado a dizer qualquer coisa sobre os preparativos da prova. A São Silvestre é uma corrida religiosa, talvez organizada só por dois países, Brasil e Angola, com um prestígio muito grande, e não pode continuar a ser disputada sem a tradição a que já nos habituou. Se as dificuldades financeiras continuam, a federação deve recorrer a patrocínios, talvez até recorrer às igrejas, para trazer pelo menos alguns atletas internacionais. Apesar da crise podemos manter o prestígio que a corrida já granjeou.

MOMENTOS ALTOS
“Fomos uma referência nos
II Jogos da África Central”

Qual foi ou foram os grandes momentos que viveu na modalidade?
Tive vários momentos, entre eles a minha presença nos I Jogos da África Central, no Congo Brazzaville, em 1980, onde ganhei três medalhas de ouro; um outro momento foi no ano seguinte, em 1981, nos II Jogos disputados em Luanda, em que conquistei duas medalhas, uma de prata e outra de bronze, além da minha presença em Moscovo em 1979, numa prova de 10 mil metros. Tenho ainda a destacar o meu triunfo na primeira Mini São Silvestre, que aconteceu em 1974. Mas de todos estes enumerados e outros, tenho a destacar mesmo os II Jogos da África Central em Luanda, onde houve uma disputa acérrima com atletas ruandeses e burundeses, num total de 11 países.

Foi memorável...
Lembro-me que houve um grande incentivo para estes Jogos, com os malogrados jornalistas Manuel Berenguel e Francisco Simons bem como o Doutor Manuel Rabelais a serem os grandes incentivadores para nós, os atletas, e não só, com os seus relatos contagiantes. Foi uma coisa muito marcante. O atletismo brilhou, arrecadou 45 medalhas, e naquela altura não se falava do futebol, do basquetebol nem do andebol que hoje são as modalidades em destaque no país, enquanto o atletismo está atirado aos escombros.

Durante os anos que praticou o atletismo terá ganho algo de substancial que guardou como lembrança?
Não ganhei absolutamente nada e nunca recebi qualquer incentivo quer do ministério, quer dos clubes por onde passei. Eu ando a pé e levo a minha vida de modo normal. Actualmente sou vogal no Clube Ferroviário e tenho a agradecer o convite que me foi formulado pelo senhor Jorge Abreu. Mas como se diz, enquanto há vida há esperança, continuo a aguardar quem sabe por uma homenagem ou uma lembrança antes de morrer.