Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

"O quadro crtico"

Gaudncio Hamelay| no Lubang - 27 de Maio, 2010

Zeca Funbelo quer envolvimento de todos no desporto

Fotografia: Arimateia Baptista

Qual é o quadro real do andebol na província da Huíla?É crítico. Não existem clubes a movimentar o andebol. Limitamo-nos a formar novos talentos, para que o andebol não desapareça nesta região; apostamos na descoberta de novos valores para que possamos integrá-los algum dia nas diferentes equipas. Estamos à procura de clubes para os absorver. O nosso trabalho de formação se cinge até aos 16 anos, aos 17, deixamo-los em estado de abandono, porque não há clubes. É triste, mas que fazer! É a realidade do andebol.Em tempos idos, a Huíla esteve entre as províncias mais cotadas do andebol nacional. O que se está a fazer para inverter o actual quadro? Neste momento, estamos a tentar organizar o andebol, mas se torna difícil, porque não temos a aceitação dos clubes.A continuar assim, não teremos o andebol como outrora.Estão a trabalhar na massificação ou formação de novos talentos para a modalidade?Quantos praticantes movimenta?Estamos a movimentar cerca de 250 crianças, das quais 100 do sexo feminino, nos escalões de iniciados, juvenis e juniores.Mesmo com a realização de uma das fases do Campeonato Africano das Nações de Andebol, em 2008, a modalidade continua "morta" na Huíla?A realização do CAN de andebol no país trouxe muitos benefícios. Na Huíla, por exemplo, depois desse evento internacional, tivemos a amabilidade de organizar um campeonato nacional, considerado um dos melhores e maiores organizados no país. Desde a final daquela competição, nunca mais tivemos incentivos ou apoios iguais cedidos pelo governo. Foram apoios que nos moralizaram a dar continuidade no trabalho de desenvolvimento e massificação. O que aconteceu?Com a realização dos dois eventos desportivos, CAN e Campeonato Nacional, que albergaram boa moldura humana, pensávamos que as direcções de empresas e de clubes desportivos nos abririam as mãos.Mas isso, não sucedeu.Todavia, o andebol vive as vicissitudes iguais às de outras modalidades.O exemplo mais vivo nota-se no atletismo local: já não existe.Reafirmo: já não existe, porque os atletas correm em representação de clubes da cidade de Luanda, mas treinam na Huíla.É o que acontece com o andebol.Temos atletas até aos 14, 15 e 16 anos de idade e param de treinar.Aos 17 anos de idade, já não temos espaço para os albergar nem clubes para os absorver.Não há clubes interessados em acolhê-los no Lubango.Tínhamos a pretensão de formar uma equipa no escalão de juniores, mas não conseguimos.Agora, interrogo-me:vamos ter juniores para quê, se nem iniciados temos?Quando teremos equipas a participar em competições nacionais em ambos os sexos?Equipas para participar em campeonatos nacionais, temo-las desde os escalões de iniciados a juniores. Agora, clubes para apoiar os miúdos é que não temos.E as equipas na categoria de seniores?Não temos previsões para que esse sonho se materialize. Se mal temos clubes para apoiar a classe de juvenis, vamos pensar na categoria de seniores! É impossível.Que apelo faz à classe empresarial huilana?Estamos cansados com isso. Quando pedimos apoios à classe empresarial, dizem-nos que também têm problemas por tratar; alimentam-nos com as esperanças de que vêm depois ou no dia seguinte e nada transparece. Não podemos exigir nada. Tudo depende da vontade de cada empresário, se pode ou não apoiar a modalidade. Face à demanda, como estão servidos em termos de material desportivo?É um dos grandes problemas com que nos debatemos no dia-a-dia. Há alguns clubes que nos dão as costas, quando lhes são solicitados. Não temos bolas, técnicos e árbitros formados, entre outros. É um Calcanhar-de-Aquiles para o desenvolvimento salutar do andebol. Por exemplo, recebemos o último lote de material há cinco anos, cedido pela direcção provincial da Juventude e Desportos, no âmbito dos Jogos Abertos. Hoje, os atletas apropriaram-se do referido equipamento.Não têm apoios para adquirir as bolas, por exemplo?Estamos à espera de uma mão caridosa de um jovem amigo que nos prometeu arranjar material desportivo. É um jovem que fornece também equipamentos a clubes de Luanda. Na qualidade de secretário-geral, fiz um acordo com o fornecedor para que se desloque à cidade de Lubango e constate as modalidades que podem beneficiar das vendas. Até hoje, aguardamo-lo pacientemente.Existem apoios da Federação Angolana de Andebol?Apesar de não termos recibo, este ano, as bolas que utilizamos são oferta da Federação Angolana de Andebol. Além de bolas, nada mais recebemos daquele órgão reitor do andebol no país, a não ser incentivos morais. As infra-estruturas desportivas são suficientes para a prática do andebol na Huíla?Não temos problemas nesse capítulo, porque não nos preocupamos muito com infra-estruturas desportivas para a prática do andebol na Huíla. Temos pavilhões e campos abertos que servem as nossas necessidades.Quando realizamos actividades de andebol, utilizamos pouco os pavilhões.No âmbito do Campeonato Africano das Nações de Andebol, ganhámos um pavilhão. Além desse, na província existem mais três pavilhões, mormente, multiusos, anexo número um e o pavilhão do Benfica do Lubango. Quando promovemos jogos, usamos os campos adjacentes à Escola 27 de Março, à Escola Mandume, só para citar esses. Associação sem ânimo A direcção provincial da Juventude e Desportivos da Huíla implementou um projecto de massificação desportiva escolar denominado "Jogos Abertos" em todas as modalidades, em 2005. Onde estão os talentos descobertos no andebol, modalidade que movimentava maior cifra? Associação Provincial de Andebol na Huíla está desanimada há dois anos por não constar do lote de modalidades eleitas para os Jogos Escolares nacionais. Não participámos nos jogos realizados nas províncias do Huambo e do Bié. Após a realização desses jogos, na Huíla, nos quais nos classificámos em segundo lugar em masculino e em feminino, ficamos excluídos. Não sei as razões que levaram o afastamento do andebol dos Jogos Escolares pela Direcção Nacional da Acção Social e pelo departamento da Acção Social da direcção provincial da Educação da Huíla. Sempre solicitámos informações a esses órgãos e ninguém diz nada. A participação nos Jogos Escolares motiva os miúdos em formação e pode abrir as consciências ainda amorfas sobre a importância da prática do desporto na sociedade humanizada.Assinalou-se no passado dia 20 de Maio, o dia destinado ao andebol em Angola. Que actividades foram desenvolvidas pela Associação com vista a celebrar a efeméride?Como é hábito, a associação programa sempre uma maratona de actividades desportivas para assinalar a data. Mas este ano, a comemoração foi transferida para o fim-de-semana, porque a maioria dos técnicos são professores e estavam engajados nos afazeres diários. Promovemos uma maratona de jogos no sistema de todos contra todos nos dias 21 e 22 que contou com a participação de antigos praticantes e atletas em formação. Face ao elevado número de praticantes, como organizam as competições internas?Queremos implementar uma nova dinâmica este ano. Para o efeito, levaremos a cabo um torneio de abertura nos próximos dias para o arranque do campeonato provincial na categoria de iniciados em ambos os sexos e de 15 de Junho a 15 de Julho, os escalões infanto-juvenis.Quais serão os moldes de disputa dos campeonatos provinciais se não dispõem de equipas?Alguns clubes e empresas predispuseram-se em albergar o andebol. Estou a falar de clubes Kilambas, Sporting e as Escolas. O Interclube aceitou uma equipa feminina e a outra é a Escolinha da Agricultura. Porém, essa última, não podemos contá-la, porque desiste sempre alegando falta de material e de condições de participar, quando chega a altura da realização do evento desportivo. Há um adágio que diz que "quem não tem cão, caça com gato". Realizamos diferentes provas com a participação de diferentes escolas do I e do II Ciclos de ensino existentes na cidade de Lubango.O novo corpo gerente da Associação Provincial de Andebol é integrado, maioritariamente, por antigos praticantes e tomou posse há um ano.Até que ponto está a cumprir o programa apresentado aos eleitores para a expansão e desenvolvimento do andebol na Huíla?Infelizmente, nem todos os membros que compõem o elenco aparecem para exercer as responsabilidades assumidas na associação. Para ser sincero, temos esse problema internamente. A associação só existe no papel. A maior parte dos integrantes não aparece para desenvolver o trabalho pelo qual se comprometeram, aquando da tomada de posse. As poucas pessoas que sempre deram contributo para que o andebol não desaparecesse na Huíla, são as mesmas que trabalham. Uma situação desagradável no nosso seio. "Não há árbitros formadosna cidade do Lubango" Quantos árbitros estão inscritos na Associação?É um outro problema que enfrentamos. Contamos apenas com dois. Sem os quais, não há árbitros formados na cidade do Lubango. No ano passado, solicitámos à Federação Angolana de Andebol para nos ceder técnicos que pudessem promover uma acção formativa aos nossos jovens e antigos praticantes. Em resposta, fomos solicitados alojamento e alimentação para os técnicos.Como a Associação não possui condições financeiras para materializar as exigências, recorremos à direcção provincial da Juventude e Desportos que manifestou também os mesmos problemas, pois não tinham condições para alojar os técnicos. Acabamos por não concretizar a nossa pretensão. Quantos técnicos existem na Huíla a ensinar o ABC do andebol?Contamos com uma média de sete ou oito monitores que beneficiaram de formação, no ano passado, na Huíla, no âmbito do"Projecto Despontar" do Ministério da Juventude e Desportos, na qual participaram 12 candidatos.Actualmente, estão sob controlo da Associação provincial. O número de monitores satisfaz a vossa pretensão?Não temos grandes problemas.O material humano não constitui problema. Municípios precisam de apoios Nunca estiveram fora da cidade do Lubango em promoção do andebol?Há dias, os miúdos tiverem de se deslocar ao município da Humpata, situado a 20 quilómetros da sede da capital da província, onde efectuaram demonstrações que serviram de incentivo às crianças daquela localidade.Além do município sede, Lubango, em que outros municípios se faz sentir o andebol?Temos três municípios, designadamente, Quipungo, Matala e Quilêngues. Num passado recente, o movimento era grande, mas hoje também alegam não possuir material, mormente, bolas. Estamos a envidar esforços no sentido de ultrapassarmos esse empecilho e termos o andebol activo naquelas três regiões. Se conseguirmos, estaremos de parabéns, se não…que fazer! Lubango vive dificuldades relacionadas com a falta de bolas. Em vez de treinarmos com bolas destinadas à classe de iniciados, utilizamos as de infantis. As pessoas, que gostam do andebol, tiveram de empreender esforços para as conseguir.