Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

O objectivo é ganhar os jogos

Augusto Panzo - 05 de Outubro, 2011

Adjunto de Bondarenko dá primazia ao trabalho para a sua equipa

Fotografia: M.Machangongo

Jornal dos Desportos: Nos vossos pronunciamentos públicos tentam esconder o desejo do Kabuscorp de lutar pelo título, quando a realidade mostra o contrário. A que se deve este tipo de comportamento?
Mbiyavanga Kapela: É necessário que as pessoas nos compreendam. Não estamos a esconder nada. O que se passa é que na época passada o Kabuscorp terminou o Girabola com 43 pontos e em oitavo lugar. Neste momento estamos em segundo lugar, com 49 pontos, o que considero um saldo positivo para nós, membros da comissão técnica. Isso demonstra que até agora estamos a trabalhar muito bem e vamos esperar para ver o que pode acontecer até ao fim do campeonato. As equipas que lutam pelo título, que ganham sempre o campeonato são bem conhecidas e o Kabuscorp não faz parte desse grupo. O que está a levar a equipa do Kabuscorp avante é resultado de um trabalho bem feito. De momento não nos passa pela cabeça a luta pelo título.

JD: Têm 52 pontos neste momento, menos um que o líder. Se o campeonato tivesse que terminar na próxima jornada e se o Kabuscorp vencesse o último jogo e o seu concorrente da frente perdesse na mesma ronda a vossa equipa seria a campeã?
MK: Está certo, mas aí a realidade seria outra. Ainda faltam alguns jogos para o fim do Girabola e nesses desafios que restam por disputar muitas surpresas ainda podem acontecer. O campeonato não acabou e nisso o Kabuscorp tanto pode subir à liderança, baixar de posição ou manter-se na mesma posição. Disso ninguém sabe. O Petro, o 1º de Agosto, o Interclube, são as que normalmente andam de olho no título. Por isso, fica difícil prognosticar que o Kabuscorp vai ou pretende ganhar o campeonato. O nosso objectivo fundamental é ganhar os jogos de maneira que possamos ter o nosso ganha-pão garantido para sustentar as nossas famílias.

JD: Mas tudo aponta para
isso...
MK: Está certo que tudo aponta para essa direcção, mas o melhor é aguardar pelo fim, porque as melhores contas só são feitas no fim do campeonato. Não adianta estarmos aqui a alimentar falsas expectativas, até nós podemos terminar o Girabola em igualdade pontual com outros concorrentes e nós estarmos em desvantagem em termos de golos marcados ou sofridos, ou mesmo em relação aos resultados de jogos das duas voltas.

“Temos uma direcção maravilhosa”

JD: Se forem campeões, a vossa equipa teria capacidade técnica para enfrentar um Mazembe, por exemplo, se lhe calhasse nas Afrotaças como adversário?
MK: Sou treinador e seria escusado dizer que o Kabuscorp tem capacidade de jogar com o Mazembe. Estamos preparados para qualquer confronto.

JD: Têm plantel para tal?
MK: Graças a Deus, nós temos uma direcção maravilhosa que nos dá oportunidades sobre tudo o que necessitamos, desde condições materiais até à contratação de jogadores, razão pela qual dispomos de um bom plantel que nos permite rodar a equipa e os jogadores.

JD: O Mbiyavanga é cidadão congolês da RDC. Numa partida entre o Kabuscorp e o Mazembe o seu coração penderia para que lado?
MK: É um pouco difícil responder a isso, mas com toda a minha franqueza, primeiro está o meu emprego. Trabalho aqui. É aqui que está a minha vida. Sou treinador do Kabuscorp. É esse clube que me paga e o faz porque presto trabalho. Então, em circunstâncias como essa que acabou de referir eu torço pelo Kabuscorp. Agora, quando o TP Mazembe joga com qualquer outra equipa, aí sim. Puxo pelo TP Mazembe. Sabe que essa equipa congolesa é bi-campeã de África dos clubes campeões. Se isso um dia acontecer, o Kabuscorp jogar com o TP Mazembe, logicamente sou 100 por cento do Kabuscorp.

JD: Pode-nos dizer por que a direcção do Kabuscorp recorre muito ao mercado futebolístico do Congo Democrático?
MK: Isso é apenas intuição. Não podemos dizer que no Kabuscorp só há jogadores da RDC. Já tivemos um jogador namibiano, agora temos dois jogadores portugueses. Se vêm jogadores de outros lados, isso não é problema. Na próxima temporada podem vir jogadores zambianos ou de outras nacionalidades. Isto tem muito a ver com a estratégia da própria direcção, de dar dinamismo à equipa. Tudo depende da necessidade de contratações que possa haver e, por isso, acho que não influencia em nada.


“Temos apenas dois congoleses”

JD: Cerca de 90 por cento dos jogadores que constituem o plantel do Kabuscorp são congoleses da RDC.
MK: Não. São angolanos retornados. Isso é o problema que muita gente não sabe. Tirando o Lamy e o Ntoto, o resto dos jogadores é de nacionalidade angolana, têm os seus bilhetes de identidade em dia, passaportes normais e têm a situação regularizada junto da FAF. Por isso, é escusado dizer que 90 por cento dos jogadores do plantel do Kabuscorp são congoleses da RDC. Não acredito nisso.

JD: A sua afirmação leva a recuar para uma das perguntas anteriores. Num cruzamento entre o TP Mazembe ou outro clube qualquer da RDC, com o Kabuscorp, não poderemos ser confrontados pela Federação Congolesa de Futebol com documentos de jogadores da equipa do Palanca que agora têm a nacionalidade angolana, mas que já tiveram nacionalidade congolesa?
MK: Há muita confusão por causa da língua. Muita gente faz confusão com isso porque no Kabuscorp há pessoas que falam o lingala, o francês e o inglês. São coisas que se aprendem. Também acho que é um pouco errado pensar que quando um jogador do Kabuscorp está a falar lingala ou francês é logo congolês. É necessário aproximar-se da direcção para apurar a verdadeira identidade do indivíduo. Não é correcto pensar-se que toda e qualquer pessoa que vem da RDC e fala lingala ou francês é logo congolês. Temos visto muita gente que viveu longo tempo em Portugal ou noutros países da Europa, mas não são cidadãos daqueles países. É apenas uma questão de má interpretação das pessoas.

“Ser treinador é um trabalho difícil”

JD: A sua adaptação à vida de treinador foi assim tão difícil?
MK: Ser treinador é um trabalho difícil, mas a minha adaptação não foi assim tanto, porque ainda como atleta já perguntava aos treinadores que trabalhavam comigo, quer no Petro ou no 1º de Agosto, como no Kabuscorp ou noutras equipas, perguntava sempre. Tirava notas, mantinha contactos com alguns treinadores de fora de Angola. Estava sempre interessado em saber como é que o treinador deve pensar diante de uma determinada situação, que atitude deve tomar e outros pormenores importantes sobre essa profissão. Quando encarei a oportunidade de abraçar a carreira de treinador já estava preparado mentalizado para que no dia em que abandonasse o futebol como jogador, tinha de transmitir o bocado que sabia aos mais jovens.

JD: O trabalho em si é tão fácil?
MK: É um trabalho difícil, exige que se tenha a cabeça no lugar, isto é, exige uma boa concentração e no meu caso me obriga a tirar muita coisa que possuía quando era atleta. No fundo devo dizer que é necessário ser-se um homem concentrado.
 
JD: Como é que encarou o primeiro dia em que se sentou no banco como treinador?
MK: A primeira vez que sentei no banco como treinador foi quando o professor Bondarenko se foi embora no ano passado. Senti-me bem e muito emocionado, tanto mais que tive um problema ao festejar o golo que a minha equipa marcou na altura, por intermédio de Pitchú Kongo. As pessoas acharam muito estranha a forma como festejei tal golo e até chamaram-me de miúdo por isso. Mas a verdade é que essa alegria se deveu ao facto de ter apostado naquele jogo, nos préstimos de Pitchú Kongo que, quando o professor era treinador principal, não era alinhado. Era tido como um jogador lento. Fui sortudo naquele dia, alinhei o Pitchú Kongo, que era considerado jogador lento, mas naquele momento o Kabuscorp estava aflito e precisava de homem-golo. Este homem para mim foi o Pitchú Kongo que, por sua vez, marcou um golo num jogo contra o Santos FC. Fiquei feliz com isso e festejei de uma maneira fora de série, depois do abraço que recebi do jogador. A partir daquele dia já não festejo golos. Estou já entrosado com a profissão.

JD: Qual é o segredo que leva o Kabuscorp a vencer quase sempre os grandes clubes do país, em particular os de Luanda?
MK: O segredo fundamental nisso está no trabalho e na motivação. Temos no plantel jogadores jovens que querem aparecer e quando o jogo é contra uma dessas equipas grandes eles mostram as suas habilidades, porque se trata de jogos contra clubes históricos. Eles normalmente encaram esses jogos com outra mentalidade e determinação e a direcção também ajuda a elevar o estado anímico dos jogadores. Isso faz com que normalmente o Kabuscorp leve sempre a melhor sobre esses adversários.

“Não guardo má recordação”

JD: Que boas recordações guarda como jogador?
MK: A boa recordação que guardo como jogador foi o facto de ter jogado em vários clubes, quer do Congo Democrático quer daqui e tive a possibilidade de mostrar a qualidade e a capacidade de um verdadeiro atleta. Graças a Deus acabei muito bem a minha carreira, sem lesão. Isso deixou-me muito feliz.

JD: E quanto às más lembranças...
MK: Felizmente não tenho más recordações porque tudo que vivi como jogador é próprio de um jogador. Às vezes são coisas que acontecem em momentos de adaptação a certas circunstâncias, como as assinaturas de contrato ou outros pormenores. Por isso, devo manifestar satisfação por sair livre de uma vida tão conturbada como a de jogador de futebol.

JD: Uma vez que deixou de jogar cedo, conforme deu a entender, recebeu encorajamento dos seus fãs ou convite de algum clube para voltar aos campos?
MK: Não digo de clubes, mas de pessoas que me admiram. Foram vários os encorajamentos. Ainda neste momento tenho cruzado com muitos que me pedem para voltar aos campos. Muitos dos meus próprios jogadores acham que ainda posso jogar devido à forma como interpreto e faço alguns programas durante os treinos. Ninguém age comigo a dizer chega, deixa já de jogar porque és mais-velho ou coisa parecida. Isso me dá orgulho, porque insinua que ainda estou em boa forma desportiva, ao contrário do que sucede com muitos outros jogadores.
 
JD: Foi jogador do Petro por muitos anos. Quando terminou o seu contrato com o clube por que lhe foi dada a oportunidade de entrar para a equipa técnica dos tricolores?
MK: Isso merece um esclarecimento. Quando renovei mais uma época com o Petro, fi-lo com um anexo de quadro em que ficava claro que quando terminasse a carreira de jogador fosse lançado para a área técnica. Só que quis continuar a jogar, mas na altura o treinador Djalma Cavalcanti, que estava à frente da equipa, negou-me essa oportunidade, dando-me duas hipóteses que seriam ou orientar os escalões de formação ou ir jogar num outro clube. Preferi ir para outro clube. Nisso, a direcção voltou a afirmar a vontade de que queria que eu terminasse naquele clube. Mas como o treinador é quem tinha que definir as coisas sobre os jogadores, ela limpou as mãos. Ainda assim, orientaram-me de que devia jogar num outro clube e quando acabasse a minha carreira, que voltasse lá ao Petro para dar o meu contributo à equipa técnica.

“Tive que me virar sozinho”

JD: Qual é a sua relação com os jogadores congoleses?
MK: Em princípio nunca tive problemas com esses jogadores. Quando eu jogava tinha uma vida diferente em relação aos outros. Uma vida muito regrada, uma disciplina como atleta profissional. Diante deste quadro, respeito é respeito. Neste contexto, quando cruzo com esses jogadores nos saudamos, e se dá para andarmos juntos, fazemos isso, se não dá, prefiro ficar de fora. Evito muito andarmos juntos, porque sempre tive uma vida regrada e não andei muito por aí.

JD: Mas como é que o consideram no Kabuscorp?
MK: No Kabuscorp os jogadores congoleses consideram-me como um líder, um ídolo e em função disso, aprendem muito comigo. Digo sempre que têm sorte de me encontrar aqui neste clube, porque estou a trabalhar convosco, a transmitir-vos a experiência do Girabola e sobretudo do futebol como profissional. Quando cheguei a Angola não tive sorte igual, tive que me virar sozinho.

Fui duas vezes considerado
melhor jogador em Angola”

JD: Como é que encara a atitude e comportamento dos jogadores da RDC que actuam em Angola?
MK: O comportamento varia de uns para outros. Tem a ver com a mentalidade de cada um. Não posso dizer que eles se comportam mal ou bem. Depende, os angolanos também têm comportamento diversificado. Há uns que quando fazem uma boa época ou um bom jogo pensam que já estão no auge. Isso não dá. Um bom atleta pode jogar durante muitas temporadas, tal como eu fiz cá em Angola, tanto no Petro, no 1º de Agosto ou mesmo no Kabuscorp. Fui duas vezes considerado melhor jogador em Angola, com um nível alto. É isso que se pede aos jogadores, sejam eles angolanos ou congoleses. Não basta assinar um contrato e comprar casa ou carro, para se sentir que é estrela.

JD: Está a correr neste momento um caso considerado caricato em que o técnico do FC de Cabinda acusa o seu guarda-redes de ter sido pago pelo FC Bravos do Maquis, por ter alegadamente facilitado o golo de empate. Como considera essa atitude de Ady Lami?
MK: É difícil responder a essa pergunta. Eu e Ady Lami fomos bons amigos na altura em que éramos ambos jogadores. Desde aquele tempo para cá nunca mais tive contacto. Fica muito difícil para mim falar sobre isso, apenas tive conhecimento disso através do pronunciamento feito pelo professor João Machado e mais nada.