Jornal dos Desportos

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Entrevistas

O Nosso trabalho dar frutos

Joo Carmo - 01 de Setembro, 2010

Coordenador do projecto de descoberta de futebolistas est esperanoso

Fotografia: Joo Gomes

Fale sobre o projecto de pesquisa de novos talentos para o futebol angolano?
Antes de mais, gostaria de agradecer a forma como fui recebido em Angola e a confiança que foi depositada em mim para fazer um bom trabalho nas camadas jovens deste país.O projecto visa observar muitos jogadores dos escalões de Sub-15, de Sub-17 e de Sub-20.Visa descobrir talentos e, por isso, vou a diversas província ver, questionar, organizar e ter uma relação mais estreita com os técnicos aí existentes.

Falando em províncias, além de Luanda, em que outras localidades estiveram?  
Nos últimos tempos, estivemos ocupados com a preparação do jogo contra o Gabão e recentemente com as Ilhas Reunião, pelo que foi difícil encontrar tempo para organizar o processo de descoberta noutras províncias.Quando tudo estiver pronto, iremos a outras províncias. Estamos neste momento no Lubango, onde a Selecção A prepara o jogo diante do Uganda e, provavelmente, vamos depois a Benguela, onde realizaremos o jogo da segunda-mão com as Ilhas Reunião.

Por quanto tempo vai decorrer o projecto?
Depende de muitas coisas e de muito dinheiro.Temos de saber quais são as nossas possibilidades.O meu contrato é de dois anos e gostaria de aproveitar este tempo, mas temos de ser muito cuidadosos a julgar pela nossa capacidade financeira. Seria bom se pudéssemos, todas as semanas, ir às províncias.Ainda assim, vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance. Se trabalharmos com jovens que nasceram, por exemplo, em 1997, estes não se vão enquadrar tão cedo nas selecções principais, mas esse é o nosso objectivo.Ou seja, é trabalhar com as camadas jovens num projecto longo. Quanto maior for o número de jogadores a trabalhar connosco, maior serão as possibilidades de escolha. A nossa alegria será ver muitos jogadores a evoluírem na selecção principal. Sabe que, para haver evolução, tem de se trabalhar todos os dias, como se fosse um clube e em condições aceitáveis.O primeiro objectivo é descobrir e depois colocar os melhores numa espécie de academia.

Como funcionaria a academia?
É minha função propor à federação projectos que visem a evolução dos atletas, coisa que vou fazer aos poucos.Por exemplo, em França, há 14 centros para treinar garotos de 12, 13 e 14 anos de idade.Aqui temos de organizar as coisas de acordo com as nossas possibilidades, mas estejam certos de que vou propor o melhor projecto à federação.

Os dois anos de contrato são suficientes para cumprir essa meta?
Não estou preocupado com o tempo do meu contrato, quero sim organizar o processo junto da federação.Sabe que para construir uma casa tem de se fazer primeiro os alicerces, depois levantar as paredes e fazer os acabamentos.Se se quiser um ou dois andares, o processo continua.Veremos se a federação quer uma casa de um ou de dois andares e vamos fazê-la.

"O jogador angolano tem
boa qualidade de passe"


Como caracteriza o futebolista angolano em termos de formação de base?
De acordo com a filosofia, e a minha é das mais modernas, os jogadores têm uma boa qualidade de passe. Os futebolistas com 12 anos têm a característica de jogar para frente, algo que aprecio. A verdade é que, até ao momento, apenas vi uma pequena parte dos futebolistas angolanos.Há a possibilidade de o jogador de Luanda ser diferente do de Benguela, de Cabinda, do Huambo, etc. Por isso, tenho de observar mais e depois ver como misturar e que filosofia adoptar para o desenvolvimento do grupo.   

Explique melhor...
Quando falamos da base do futebol, temos de ter em conta que ela parte das camadas jovens.É um trabalho que já se faz em Luanda, mas se calhar não como se devia em termos tácticos, técnicos, passe e recepção de bola. Gostaria de trazer um pouco da filosofia francesa, não para impor, mas procurar adaptá-la àquilo que já encontramos. Se isso acontecer, poderemos, se calhar, ter uma boa filosofia de jogo.

Tem algum caso que lhe serve de exemplo?
Temos, por exemplo, a Espanha, que hoje está no topo do futebol mundial, algo que deve agradecer em muito à Holanda.A Espanha bebeu muito do futebol da Holanda, através do Van Gaal, Ruud Gulit, Frank Rijkaard, que passaram, sobretudo, pelo Barcelona e desenvolveram o futebol daquele país.

Quando se notarão os primeiros resultados do trabalho que desenvolve? 
Depois de terminarmos a descoberta, faremos uma nova selecção para ver o resultado da primeira parte do trabalho.Depois, dependerá de como vamos trabalhar com o leque de jogadores seleccionados e as possibilidades. Estamos na primeira parte do projecto, que tem a ver com a descoberta, mas não nos esquecemos das fases seguintes. Passo a passo, posso garantir, começaremos a ver o resultado do trabalho que estamos a desenvolver.

Precisamos de uma
Academia de futebol


Comente o facto de, há duas semanas, terem sido forçados a treinar no parque de estacionamento da Cidadela Desportiva…
Acho mais importante falar do futuro, na medida em que aquela situação ficou para trás. Temos de continuar a trabalhar e não questionar ou queixarmo-nos perante a federação. Treinamos no parque de estacionamento porque não podíamos ficar parados, mas o importante mesmo é olhar para a frente.

Não receia que aquele episódio volte a acontecer? 
Não creio, a julgar pelo potencial deste país.Angola será uma grande potência continental. Basta ver, em vários pontos da cidade de Luanda, um grande número de prédios a serem construídos.Vou criar um projecto para se fazer uma academia e entregá-lo à federação. Tenho informações de que, brevemente, a federação terá novas instalações, próximo do Estádio, no Luanda Sul.Quando todos pensarmos da mesma forma, teremos êxitos.

Fala do Estádio 11 de Novembro?
Não estou bem informado acerca das novas instalações da Federação Angolana de Futebol, mas, tanto quanto sei, está em fase de construção um novo espaço para a federação.

Que alternativas aponta para não voltarem a treinar em local impróprio?
Como disse, vou propor à federação a construção de uma academia, onde possamos fazer os nossos trabalhos.

"É importante trabalharmos na continuidade"

Depois de Angola não se conseguir apurar para o CAN de Sub-20 do próximo ano, na Líbia, que futuro para o grupo?
Tivemos recentemente o Torneio da FESA e em Dezembro temos o da COSAFA. Vou propor à federação para, em caso de sermos convidados, participarmos num torneio em Tulon (França) para jogarmos com equipas daquele país.Teremos muitas oportunidades para os atletas mostrarem o que valem.

Além da França, a que países gostaria de levar os garotos?
Primeiro, gostaria de ir a França, pois conheço o nível dos jogadores de lá. Será muito bom e diferente, se podermos jogar com equipas francesas, portuguesas, ir à Espanha, ao Brasil ou à Itália, na medida em que teremos a oportunidade de aprimorar muitos aspectos. Temos de dar mais jogos aos nossos atletas, mais competição para estarem melhor preparados.

Angola foi campeã africana em 2001.Com a base com que trabalha, será possível voltarmos aos títulos?   
Dependerá da atitude do Ghana, dos Camarões, da Nigéria, do Gabão e de outros países do continente.Se jogarmos com atletas com as idades verdadeiras e os nossos adversários tiverem idades adulteradas, claro que será difícil ganharmos alguma coisa. Ainda assim, é interessante prevermos o futuro. Provavelmente, poderemos não ganhar nos escalões de formação, mas, no futuro, a Selecção A terá bons jogadores e poderá vencer alguma coisa.É importante trabalharmos na continuidade.Estou contente por trabalhar com atletas angolanos, pois têm grande atitude e gostam de trabalhar. Até ao momento, não apliquei qualquer acção disciplinar, algo que não acontece em França, onde constantemente tenho de dizer aos atletas para se calarem, mas eles continuam a falar. Apenas aconselho aos atletas angolanos a trabalharem e serem mais agressivos.

Adulteração de
idades é uma pena!


A adulteração de idades é uma prática corrente no nosso país. Há casos do género no grupo com que trabalha?
Sim, que pena! Se quiser trabalhar com um determinado jogador, para o seu próprio desenvolvimento, ele deve ter a idade verdadeira. A margem de progressão do atleta está entre os 12 e os 19 anos, sendo os três primeiros anos para a preparação e, dos 15 em diante, a formação propriamente dita.O atleta tem de cinco a sete anos de formação, mas, se tiver a idade adulterada, perde. É possível que haja algum que não tenha a idade verdadeira entre os atletas que estão hoje na Selecção A, o que não é problema meu, pois não fazem parte do meu trabalho.

Trabalhou na Zâmbia.Como está a parte austral do continente nesse aspecto?
Sei que a Namíbia e o Botswana já trabalham em moldes aceitáveis, que devemos imitar. Se não seguirmos a direcção certa, provavelmente, não teremos resultados. Numa primeira fase, os resultados podem não surgir, mas, no futuro, as coisas serão melhores.

Como?
Pode ter certeza que, se tivermos um cenário em que todos os jogadores tenham a idade real, em competições organizadas pela CAF ou pela FIFA, pelas relações que tenho com o Nancy de Franca, poderei lançar alguns atletas. Não é justo termos futebolistas de 20 ou 24 anos a jogarem com outros de menor idade, ou seja, com as estipuladas para a competição.

Qual a sua reacção ao detectar um atleta com idade superior ao escalão a que pertence? 
Já tivemos esses casos, sobretudo nos primeiros treinos.Não adianta mencionar nomes, mas já há mudanças no nosso grupo. Tive uma conversa com o professor Miller Gomes e, em conjunto, reunimos com os jogadores e tivemos de os afastar. Depois, conversamos com os que ficaram e tivemos o feed-back deles, na medida em que muitos nos explicaram os motivos que os levam a enveredar por essa prática. Garanto que, nesta fase, todos os atletas têm a documentação completa e com as idades verdadeiras.