Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

\"O treinador nunca está satisfeito\"

Matias Adriano - 19 de Setembro, 2017

Miller Gomes continua apostado na sua auto-superação

Fotografia: Nuno Flash/ Edições Novembro

Vem de uma família com forte tradição no futebol, onde se destacam ainda os manos António Gomes(Tony Estraga), Gil Gomes, e agora vai emergindo o filho deste último. O patriarca dos Gomes também foi jogador?
Na verdade, não temos informação de que ele (Madragoa, como o chamavam) tenha jogado futebol. Nasceu na Lunda, cresceu em Malange e muito cedo pegou no batente para a labuta. Eram outros tempos

Como atleta federado Miller Gomes teve uma carreira quase efémera. Entretanto, conquista projecção e nome como técnico. Como se dá a entrada no mundo de futebol?

Entro para o mundo do futebol como quase todo menino. No bairro com os amigos, na escola com os colegas e obviamente por influência dos irmãos mais velhos. Sou praticante antes mesmo dos caçulinhas da bola.

Passou, como atleta, por algumas equipas do nosso Girabola. Que lembranças guarda deste tempo?
A minha carreira enquanto atleta foi curta. Terminei aos 28 anos no Sagrada Esperança. Fiz os escalões de formação no Sporting de Luanda e joguei nos seniores também. Mas na primeira divisão foi no Grupo Desportivo da TAAG (ASA) que me estreei em 90/91. Depois fui para a Rangol em 1993 onde fui capitão durante anos até seguir para a Lunda em 1998, altura em que deixei de jogar.

Tem uma forte propensão para a orientação técnica de equipas. Quando é que descobriu em si o dom de treinamento?
Para dizer a verdade, não me lembro de alguma vez pensar em ser treinador. Penso que depois de cultivar o dom de liderança, por exemplo no cumprimento do serviço Militar, e o facto de ter sido professor ainda muito jovem fez despertar em mim o "bichinho" de comandar, de ensinar, de partilhar. Não sei ao certo. Acho que a própria dinâmica da vida também ajudou.

Assim de concreto quando é que se experimentou como técnico de futebol?
A minha carreira como treinador começa em 1999 nos escalões de formação da Rangol (Hoje Benfica Luanda) e depois ascendi à equipa principal. Enquanto treinador passei ainda pelo Petro do Huambo, Petro de Luanda, 1° de Agosto, Libolo e Kabuscorp, ao passo que nas selecções nacionais já trabalhei com quase todos os escalões, desde os Sub 17 aos Sub 23 (selecção Olímpica) e também a selecção feminina

Quais terão sido os momentos mais marcantes ao longo deste percurso pelos clubes que enumerou?

O melhor momento ou o pior é muito relativo. Por exemplo ter ganho um jogo particular ao SLB (Benfica de Portugal) na Cidadela com uma equipa bem jovem (Benfica de Luanda) por 3-2 foi marcante, apesar de ser um jogo amigável. Obviamente que vencer o Girabola com o Libolo foi marcante. Resgatar uma Taça de Angola que o Petro não vencia há dez anos foi bem marcante. Enfim... cada conquista tem um sabor diferente. Por exemplo trazer a medalha de ouro em Sub 20 dos jogos da SADC. Mas tudo isso no futebol é efémero, só vale até começar outro desafio. O pior penso foi termos perdido o Girabola na última jornada pelo 1º de Agosto em 2007, e perder a final da Cosafa quando ganhávamos até 10 minutos antes do final do jogo

REACÇÃO
Nenhum treinador gosta
de “chicotada psicológica”


Tem fama de ser um treinador que se antecipa a situações menos boas. Abomina a "chicotada psicológica"?

Nenhum treinador gosta de "chicotada psicológica" nem está preparado para tal, apesar de a aceitarmos. Mas que remédio, temos de saber conviver com elas. Nunca sabemos quando será, mas acredito que tem sido um mal que o nosso futebol prática com frequência e muitas das vezes sem fundamentos ou razões plausíveis.

Qual é o seu relacionamento com dirigentes de clubes em que se demitiu?
Estou no desporto para o servir. Obviamente que me sirvo dele na perspectiva de resposta. Portanto, felizmente tenho relação saudável com todos os agentes desportivos. Claro está, tal como na vida, com uns com mais intensidade e regularidade do que com outros. Sem receio de errar, tenho relação privilegiada, mas isso também se cultiva.

Bom filho à casa sempre volta. Aceitaria, se convidado, voltar a um dos clubes em que já passaste e se demitiu?

Como disse antes, nós os treinadores devemos estar preparados para as ocasiões. Quando nos demitimos ou somos demitidos não assinamos um documento de inimizade, às vezes até já nem os dirigentes são os mesmos, e ainda que fosse. Em todo mundo há casos do género, em que o treinador regressa passado algum tempo. Eu já vivi isso, portanto considero normal e no futebol então mais ainda.

“Já tive convite
de algumas equipas”


Desde que deixou o Kabuscorp do Palanca não voltou a sentar-se no banco de uma outra equipa. Faltam convites ou é mero desejo de cumprir um período sabático?
Depois de sair do Kabuscorp já recebi sim alguns convites, não se efectivaram por uma ou outra razão, mas não foram tantos. Depois decidi então cumprir o ano "sabático" até aparecer o convite do General Carlos Hendrick. Como não era para o campo técnico, facilitou tudo e então aceitei.

Sabemos que é actualmente uma espécie de cérebro de futebol do 1º de Agosto. Está satisfeito com esta função ou mantém o desejo de voltar a treinar?

Não sou o cérebro de nada. Dirijo um gabinete que tem um conjunto de responsabilidades no clube. Estou satisfeito porque é um desafio. É verdade que não é um projecto "visível" aos olhos das pessoas mas penso que terá a sua preponderância na consolidação do projecto global do Clube desenhado pelo presidente Carlos Hendrick.

Como técnico passou pelas principais equipas do nosso Girabola. Não estaremos em vias de um dia vê-lo a deixar o gabinete que dirige para o banco da equipa como técnico?
O 1º de Agosto tem um treinador que foi campeão e que tem tudo para voltar a ganhar o Girabola. Todos no Clube trabalhamos para que isso aconteça. Todos temos cada um bem definido o seu papel.
   
Fala-se numa certa preferência dos clubes pelos técnicos expatriados em detrimento dos nacionais. Também comunga desta opinião?
Os clubes são livres de decidirem e escolherem os treinadores. O que eu penso é que temos sim treinadores nacionais a altura de qualquer clube. O treinador estrangeiro sempre traz algo diferente, independentemente das suas qualidades. Até mesmo do ponto de vista cultural já provoca nos atletas outros estímulos. Nem todos ganham. Nem sempre o melhor vence. Acredito que não se tem dado ao treinador Nacional as mesmas oportunidades e até mesmo em alguns casos maior margem de crédito. Com o Nacional é quase sempre tudo mais curto.

Que avaliação faz ao nível competitivo da presente edição do Girabola quase, quase na recta final?

A presente edição do Girabola na minha opinião está menos competitiva. Penso que a situação actual que vive o País obviamente penalizou quem já era carente. Há menos condições. A seis jornadas do fim só duas equipas estão a discutir o título, do ponto de vista de organização alguns problemas conjunturais concorrem para um maior desnível. Mas há emoção...

1º de Agosto e Petro quem dos dois está com maiores possibilidades de conquistar o título?

Está tudo em aberto. Faltam cinco jogos e cada um terá a cada jornada adversários difíceis, cada jogo a complexidade e grau de dificuldade maior. Eu analiso no seguinte prisma: o Petro neste momento é líder com um ponto a mais, quer dizer que tem uma vantagem de facto e só depende de si. O 1º de Agosto possui uma vantagem de circunstância, ou seja, só em caso de igualdade pontual tem o seu valor. Mas olhando para cada adversário de cada uma das equipas, penso que teremos uma luta renhida até final do campeonato.

Temos uma nova geração de treinadores bons e uma nova geração de árbitros e dirigentes também bons, mas o futebol em si enferma da falta de qualidade. Por que será?

Atenção:  a qualidade dos jogadores não tem só a ver com os treinadores, árbitros, dirigentes etc, etc... O desporto é na maior parte das vezes também o reflexo das sociedades. Penso que temos vindo a atravessar momentos menos bons. Às vezes podem ser reflexo de tomadas de decisões a outros níveis e esféras. Bom, mas isso dava para outra abrangência de discussão. Depois há os fenómenos dos ciclos, que se não olharmos para eles com o devido propósito poderemos estar a adiar cada vez mais o futuro.

Estando bem inserido nos meandros da modalidade também acreditas na existência de corrupção no nosso futebol?

Tocou no aspecto de que enferma o futebol. Eu não digo que exista ou não corrupção, mas quando se coloca tudo dentro de suspeições obviamente que alguma parte mal servida fica. Precisamos de valorizar mais o futebol, o jogo, o treino, o jogador, o árbitro, o adepto. Uma questão por exemplo que se assiste e pensamos que não tem influência na qualidade do jogador e do jogo são os horários em que se treina e joga, em muitos casos em condições que o humano sobrevive se atendermos ao facto de que ele desenvolve uma actividade física. Depois tudo bem em cadeia

SUPERAÇÃO
Investimento
pessoal na formação


É dos técnicos que mais investe na sua formação. Tem sempre patrocinadores ou faz recurso ao próprio bolso?
O investimento na minha formação resulta de um esforço pessoal, mas a família e até mesmo amigos quando podem participam, de uma ou outra maneira. Por exemplo os estágios no Chelsea e no Manchester foi o meu irmão Gil quem patrocinou. A minha ida ao Atlético de Madrid foi por intermédio do Presidente Tomás Faria. No Valência foi um amigo (Luís Coutinho) quem providenciou. Na Lázio desfrutei da relação com o Bastos. No SLB felizmente o Sheu sempre atendeu aos pedidos. No Braga foi por via do Jorge Simão que anos antes tinha sido Director de Curso em que participei e ficou a relação. Na verdade, tudo resulta de contactos e vontades que demonstro. Não é fácil nem muitos têm essa sorte e possibilidades porque apesar das facilidades, os custos são de minha responsabilidade e aí sim, doe o bolso.

O seu nível actual lhe satisfaz ou pensa cumprir outras acções formativas?
O treinador nunca está satisfeito. Quer sempre mais. Actualizações permanentes para nos manter por dentro das novas tendências que o futebol desenvolve. Não se pode parar.

É campeão nacional pelo Recreativo do Libolo. Este feito já satisfaz ou é um currículo ainda a enriquecer?

Quem não quer ser campeão? Duas, três, vinte vezes. Penso que todo treinador quer ganhar mais e sempre. Eu não fujo à regra. Obviamente que o título do Libolo teve sabor diferente. Foi construído. O clube vinha de dois campeonatos ganhos e depois fez uma época menos boa. Entrei a meio na época anterior e construímos processos para a época seguinte.