Jornal dos Desportos

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Entrevistas

O xadrezista que "comeu o po que o diabo amassou"e esteve beira da loucura

Joo Francisco - 31 de Dezembro, 2012

Domingoso Fernandes regressou em forma de Espanha onde esteve a efectuar um estgio

Fotografia: Nuno Flash

Muitos dos xadrezistas que foram companheiros de Domingos Fernandes passaram com ele pelas extintas escolas de xadrez dos Rodoviários, foram posteriormente absorvidos pelo Grupo Desportivo da Nocal e continuaram no Grupo Desportivo da EPAL ou na actual equipa do 1º de Agosto, clubes que monopolizam os melhores jogadores da actualidade. Em 1993/94, foi campeão interno do Grupo Desportivo da Nocal, ainda nas categorias de juvenis e juniores. O GD Nocal era, na altura, a agremiação que substituiu o Núcleo de Xadrez da Constrói, liderada pelo grande Alexandre Gourgel, que na altura era a principal escola fornecedora de talentos no “jogo-ciência”.

Debilha já tinha, na altura, como colegas, os mestres Adérito Pedro, Catarino Domingos e Eduardo Pascoal, além de Abraão Augusto, que embora não tenha chegado a mestre foi campeão de juniores e pertenceu àquela que é considerada a “geração de ouro” do xadrez angolano, à qual se juntam ainda os Mestres Internacionais Eugénio Campos, Vladimiro Pina e Amorim Agnelo, que dominaram em cinco anos consecutivos (93/97) o escalão júnior do continente africano. Nos anos de apogeu, Domingos Fernandes sagrou-se campeão provincial de juniores de Luanda, sempre à frente dos seus contemporâneos.

Nessa mesma categoria, ocupou o segundo lugar no campeonato nacional (vice-campeão), posição que devia dar-lhe o direito a ser convocado pela primeira vez para a selecção de juniores, com promessa de representar o país na prova continental, na época o cartão-de-visita de Angola.

“Quase fiquei maluco”
Outro episódio que quase o levou à loucura aconteceu em 1997, quando o técnico Manuel Andrade (já falecido) convocou uma pré-selecção nacional de xadrez sénior integrada por Domingos Fernandes, devido ao seu bom momento de forma, para preparar o Campeonato Africano no Cairo (Egipto), que acabou por não se concretizar, também por motivos pouco claros. “Para meu azar, acabámos por não viajar e falhámos mais uma competição quando, inclusive, já nos encontrávamos no aeroporto. Acho que no xadrez não via obstáculos nos jogadores, mas sim nos dirigentes da Federação Angolana de Xadrez (FAX)”.  “Os meus adversários no xadrez estão bem localizados e controlados. Se, no passado, conseguiram superar-me devido aos maus episódios que ocorreram na minha vida, agora vai ser diferente”, disse.

MOMENTOS
“Fui preterido muitas vezes nas selecções nacionais”

O critério para se ser convocado para as selecções nacionais de juniores, naquela altura, incluía o campeão nacional e o vice-campeão, como os principais candidatos para representar o país nas competições internacionais. “Lembro-me como se fosse hoje, quando fui afastado da selecção nacional para disputar o africano de Nairobi (Quénia), que foi vencido pelo Adérito Pedro, o primeiro medalha de ouro de Angola naquela competição de juniores, que abriu o caminho para as outras que se seguiram”, recorda.

Domingos Fernandes acrescenta que era o vice-campeão nacional, atrás do campeão Abraão Augusto, que chegou a disputar o africano de Nairobi, mas que contra todas as previsões não integrou o grupo. Não foi o único caso em que ficou em terra. Não integrou selecções nacionais no passado por motivos alheios à sua vontade. Segundo o jogador em 1994 classificou-se na quinta posição do Campeonato Nacional individual absoluto, mas os critérios para a escolha dos seis que normalmente integravam as selecções olímpicas de xadrez (a modalidade disputa as suas olimpíadas separada dos demais desportos, de dois em dois anos) deixaram-no novamente de fora da selecção, pois a Comissão Técnica Nacional de Xadrez levou outros jogadores para a Olimpíada. 

“Saí com o mesmo número de pontos do quarto classificado, que foi o Mestre Nacional Francisco Briffel, agora vice-presidente da Direcção da Federação Angolana de Xadrez (FAX), mas fui preterido mais uma vez por outros jogadores. Recordo-me que a selecção que na altura disputou a 31ª Olimpíada, em Moscovo, foi composta pelos Mestres Aristóteles Ramos, na altura o campeão nacional, Armindo de Sousa, Francisco Briffel, Manuel Mateus, Adérito Pedro e Eugénio Campos”, frisou.

CARREIRA DESPORTIVA
Domingos Fernandes representou o GD Rodoviários, que levou o Mestre Internacional Adérito Pedro e muitos outros dos melhores jogadores de xadrez da nossa praça. Passou igualmente pelo GD Nocal, Atlético Sport Aviação (ASA), Escola de Mestres e agora representa o Colégio Polivalente Aldanuel.
Esteve recentemente a efectuar um estágio em Espanha, com participação em alguns torneios internacionais abertos naquele país que, naturalmente, lhe deram a força suficiente para vencer o Campeonato Nacional de Xadrez Activo de 2012. “Eu é que levei o Adérito Pedro para o Grupo Desportivo Os Rodoviarios. Fui pessoalmente pedir à mãe dele para o inscrever no clube, tratei com ele de toda a documentação necessária. Hoje, é uma das principais referências do país”, revelou ainda.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Jornal dos Desportos: Já alguma vez pensou em ser técnico principal da selecção nacional de xadrez?
Domingos Fernandes: Já. Preciso apenas aprimorar a minha formação específica. Acredito que, dada a minha idade já um pouco avançada, tenho de caminhar nessa direcção. Por enquanto, estou a começar a especializar-me no treino dos escalões de formação .

JD: Esta satisfeito com a posição que ocupa no clube Colégio Polivalente Aldanuel?
DF: Como jogador estou satisfeito. Mas queria dar o meu maior contributo como técnico dos jogadores de formação não só na minha equipa. Até já me ofereci, mas não vejo as razões de não me porem a exercer outras funções que me permitam transmitir a minha experiência, adquirida ao longo de muitos anos. Reconheço que existe uma grande lacuna nesse sector.

JD: Se lhe pedissem para fazer uma selecção nacional de honras para 2013, que xadrezistas elegia?
DF: Apostava em Adérito Pedro, Catarino Domingos, Amorim Agnelo, Ediberto Domingos e João Simões.

JD: E onde é que ficava colocado?
DF: Estaria a ver-me como técnico dessa mesma selecção nacional e não como jogador, onde podia colocar-me como suplente ou o sexto jogador, para ser mais modesto.

JD: O que achas do novo elenco da FAX liderado por Aguinaldo Jaime?
DF: Acho que caminha para um melhor desempenho. Houve mexidas significativas e agora vamos esperar que resultem.

PERFIL
Nome Completo: Domingos Francisco Fernandes
Filiação: Francisco Domingos Fernandes e Domingas Lopes de Carvalho.
Data e local de Nascimento: 13 de Abril de 1974, em Luanda.
Estado Civil: Solteiro
Namorada: Vivo maritalmente
Filhos: Cinco
Altura: 1,90m
Peso: 73 kg
Estilo de jogo: Agressivo
Técnica: Prefiro as posições típicas das aberturas e defesas que joga
Hobby: Ver filmes e jogar xadrez blitz (rápidas de 3,05 minutos)
Filmes: Comédia e Acção
Prato: Funji com carne seca
Bebida: Gasosa
Qual é a sua virtude: Atencioso
Já recorreu à mentira: Às vezes
Religião: Protestante
Casa própria: Um sonho por realizar
Carro próprio: Não. Motorizada
Sonho: Ser um grande técnico