Jornal dos Desportos

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Entrevistas

O "Santo" que no Progresso fazia maravilhas com a bola

Augusto Fernandes - 04 de Março, 2013

Santos do Amaral, co-fundador do Progresso do Sambizanga

Fotografia: Augusto Fernandes

Santos do Amaral, com 59 anos, mais conhecido por Santinho no Mundo do futebol, jogava a extremo esquerdo e ponta de lança nos clubes por onde passou. Para muitos foi o melhor jogador angolano em termos de dribles. Com a bola nos pés era um autêntico “carrasco” das defesas, pois tinha dribles estonteantes, velocidade e bom sentido de posicionamento.

Além disso, o homem tinha faro para o golo. Em certa ocasião marcou 11 golos num jogo contra o 17 de Setembro da Huíla, na vitória da sua equipa por (17-0). Estabilizou-se no Progresso do Sambizanga, onde chegou a marcar mais de 300 golos. É contemporâneo de Salviano, Bonito, Kiferro, Ndunguidi, Lourenço, Vicy, Praia, Vata e muitos outros. Santinho começou a jogar futebol a sério em 1971/72 no Juventista, uma equipa do bairro Sambizanga, com Kiferro, Sambila, Gringo, Batena e outros. Depois foi para a Académica do Ambrizete e posteriormente Futebol Clube de Luanda. O seu primeiro jogo com a camisola dos Juventistas foi contra o Benfica do Kinzau.

“Comecei o jogo no banco e na segunda parte eu e o Doutor Esqueleto entrámos, ele na direita e eu na esquerda. Fiz um grande jogo e marquei dois golos na nossa vitória por 3-1. Todos os “kotas” ficaram admirados com a minha exibição. Daí em diante, foi só avançar”, afirmou Santinho. Como júnior no Futebol Clube de Luanda, Santinho, em certa ocasião, por volta de 1973, chegou a marcar mais de 30 golos, quando o Campeonato ainda estava a meio. Estes feitos fizeram dele um goleador nato e todas as equipas queriam tê-lo nas suas fileiras. Assim, representou a Académica do Ambrizete no célebre Torneio Popular Cuca, fazendo apenas três jogos e marcando mais de cinco golos. Em quase todos os jogos Santinho marca no mínimo um golo.

Santinho recorda-se também que: “Nos primórdios do Progresso (do qual é co-fundador), na companhia do Salviano, sem desprimor para outros, fazíamos tudo para manter a equipa em dia. Em certa ocasião não tínhamos equipamento. O Salviano trouxe da sua ex-equipa, a Textang, umas camisolas e eu, do Luanda, consegui também algumas camisola e bolas, para manter a equipa no activo.  “A equipa vivia destes esforços. Nos outros bairros, também havia muitos clubes, como “Os Perdidos da Bola”, no Bairro Popular, “Os Las Palmas”, no Prenda, Bangu, no Bairro Operário, o Escola do Zangado e tantos outros. Mas somente o Progresso continua em pé. Isto orgulha-nos muito”, disse.
* COM JOÃO FRACISCO


MEMÓRIAS
Momentos de glória no “Sambila”


Com o Progresso Associação do Sambizanga (PAS), Santinho disputou vários torneios e recorda-se bem de um deles em 1976, realizado pelo Escola do Zangado, de Lourenço Bento, Dinis, Antoninho Parte os Cornos e outros. “Demos uma grande surra ao Escola do Zangado, por 5-0, em que marquei quatro golos. Acabámos por vencer o torneio. Os kotas Dinis, Lourenço Bentos e outros ficaram pasmados, pois dificilmente eram vencidos e muito menos com goleada. Aquilo foi considerado um insulto especialmente para o “Man Dinas” que tinha acabado de regressar das Tugas”, revelou.

Santinho recorda-se igualmente de cenas caricatas de 1978, quando o Progresso tinha uma equipa muito mais forte, se calhar a mais forte de todos os tempos na história do clube, com Luís Cão, Bonito, Augusto Pedro, Ginguma, Eduardo André, Lino, Praia, Santinho, Jaime, Ferreira Pinto e outros e que disputou a final do célebre torneio da Agricultura contra o 1º de Agosto, com Ângelo, Lourenço, Manico, Sabino Mateus César, Zeca Chimalanga, Luvambo, Garcia e outras grandes estrelas e que contou com as melhores equipas e executantes de Luanda.

“No jogo da final com o D´Agosto, que empatámos a três golos, nós marcámos primeiro por Eduardo André, um grande golo que deixou Napoleão pregado no solo. O D’Agosto virou o resultado e chegou a estar a vencer por 3-1, se a memoria não me atraiçoa. Depois marcámos mais dois e um desses golos ficou na história dos jogos entre os dois clubes: “De um ângulo difícil, em cima da hora para o fim do desafio, o falecido Praia mandou um remate forte que Napoleão só teve tempo de tirar a bola no fundo das malhas. O jogo teve de ser decidido através de grandes penalidades, nas quais o 1º de Agosto foi mais feliz. Naquele tempo tínhamos jogadores com qualidade para formar mais de quatro selecções nacionais. Havia muitos jogadores talentosos”, recorda.

Num outro torneio, realizado pelo Desportivo da Chela (actual Benfica do Lubango), no primeiro jogo contra o 17 de Setembro local, os Sambilas venceram por 17-0. “Naquele célebre jogo marquei 11 golos. Num outro jogo, contra o Sporting de Luanda, com Lúcio, Vanda, Chinguito e outros, num dado momento peguei na bola e tirei sete adversários do caminho, incluindo o guarda redes, e fiz o meu terceiro golo numa vitória com mini goleada (3-0). “O Chinguito veio ao pé de mim, apertou-me a mão e disse, muadié (companheiro) eu admiro-te. Isto é golo ou quê? Até hoje, creio que este foi um dos momentos mais alegres da minha vida como futebolista”, adiantou.


PERGUNTAS E RESPOSTAS
“Há a falsificação de idades no futebol”


JD - Onde reside o grande problema do futebol nacional?
Santinho:
Todos sabem que o grande problema está na formação. Mas eu creio que o problema também reside no factor imediatismo. Todos querem ganhar a qualquer custo e por isso há a falsificação de idades, que retira certa verdade desportiva. Eu já vi casos de jogadores que terminaram a fase de júnior num clube e aparecem a jogar noutro da mesma cidade como juvenis. Além disso temos de olhar também para a qualidade dos formadores, pois o mero facto de um Santinho ter sido um bom jogador, por exemplo, não faz dele um bom formador, pois formar jogador implica inculcar na mente dele certos valores desportivos e isso não está ao alcance de todos.

JD - Em função do que viu no CAN’2013 acha que Gustavo Ferrin deve continuar no comando dos Palancas Negras?
ST:
Creio que a mudança constante de treinadores não é salutar para a selecção. Além disso, o homem teve pouco tempo para preparar a selecção. Temos também de ter em mente que os nossos jogadores também têm alguns problemas de base e a maior parte dos profissionais joga em clubes e campeonatos fracos. Ele cometeu alguns erros graves e é normal em nós humanos, porque somos imperfeitos. Vamos dar-lhe mais uma oportunidade.

JD - Depois da desilusão no CAN passado, vale a pena Angola disputar o acesso ao Mundial de 2014?
ST:
Se já estamos inscritos creio que vale a pena. Mas temos de ser realistas. Temos de reconhecer o nosso verdadeiro lugar no contexto africano. Temos de participar com o espírito de renovação. Se nos permitirem chegar ao Mundial tudo bem. Mas o nosso objectivo deve ser aproveitar os jogos da campanha para o Mundial para fazermos a renovação que se impõe.

POR DENTRO


Nome completo:
Santos do Amaral
Filiação: Manuel Amaral e Joaquina André
Local e Data de Nascimento: Luanda, 15 de Agosto de 1954
Estado civil: Solteiro
Filhos: 12
Altura: 1,78 m
Peso: 82 kg
Camisola com que habitualmente jogava: Nº 11
Calçado: 43
Hobbies: Ler e ver TV
Música: Semba
Filme: Acção
Prato: Funge com carne seca
Bebida: Um bom vinho
O que mais teme na vida: Envelhecer
Recorre a mentiras: Que homem não mente?
É ciumento: O que o olho não vê o coração não sente
Clube do coração: Progresso do Sambizanga
País de sonho: Estados Unidos
Sonho: Ter um futuro calmo e sossegado