Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

O xadrez um factor pedaggico

26 de Outubro, 2010

Armindo Sousa aposta no futuro do xadrez em Angola

Fotografia: Jos Soares

Um novo projecto nasce em Luanda, pelas mãos da EPAL e da Escola Ngola Mbandi. Que apreciação se lhe oferece fazer?
É um projecto do Grupo Desportivo da EPAL com vista a dar outra imagem ao xadrez nacional, bem como ocupar os tempos livres das crianças. Outrossim, tem a ver com a competição. Neste momento, temos poucos atletas jovens a praticar a modalidade, por falta de massificação. Desde que a Cuca e a Nocal acabaram com o processo de incentivo à prática do xadrez, não se faz massificação em Luanda. Excepção feita à Escola Macovi, que leva avante o trabalho junto das camadas mais jovens. A nossa intenção, ao criarmos esse projecto para ajudar a massificação, é mudar a imagem do xadrez angolano no exterior, porquanto, durante muito tempo, tínhamos jogadores nas selecções do Resto do Mundo, já tivemos campeões africanos, em juniores. São factos que actualmente não acontecem.

Quantos alunos estão inseridos no projecto?
Estamos a trabalhar com mais de 100 crianças. Em cada turno de 30 minutos e, de acordo com as borlas nos horários escolares, as crianças são inseridas em diferentes aulas.

Em que consistem as aulas?
Actualmente, estamos em fase de anotação e de conhecimento, portanto, massificar o xadrez nas escolas. Logo a seguir, passamos para a importância do xadrez. Há muitos jovens nas categorias de juvenis e de juniores com qualidade fraca nos diferentes torneios em Luanda, o que demonstra debilidades na formação. Por essa razão, também decidimos apostar nessa vertente.

Que motivos estão na base das debilidades dos jovens?
Não diria que a culpa é dos formadores, porque a Federação Angolana de Xadrez não faz formação para técnicos há muito tempo. É necessário formar treinadores ou professores de xadrez para termos atletas de elevada qualidade.

Como tem sido o empenho dos alunos?
É maravilhoso. Pensámos que teríamos pouca adesão por ser uma modalidade pouco difundida. Na verdade, houve um grande número de alunos a abraçar o projecto. Estamos satisfeitos. 

Quanto à participação feminina?
Há muita participação e as atletas já começaram a dedicar mais tempo à modalidade.

Com a abertura da escola, há garantias para o futuro do xadrez?
A EPAL está preocupada com a formação, que é fundamental para a sobrevivência do xadrez em Angola. Estamos a formar jogadores para obter os resultados dentro de oito a dez anos. Para a maioria das pessoas, é um trabalho invisível, mas é o único caminho.

Além da EPAL, existem a Escola Macovi e a do Mestre JF. Começa-se a despertar para o surgimento de escolas em Luanda?
É um facto que as escolas de xadrez devem reunir as condições para realizar um trabalho válido. Tal como a nossa, surgiram outras escolas e organizações com o mesmo objectivo. As escolas de xadrez e o desenvolvimento do xadrez são extremamente importantes, não só para a evolução dos miúdos, como para o futuro da modalidade. É preciso reflectir sobre o futuro, porque o xadrez está a perder qualidade e praticantes. É preciso dotar os jovens atletas de qualidade elevada.

Há, na vossa escola, jogadores que garantem um futuro risonho?
Há. Confesso que há miúdos com potencialidades. Estamos a falar de infantis, de jogadores que hoje são importantes e amanhã nem por isso. Há uns que evoluem, naturalmente, e outros que se perdem. Há os que se superam e os que despertam mais tarde, tecnicamente. Nessa fase, o importante é o acompanhamento da evolução e tentar não desperdiçar os valores. Existem potenciais jogadores que dependem da evolução e da orientação.

“Devemos incentivar as crianças”
Que qualidades o aluno precisa de desenvolver para obter resultados no xadrez?
Esforço individual nos treinos e persistência. Os pais também precisam de incentivar e acompanhar as crianças, mas sem exigir os resultados, para que não percam o prazer de jogar xadrez.

Como o jogo de xadrez influencia no desenvolvimento de uma criança?
O interessante é que o xadrez pode envolver qualquer pessoa e há várias formas de trabalhar; podemos ensinar aos alunos várias coisas usando as pecinhas do xadrez. Por exemplo, a Geografia e a Língua portuguesa são disciplinas que podem servir de exemplo. Podemos pedir-lhes que produzam textos sobre o xadrez. Assim, atingimos a educação infantil também. Trabalhamos com crianças, algumas com 11 anos de idade, por exemplo, e é difícil ensinar-lhes o xadrez. As crianças têm de aprender os movimentos, mas sem perceber, porque estão a brincar, jogando. O xadrez não se ensina de forma bruta, deve-se trabalhar com desenhos, familiarizando a criança e incentivando o raciocínio. O xadrez tem de ser visto como um elemento pedagógico e não como um mero jogo.

Como lidar com a reacção das crianças no jogo?
Se se criar um trauma na criança, nunca mais vai querer saber de xadrez, principalmente, se perder o jogo por motivos de provocação de outra. O professor tem de estar capacitado para identificar a causa e sanar o problema na sala de aula, porque senão o xadrez pode ser um empecilho e não um auxílio. As crianças têm de aprender a perder e a ganhar, mas de uma maneira diferente. O treinador deve passar esses valores. Só é possível desde que tenha conhecimentos de psicologia e pedagogia, sem os quais cria lacunas.

Como se consegue dosear a quantidade de ensinamentos e treino específico sem minar o talento e a criatividade de cada um?
O importante é fazer compreender aos jogadores mais dotados tecnicamente que devem colocar as suas capacidades inatas ao serviço do colectivo. Hoje, as exigências tácticas do xadrez impõem que cada vez mais se valorize o rigor táctico em detrimento da técnica individual. Para os jogadores mais dotados nesse capítulo, devemos incentivá-los a criar rotinas para que usem a sua mais-valia no tempo e no espaço próprios no contexto organizacional do jogo. Se os habilitarmos a usar a arma no momento e no sítio certo durante o jogo, instruindo-os a desempenhar outras tarefas importantes na dinâmica da forma de jogar, em qualquer das fases do jogo, estamos a contribuir para os tornar melhores. Continua a haver espaço para a criatividade e talento mais dirigidas a momentos específicos do jogo e no espaço certo do terreno de jogo.

A forma como o xadrez está a ser popularizado deixa-o preocupado?
As escolas públicas têm o xadrez no projecto Escola da Família; as particulares também têm. Se há concorrência, também há no xadrez. Todo o mundo está a ensinar xadrez, mas alguns estão a ensinar sem explorar o factor pedagógico do jogo. Vamos ter meramente um projecto de xadrez nas salas de aulas, se não houver intercâmbio entre os professores, pedagogos e outros agentes. É um alerta para que se pare a proliferação do ensino de xadrez que não observe as medidas elementares.

Como se prepara para as aulas?
Para ser professor de xadrez, primeiro, tem de se ser jogador. Tenho um plano para cada aula e não vou para a sala de aulas sem me fazer acompanhar dele. Cada aula tem um objectivo específico, uma metodologia. Ensino os movimentos do xadrez, finalizações, mas junto a cidadania. Isso resulta da minha experiência de jogador nacional e internacional, mais a pedagógica.

Sete tabuleiros
para cem alunos

Quais as principais dificuldades que enfrenta?

Neste momento, faltam-nos tabuleiros e material didáctico, como livros. Temos muitos alunos e cada grupo recebe uma aula de 30 minutos, infelizmente. Era nossa intenção aumentar o tempo, mas devido à falta de material, somos forçados a trabalhar com pouco tempo.

Quantos tabuleiros existem?
Temos sete tabuleiros. É nossa intenção adquirir mais, porque o número de alunos aumenta a cada dia.

Endereçaram algum pedido à Federação Angolana de Xadrez?
A federação também tem poucos recursos. Tem um projecto igual ao nosso, mas está com dificuldades de material desportivo. O nosso apelo vai para as pessoas de boa fé, para que nos ajudem a adquirir mais tabuleiros, pois temos muitos jovens com vontade de aprender xadrez. Sete tabuleiros para mais de 100 crianças, nos três períodos, é um número ínfimo.  

Projecto de referência no Rangel

Os resultados do vosso projecto têm sido os esperados?
Sim. É um projecto que já é referência, não só para a escola, mas para o município do Rangel. Onde vamos, somos elogiados. Em todos os encontros, o nosso projecto é referido como modelo perfeito de intercâmbio entre as administrações e directores das escolas, professores das demais disciplinas e instrutores. Há uma grande receptividade dos alunos. O mérito deve-se aos responsáveis da EPAL, que conseguiram convergir para a modalidade o apoio de variados sectores.

Como o xadrez se repercute nos jovens atletas?
Além do lado pedagógico, a primeira razão de o xadrez estar no ambiente escolar, o seu lado desportivo é muito importante. Tomar parte nas competições, ganhar e perder, fortalece o carácter do jovem e torna-o mais sensato, diante das dificuldades da vida, que se assemelha a uma partida, com vitórias e derrotas, dias alegres e tristes. No que toca à competição, a Escola Ngola Mbandi é um verdadeiro celeiro, com dezenas de jovens talentosos a serem descobertos.

Que qualidades deve possuir um professor de xadrez?
Gostar de trabalhar com crianças, ter didáctica e paciência. A principal é acreditar que está a contribuir para o crescimento intelectual do aluno e para a sua vida.

Perfil
Nome completo:
  Armindo de Sousa
Naturalidade: Malange
Data de nascimento: 17/01/1966
Nacionalidade: Angolana
Formação académica: Técnico médio de Educação Física
Título: Mestre Internacional de Xadrez