Jornal dos Desportos

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Entrevistas

O professor que aprendeu xadrez para impressionar o sexo oposto

Joo Francisco - On-line - 25 de Março, 2013

Lus Silva xadrezista que surgiu dos circulos de interesses

Fotografia: Jornal dos Desportos

Luís Carlos Silva 57 anos, ou simplesmente Chirila, como é conhecido, aprendeu a jogar xadrez na Escola Industrial para se salientar perante as raparigas da especialidade de Pintura Decorativa, em 1969/70.

Luís Silva foi um dos xadrezistas mais temidos da sua geração, principalmente em Luanda, onde chegou a ocupar classificações de destaque em torneios oficiais e participou em alguns torneios internacionais, como os Grandes Prémios Cidade de Luanda, Nocal e Taça Cuca, competições que já trouxeram a Angola famosas figuras do xadrez mundial e que incentivaram as novas gerações da modalidade.

“Eu e um colega, cujo nome já não me recordo, alugámos um dos tabuleiros que sempre havia disponíveis na cantina. Movíamos as peças sem conhecer as regras nem fundamentos do jogo, até que alguém apareceu e explicou como se jogava. Isto aconteceu nos anos de 69-70”, recorda.

A profissão de professor, que começou em 1976, permitia-lhe conciliar a carreira com a prática de xadrez de competição e recrutar alguns estudantes nas escolas por onde passou, alguns dos quais acabaram por engrossar o “mosaico” xadrezista da capital, como principal centro de desenvolvimento da modalidade no país.
“Naqueles tempos, a vida era mais folgada, menos stressante e podíamos, com boa vontade, conciliar as três actividades, sem grandes problemas”, explicou.
Chirila, embora tenha nacionalidade portuguesa, faz parte da primeira geração xadrezistas angolanos, como Mário Silva (primeiro campeão Nacional de Angola Independente, já falecido), Agostinho Adão, Marcolino Meireles, Alexandre Gourgel “Xandoca”, ambos também já falecidos, Rogério Silva, Rui Cristina, Victor Alves, Faria de Bastos, Hermenegildo e José Veloso (Irmãos Veloso), Rogério Ferreira e Fontes Pereira, entre muitos outros.

Actualmente, Luís Silva, que é professor da Escola Portuguesa de Luanda, onde também tem funções no corpo directivo, raramente joga xadrez, embora como ele próprio diz “o faça na desportiva com os meus alunos, filhos e amigos. Mas nunca em competição”.

“A minha actividade profissional e compromissos familiares, conjugados com a actual vida stressante de Luanda, não o permitem”, acrescentou.


PALMARÉS
Primeiro Campeão Absoluto de Luanda


Luís Silva ganhou o primeiro campeonato provincial de Luanda, que se revelou como o mais forte torneio realizado até então. Ficou entre os três primeiros classificados em torneiros realizados na velha e extinta Academia de Xadrez, e torneios realizados pela Associação Provincial de Luanda e Federação, em finais dos anos 70 e início dos 80, com o apoio e patrocínio de várias empresas de referência como a RNA, Nocal e Ensa, entre outras. Graças a esse bom desempenho, Chirila, estava sempre entre os primeiros na classificação dos jogadores com melhor “elo” nacional.


OPINIÃO
O xadrez praticado agora é mais profissional (...)

Fazendo um paralelismo da prática da modalidade no seu tempo com o actual, Chirila considera que o xadrez actualmente é mais profissional e “comercial” do que no seu tempo, em que havia verdadeiro “amor” à modalidade e à camisola.

Outra das grandes diferenças é o facto de agora, pelo menos entre os jogadores de topo, haver mais “formação” e informação xadrezista do que no “meu tempo”, confirmou.

Convidado a pronunciar-se sobre os motivos que o levaram a praticar xadrez, Luís Silva disse: “Ao mover as primeiras peças, apercebi-me de imediato que jogar xadrez desenvolvia acentuadamente as capacidades intelectuais, o raciocínio e a lógica. Por isso fiz questão de me desenvolver na modalidade, pois dessa forma estava também a desenvolver outras capacidades recônditas. Por essas razões, fui um apaixonado da massificação da modalidade e contribuí activamente para esse processo, quer junto dos meus alunos, quer de operários, numa experiência única realizada no país no início dos anos 80. Por esse motivo fui laureado pelo Comité Olímpico Internacional”, concluiu.


PING PONG
“Reclamo junto dos xadrezistas da velha guarda encontros aos fins de semana”


Jornal dos Desportos: Tem acompanhado o desenvolvimento do xadrez angolano nos últimos tempos?
Luís Sílva:
Nem por isso.

Jornal dos Desportos: Porquê?
LS:
Porque o tempo não me tem permitido acompanhar a modalidade mais de perto. Assim, fico-me pelo que ouço e leio na comunicação social.

JD: O que mais o marcou no seu tempo como jogador de Xadrez?
LS
: O entusiasmo geral pela modalidade, geral, repito. Isso quer dizer que a exaltação era naturalmente dos praticantes da modalidade, e alastrava aos seus dirigentes embrionários, mas também era acarinhado transversalmente por toda a sociedade, incluindo os estudantes nas escolas, o operariado e dirigentes das empresas, os jornalistas na comunicação social e, muito importante, pelas estruturas do poder que sempre protegeram a modalidade e o seu desenvolvimento.

JD: Qual é para si o estado do xadrez angolano?
LS:
Relativamente ao meu tempo não tenho dúvidas de que a competitividade e a qualidade dos jogadores de topo é maior, o que significa, de algum modo, que a massificação dos “meus tempos” deu frutos, pois criou estruturas informativas e formativas que antes não existiam. Lamento apenas a falta do tal entusiasmo que então havia e agora parece-me não existir.

JD: Se o convidassem a jogar xadrez agora, fazia-o como antes?
LS:
Não, de todo! Na realidade, deixei de jogar por não suportar mais a pressão, ansiedade e tensão nervosa a que se está sujeito na alta competição. Portanto, voltar a jogar em competição está fora de questão! E, claro, também porque estou completamente ultrapassado!

JD: O que faz actualmente?
LS:
O que sempre fiz, sou professor.

JD: Tem algum sonho em relação ao xadrez angolano?
LS
: Que haja grandes mestres e a massificação da modalidade recomece com força.

JD: E noutras áreas do seu dia-a-dia?
LS
: Sonho com um sistema educativo mais eficaz, de modo a formar quadros cada vez em maior número e de melhor qualidade.

JD:Quer deixar algum conselho aos xadrezistas angolanos?
LS:
Que façam tudo para difundir a modalidade.

JD: Gostava de transmitir alguma mensagem?
LS:
Reclamo junto dos xadrezistas da velha guarda encontros ao fim-de-semana nos quais possamos conviver, comer e beber e, naturalmente, jogar xadrez sem compromissos. Reclamo também a realização de um torneio em memória do malogrado Marcolino Meireles, que bem merece a homenagem e ainda não lhe foi feita.

POR DENTRO


Nome Completo: Luís Carlos Lopes da Silva
Local e Data de nascimento: Portugal, a 11 de Agosto de 1955
Estado civil: Casado
Namorada: Não tenho
Filhos: Cinco
Altura: 1,75
Peso: 101 kg
Calçado: 42
Cor preferida: Vermelho
Prato preferido: Funji de cabidela
Bebida: Cerveja
Tempos livres: Viajar de carro
Cidade: Lubango
País: Angola
Ídolo: Não tenho
O que mais teme: A solidão
Religião: Católico não praticante
Clube do coração: Benfica
Carro próprio: Sim
Casa própria: Sim
Já alguma vez mentiu: Quem nunca mentiu?
Desejo/sonho: Viver tranquilamente o tempo que me resta.